Vamos à resposta sintetizadora de São Tomás, na qual ele esgotará tão bem o assunto que não verá mais a necessidade de responder separadamente aos argumentos adversos iniciais (que, aliás, não serão refutados, mas assumidos e ressignificados).
Para começo de conversa, São Tomás nos coloca de logo a diferença entre as nomeações absolutas e as nomeações relativas.
Quanto às atribuições relativas, são Tomás nos lembra que podemos atribuir predicados as coisas de modo relativo, a partir de realidades que estão fora das próprias coisas, quando estamos tratando das relações que as coisas estabelecem. A palavra “relativo”, aqui, decorre, portanto, das atribuições que dizem respeito às relações das coisas com outras coisas distintas de si mesmas. É o caso do deslocamento das coisas, da velocidade, da posição, ou mesmo da medida de alguma coisa; todos estes conceitos são relativos. Falo da velocidade, da posição, do deslocamento de alguma coisa sempre com referência a alguma outra coisa que serve de parâmetro. Falo da medida, da quantificação, sempre com relação a algum padrão de medida externo, como o padrão métrico, ou mesmo o sistema de peso referenciado pelo “grama” é relativo a um padrão externo e independente da coisa medida.
Mas há um outro tipo de atribuição, que São Tomás chama de absoluto, e que diz respeito às coisas em si mesmas. Por exemplo, quando percebo que a criatura que se aproxima de mim é um ser humano, como posso afirmar isto? Como posso atribuir a uma criatura um nome de essência? São Tomás nos diz que, aqui, as opiniões divergem.
São Tomás nos conta que os platônicos acreditam que esta atribuição também é relativa: haveria um reino separado de ideias, onde haveria o referencial de todas as coisas que existem aqui em nosso mundo sensível. Assim, as coisas com que nos deparamos aqui no nosso mundo sensível seriam nomeadas por sua relação com a ideia existente no reino separado das ideias, no qual existiria a coisa em si. Assim, por exemplo, cada cavalo que vejo aqui na terra é, na verdade, apenas uma concreção, uma individualização, uma instanciação sensível do “cavalo em si” que existe no mundo das ideias e que é pleno e perfeito. Esta relação entre as coisas sensíveis, concretas e individuais com que nos deparamos por aqui, e seus universais perfeitos ou “coisas em si” que existem no reino das ideias é chamada de “participação”, pelos platônicos. As ideias, para os pla são sempre absolutas, reais, perfeitas e concretas, ou seja, elas existem de modo mais real, uno e bom do que as suas instanciações sensíveis individualizadas com as quais nos deparamos diariamente. A ideia é absoluta e universal. As coisas sensíveis e individuais são sempre participações relativas às ideias.
Da noção de que todas as coisas concretas e individuais são participações nas ideias separadas, os platônicos elaboram a noção da “coisa em si”, que nada mais é do que a ideia separada da coisa: o cavalo em si, o ser humano em si, o gato em si, são ideias existentes e únicas em si mesmas que estão no reino das ideias. Há, no mundo sensível, muitos cavalos individuais, mas no reino das ideias há apenas um “cavalo em si”, do qual todos os cavalos concretos daqui do mundo participam.
Mas isto nos traz um problema de segundo nível: se há um único cavalo em si, um único homem em si, um único gato em si, que existe em toda a plenitude e encerra todas as perfeições, é preciso que haja uma ideia da existência em si, ou seja, o “ser em si”, bem como uma ideia do único em si, da “unidade em si”, e estas ideias do “ser em si” e do “uno em si” devem conter todas as perfeições de ser e da unidade; donde se conclui que deve haver uma ideia da perfeição em si, que consubstancia o sumo bem e da qual todas as outras ideias, inclusive o ser em si e o uno em si, participam. Assim, para os platônicos que São Tomás cita, o sumo bem é a origem, fundamento e explicação última de tudo o mais, e portanto tem valor divino nesse sistema. Em resumo, o sumo bem é Deus, e tudo o mais apenas participa dele.
São Tomás então nos lembra que Aristóteles provou a inconsistência da noção platônica de um “reino separado das ideias”; mas São Tomás completa que, mesmo adotando uma visão aristotélica do mundo, não há como escapar da verdade de que há um primeiro, que explica todo resto, e que por sua própria essência é ente, uno e bom, e do qual todas as criaturas, para que possam ser ditas “entes”, “unas” e “boas”, devem participar. Assim, São Tomás harmoniza Aristóteles e Platão, unindo um universo formado por indivíduos essencialmente consistentes e existentes, mas universalmente relacionados entre si por relações reais de forma, como na visão aristotélica, com o sumo bem, o ser em si, que é a própria unidade, e que dá origem e consistência a tudo mais por participação, como na visão platônica. Deus guarda em si toda a perfeição universal que se consubstancia concretamente nas criaturas de modo participado. Estas perfeições estão em Deus não como se estivessem num certo “reino separado das ideias”, mas como pensamentos que estão numa mente pessoal.
É bom guardar este conceito de participação, porque, embora rejeite a noção de um “reino das ideias”, São Tomás adotará a noção platônica de “participação” como essencial à sua concepção de criação. Para São Tomas, as coisas individualizadas e concretas têm em Deus sua causa exemplar, porque na mente de Deus está a espécie, a ideia perfeita, una e absoluta de tudo o que foi criado. As coisas individualizadas também encontram em Deus sua causa eficiente primeira, porque recebem de Deus como um dom o seu ato de existir próprio, que as torna coisas reais, consistentes e individualizadas. E, para concluir, as coisas têm em Deus sua causa final, porque cada criatura que existe de fato carrega em si seus atos e suas potências, mas caminha para uma perfeição que só é real na mente divina, e à qual todas as coisas tendem.
Portanto, a causa exemplar, a causa eficiente primeira e a causa final das coisas é o próprio Deus. Mas, como nós já estudamos em outros textos, estas causas são todas causas externas das coisas: as causas internas são a matéria e a forma; e cada criatura tem em si a sua própria matéria e a sua própria forma. E esta forma é dita boa porque participa da bondade que há no seu princípio exemplar, eficiente e final que é Deus. Mas a forma da coisa não é Deus, nem sequer é a forma de Deus. A forma da coisa é a própria forma da coisa. É por isto que podemos dizer que a bondade da forma da coisa é uma bondade intrínseca da coisa, e pertence à própria coisa; cada coisa é boa pela sua própria forma. Mas tudo o que esta forma é, ou seja, o seu ato de existir mesmo, é uma participação, e portanto ela é boa em razão da bondade última e absoluta de Deus.
É assim que São Tomás pode concluir simplesmente dizendo que há a bondade única de todas as coisas, que é Deus, mas também há as múltiplas bondades das coisas, que se dizem boas por participação, mas de modo real. E nesta síntese entre a bondade participada de todas as coisas, que existe nas coisas e as faz boas por si mesmas, e a bondade absoluta e fundante de Deus, que torna as coisas boas por exemplariedade, eficiência e finalidade, São Tomás harmoniza os argumentos iniciais entre si e demonstra seu verdadeiro sentido e seus respectivos limites. E se dispensa de responder a eles individualmente.
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