Alguém já disse que Deus não é simplesmente bom – ele é a própria bondade subsistente. Se conseguíssemos vislumbrar um ser que fosse a própria bondade, estaríamos vislumbrando Deus. Mas as coisas não são assim tão simples; nós temos uma tendência natural a estabelecer a bondade a partir de um critério de medida; muito mais do que pensar em coisas boas, normalmente pensamos em duas coisas como melhores uma que a outra. Isto não funciona para Deus. A bondade de Deus não aceita medida, nem comparação. Ela é em si mesma e por si mesma, e isto é muito difícil, senão impossível, de imaginar para nós.
Outra razão é que Deus não é simplesmente a própria bondade hipostasiada; teríamos que conceber um ser que fosse, a um só tempo e simultaneamente, o próprio ser, a própria perfeição, a própria bondade, a própria justiça, enfim, tudo aquilo que em nós é perfeição por acidente e composição tem sua expressão essencial em Deus. Sem composições. De modo simples, simultâneo, absoluto. Ou seja, além de qualquer possibilidade de concepção e imaginação, para nós.
Por outro lado, a distinção entre Deus e o universo criado torna difícil conceber exatamente como as criaturas podem ter alguma consistência, alguma realidade fora do próprio Deus. São Tomás tratará da existência de Deus nas coisas na questão 08, adiante, e debaterá exatamente a relação entre o ser de Deus e o ser das coisas, e da relação entre a presença de Deus nas coisas e a consistência destas. Aqui e agora, interessa-nos compreender como é que Deus pode ser a própria bondade e, mesmo assim, nós podemos falar da bondade da criação. De que estamos falando, quando falamos na bondade das criaturas? Dois conceitos importantíssimos estarão sempre em jogo aqui: a noção de analogia e a noção de participação. Estas duas noções permitem compreender a relação entre deus e a sua criação, nos limites do intelecto humano – limites enormes, como sabemos. Nosso intelecto é pequenino e pode muito pouco. Mas São Tomás nos ensina a confiar no pouco que podemos: o Catecismo da Igreja Católica nos assegura que “Ao falar assim de Deus, a nossa linguagem exprime-se, evidentemente, de modo humano. Mas atinge realmente o próprio Deus, sem todavia poder exprimi-lo na sua infinita simplicidade.” É pouco o que podemos obter. Pouquíssimo. Mas um pouquinho de Deus é infinitamente precioso do que uma enormidade de tudo o mais. Como dizia a velha canção de Roberto Carlos: “Senhor, quem sou eu pra que entreis/ Em minha morada/ Mas um fio de sua luz/ Numa telha quebrada/ Ilumina uma vida pra sempre, Jesus!”
Vamos ao artigo. Depois de começar sempre pela hipótese que negava simplesmente aquilo que buscava demonstrar, neste artigo São Tomás inverte o jogo: aqui ele afirma, no princípio, aquilo que na sua síntese será negado ao final. Sua hipótese inicial, portanto, é a de que “parece que todas as coisas são boas pela bondade divina”.
Hipótese tentadora. Porque é pura, piedosa e parece se coadunar bem com a fala de Jesus ao jovem rico em Mt 19, 17: Ninguém é bom, senão só Deus. E São Tomás colecionará logo dois argumentos adversos, em favor de sua hipótese inicial, um retirado de Santo Agostinho e outro de Boécio. Autoridades de peso. Será muito interessante ver, na sua síntese, São Tomás demonstrar que todo bem está em Deus e é Deus, e ao mesmo tempo afirmar que as criaturas são boas por bondade própria. Este artigo demonstra que acompanhar um debate com São Tomás não é algo trivial. Ele não é simplesmente alguém com uma resposta já escondida na manga, que faz um jogo de cena ao retirar a hipótese contrária. Ele realmente ouvirá, a cada vez, todos os argumentos para um lado e para o outro, e sintetizará, na sua resposta, tudo o que for relevante para o assunto.
O primeiro argumento adverso traz uma citação de Santo Agostinho; aqui, Agostinho procede pela chamada “via remotionis”, ou seja, pensa-se nas perfeições das criaturas e, em seguida, removem-se mentalmente todas as limitações criaturais, e deste modo se forma alguma noção sobre a perfeição de Deus. Esta é uma maneira válida de raciocinar, nos limites do intelecto humano e suas fraquezas. Mas deve ser usado com cuidado, como São Tomás demonstrará.
De fato, vejamos o que diz Santo Agostinho, que é mais ou menos assim: Veja a bondade disto e a bondade daquilo; remova então o ‘isto’ e o ‘aquilo’ e veja o próprio bem, se puderes. Deste modo verás a Deus, cuja bondade não decorre da bondade de outra coisa, mas é a própria bondade de tudo o que é bom.”
Desta fala de Agostinho o argumento conclui que todas as coisas são boas pela bondade de Deus. Será interessantíssimo ver São Tomás matizar esta conclusão, no final, sem desmenti-la, mas conduzindo-a de volta ao seu sentido verdadeiro.
O segundo argumento é de Boécio. Ele diz que todas as coisas são boas na medida que são ordenadas a Deus, e isto em razão da bondade divina. Daí o argumento conclui que todas as coisas são boas em razão da bondade divina.
No argumento sed contra, afirma-se que todas as coisas são boas na medida que existem. Mas o existir das coisas não se confunde com o existir de Deus; cada coisa existe pelo seu próprio ato de existir. Logo, cada coisa é boa pela sua própria bondade. Também este argumento será devidamente acolhido e matizado por São Tomás, e ele é de extrema importância: da sua reflexão equilibrada sairão os critérios para afastar, por um lado, uma concepção panteísta de universo, em que o existir de Deus se confunde simplesmente com o existir das coisas, ou uma concepção mecanicista, deísta, de universo, em que as criaturas, depois de criadas, não dependem mais de Deus para serem e serem boas – a velha visão de Deus como “o grande arquiteto” ou “o grande relojoeiro” do universo, que São Tomás saberá desconstruir com tanta habilidade. Entre os extremos do deísmo e do panteísmo, São Tomás nos dá uma visão de Deus que é, a um só tempo, absolutamente transcendente e absolutamente envolvido com sua criação, e de uma criação a um só tempo consistente e plenamente dependente de Deus.
No próximo texto estudaremos a resposta sintetizadora e magistral de São Tomás.
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