Estamos avançando lentamente na imensa catedral gótica que é a Suma Teológica; ora contemplando os detalhes, os pequenos arabescos, relevos, pinturas e esculturas, ora levantando os olhos para contemplar o conjunto do edifício e o seu sentido global. Este é um destes momentos: levantar os olhos. Até agora, conversamos com São Tomás sobre a própria possibilidade de estabelecer um diálogo a respeito da Revelação com bases racionais, o que ficou estabelecido na primeira questão. Depois, conversamos sobre a existência de Deus, na segunda questão, e da sua simplicidade, na terceira.

É impressionante notar, nesta construção maravilhosa, como os aspectos propriamente técnicos do edifício harmonizam-se maravilhosamente com os seus aspectos mais estéticos e contemplativos – uma perfeita integração entre a engenharia, a arquitetura e a ambientação. São Tomás é um pesquisador, um professor rigoroso, um pensador lógico, mas também é um fiel, piedoso e contemplativo cristão, que ama profundamente Aquele que busca e testemunha. A partir daí, estudamos a perfeição de Deus na questão 4, o que nos conduziu diretamente à pergunta sobre o bem. Bem e perfeição são conceitos intimamente relacionados, como nós já vimos. E percorremos toda a questão 5 como um glossário filosófico introdutório sobre a questão do bem, para adentrar, na questão 6, ao debate sobre a relação entre Deus e o bem – que é a conversa que concluímos no texto anterior.

Agora, somos convidados a entrar em mais um ambiente, dentro desta grande antessala em que estamos, que é o estudo de Deus sob o enfoque da sua unidade. O novo ambiente é o que diz respeito à infinitude de Deus – objeto da questão 7. E a infinitude de Deus traz, de imediato, a questão sobre a presença de Deus em toda parte e em todas as coisas – objeto da questão 8. Sim, porque aquilo que é infinito deve, de algum modo, estar presente em toda parte e em tudo o mais que existe. Logo, a questão da infinitude traz, como corolário imediato, a pergunta pelo modo de presença de Deus na sua criação.

Na questão 7, serão quatro artigos – 1. Se Deus é infinito; 2. Se há algum outro ser que tenha a infinitude por essência, 3. Se há algum outro ser que seja infinito atual em grandeza [usando o conceito de atualidade como oposto a potencialidade] e 4. Se é possível que haja uma multidão infinita e atual [efetiva] de criaturas.

Os artigos se debruçarão sobre as várias noções de infinitude, como a noção matemática, a noção grega de infinitude como indeterminação, a noção espacial de infinitude e a relação destas noções com as noções de quantidade e de grandeza. Há, portanto, um instrumental filosófico que receberemos de São Tomás aqui, e um instrumental filosófico que ele pressupõe que já temos, para enfrentar estas questões. Como instrumental que ele presume que já temos, estão a noção de ato e potência, de substância e acidente, de movimento como passagem do ato à potência, de quantidade como categoria acidental, e as noções de forma e de matéria.

Acho que nesta caminhada que fizemos até agora já lidamos razoavelmente bem com tais conceitos, e eles serão enriquecidos no debate sobre esta questão. No mais, adquiriremos as noções de infinitude, de indeterminação e de plenitude formal ao longo deste debate – no qual, espero, concluiremos enriquecidos não somente quanto às ferramentas filosóficas e teológicas que obteremos, mas na nossa capacidade de contemplar a Deus em mais um aspecto da sua relação conosco e com a criação. Vamos aos debates.