Diante da hipótese inicial, vista no texto anterior, que questionava em que medida se pode dizer que Deus é bom, São Tomás não hesitará: ser bom é próprio de Deus, convém a Deus de modo excelente. De fato, São Tomás nos esclarece que alguma coisa é boa na exata medida da sua capacidade de atrair, de apetecer, de ser desejada. Como nós já sabemos, cada coisa apetece, deseja sua própria perfeição (e em que medida as coisas inanimadas podem ser consideradas como portadoras ativas de desejos, São Tomás explicará na resposta ao segundo argumento contrário, abaixo).
Aqui, entram em jogo as noções de potência e ato, bem como as noções de causa eficiente e causa final. Nós já sabemos que nada pode passar da potência ao ato espontaneamente. Há necessidade de uma causa eficiente, externa à própria potência que se atualiza, para que ela chegue a seu ato. As causas eficientes são, portanto, externas à potência que se atualiza, e somente pode levar uma potência ao ato se ela própria (a causa eficiente) estiver em ato quanto àquele aspecto. Um exemplo pode deixar as coisas mais fáceis: imaginemos um muro novo, que acabou de ser construído: ele está em potência para ter uma cor, mas para isto ele precisa ser pintado com a tinta que corresponde àquela cor, ou seja, por uma tinta que esteja em ato para a cor que se deseja colocar no muro. Ora, para que este muro seja pintado, é preciso um agente capaz de realizar toda a técnica, todas as etapas e movimentos necessários para espelhar com adequação e precisão a cor (em ato) no muro (potencial). Depois de pintado, eu posso saber, contemplando o muro, se o pintor era um bom ou mau pintor, e se a tinta era uma tinta de qualidade, apenas pela avaliação da qualidade da pintura. Assim a perfeição da pintura no muro traz em si uma certa semelhança com o agente (o pintor, suas tintas e seus equipamentos), que causará no muro uma perfeição de colorido tão maior quão melhor for este pintor.
É por isto que São Tomás nos afirma que, quando se trata de buscar a perfeição dos atos, o agente em si mesmo é desejável, e a ele se aplica propriamente a noção de bem: o efeito desejado, que é a perfeição, decorre em última instância da perfeição do agente. Porque qualquer perfeição que haja no efeito, no causado, é uma participação na perfeição do agente.
Já sabemos também, de textos anteriores, que a noção de participação (como a noção de analogia), é essencial para compreender a relação entre a criação e o criador, em São Tomás. Participar é receber de outro, de modo particular, derivado, aquilo que o outro possui em plenitude, de modo universal e originário. Assim, uma vez que Deus é a primeira causa eficiente de todos os seres (como vimos na segunda via, questão dois, artigo três), ele é o sumo bem, porque é desejável em grau máximo.
Registre-se que São Tomás poderia ter recorrido à ideia de que Deus é a causa final de todas as coisas, ou seja, que Deus atrai a si as coisas porque é a sua origem e seu fim, e contém em si todas as perfeições. Seria até mais natural, mais evidente frente ao conceito de bem com que São Tomás trabalha. Mas o Deus cristão, que é o Deus de São Tomás, não é o Deus de Aristóteles. De fato, o deus de Aristóteles não quer ser causa eficiente do cosmos – que é completamente outro com relação a ele. O deus aristotélico exerce sua causalidade no universo por atração, nunca por empurrão. Mas o Deus verdadeiro, o Deus de São Tomás, não é um monstro de egoísmo, perdido nos pensamentos de si mesmo, e dando pouquíssima ou nenhuma importância a um universo que não lhe interessa, mas que unilateralmente se interessa e se atrai por ele, movendo-se em sua direção. O Deus de São Tomás, que é o Deus verdadeiro, relaciona-se estreitamente com o universo como criador, ou seja, causa eficiente primeira. E não só na ordem cronológica, mas também na ordem lógica, como demonstra a “segunda via”. Sendo amor, ele não é um mero objetivo externo que atrai indiferentemente as coisas que em nada lhe interessam. Ele é um regente, um condutor, um maestro que impulsiona ativamente as coisas até si, até a perfeição plena que ele quer doar a tudo o mais – ou, como diz elegantemente São Paulo, até “recapitular todas as coisas em Cristo” (Ef. 1, 10), ou até que “Deus seja tudo em todos” (Rom 15, 28).
Agora, tendo colocado o bem em Deus, como causa eficiente primeira, São Tomás passa a responder aos argumentos da objeção inicial. A primeira objeção, como podemos lembrar, é aquela que afirma que, uma vez que a noção de bem implica modo, espécie e ordem, ela não pode ser conveniente a Deus, porque Deus, sendo imensurável e pleno, não se ordena a nada fora de si mesmo. São Tomás responde que não se pode predicar de Deus o bem do mesmo jeito que se predica das criaturas. Ter modo, espécie e ordem é característica do bem como predicado das criaturas; Deus, por seu turno, é a origem de todo modo, espécie e ordem que se predica das criaturas; por isto, o bem se predica de Deus como da causa de todo modo, de toda espécie e de toda ordem que as criaturas buscam. Deus é causa do bem, as criaturas buscam o bem nelas causado por Deus.
O segundo argumento contrário é aquele que diz que as criaturas desejam o bem mesmo quando não conhecem, nem sequer podem conhecer, a Deus. Daí, o argumento conclui que não há identidade entre Deus e o bem. São Tomás lembra que em Deus estão todas as perfeições, como vimos quando estudamos a questão 4, artigo 2. Logo, quando desejam as próprias perfeições, é a Deus que as criaturas desejam, embora cada uma a seu modo. As criaturas inteligentes conhecem de Deus, racionalmente, pelo menos que ele existe, como vimos no estudo sobre a existência de Deus que fizemos na questão dois, lá atrás. Ao buscar as perfeições das suas potências, podem, de fato, estar buscando a Deus de modo consciente, conhecendo-o como perfeição plena. Os seres que têm sensibilidade buscam certas participações na bondade de Deus seguindo a sua capacidade de conhecimento sensível. Os seres inanimados buscam a Deus por seu apetite natural, ou seja, pelas inclinações de suas potências, que se dirigem aos seus fins sempre guiadas por um ser superior dotado de conhecimento.
É interessante notar aqui duas coisas: 1. A visão de São Tomás é inclusiva: toda a criação está buscando a Deus, quando busca a atualização de suas potências. Seja esta busca consciente ou inconsciente. 2. Todas as potências, absolutamente todas, chegam ao seu ato movidas por um ser superior dotado de conhecimento. Não há nenhuma possibilidade de uma visão mecanicista, no universo de São Tomás. Da potência ao ato não existem mecanismos automáticos, mas sempre uma inteligência que guia. Seja a de um homem que, por exemplo, fricciona dois gravetos para obter, da madeira (que é um combustível em potência), o fogo em ato, seja a inteligência do próprio Deus, que governa todas as coisas para seus fins, como vimos quando estudamos as cinco vias!
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