Quão difícil é, para a nossa mentalidade contemporânea, imaginar que as coisas possam desenvolver algum “desejo” de suas próprias perfeições, como São Tomás afirma, para descrever a própria noção de “bem”. Esta noção parece conter em si uma personalização inconveniente da natureza, fantasiosa mesmo, que é incompatível com a nossa visão contemporânea. Uma natureza composta de coisas que “desejam” a própria perfeição parece inadmissível para nós; no entanto, a própria noção de “bem” de São Tomás depende deste alegado “desejo”, já que, para ele, o “bem” é aquilo que todas as coisas desejam.
No entanto, São Tomás tem uma coerência admirável em seus raciocínios, e não faz aqui senão desenvolver a chamada “quinta via”, que ele nos apresentou na questão 2, artigo 3, desta primeira parte. Lembremo-nos de que ali ele nos explicou que as coisas que não têm inteligência, ou mesmo qualquer espécie de sensibilidade, operam sempre ou frequentemente do mesmo modo para atingir o mesmo fim. Isto ocorre, como vimos ali, porque há intenção no seu agir, e esta intenção, nas coisas desprovidas de inteligência, é exatamente a intenção daquele que, governando o universo, lhes guia. Deus é providente, e governa o universo, guiando as coisas às suas próprias perfeições. A providência divina será estudada com detalhes em São Tomás na questão 22 desta primeira parte, e mostrará como Deus atua e rege o universo de modo permanente e ativo. A questão da intenção do bem nas coisas será, no entanto, debatida aqui mesmo, na resposta ao último argumento contrário.
Por enquanto, nesta questão, São Tomás debaterá mais um atributo de Deus, o bem. Ele levou uma questão inteira, a questão passada, levantando os fundamentos do bem, e agora estudará em que medida pode-se falar de “bem” em Deus.
Para iniciar o debate, São Tomás admite a hipótese adversa: parece que ser bom não é adequado a Deus. E traz o primeiro argumento em favor da hipótese adversa: no artigo quinto da questão passada ficou estabelecido que o bem implica modo, espécie e ordem. Ora, uma vez que Deus é em si mesmo imensurável e não está ordenado a outra coisa, as noções de modo, espécie e ordem não se aplicam a ele. Ele estaria, por assim dizer, para além de tais categorias. Então, do mesmo modo, poderíamos dizer que Deus está como que “para além do bem… e do mal”. Assim, a noção de bem seria inaplicável para Deus. Este argumento tem quase um sabor nietzschiano: Deus estaria além do bem, porque concentra em si todo o ser e todo o poder. Quem poderia julgar Deus, para atribuir-lhe bondade? Qual o critério de bondade para pesar Deus? Diante da impossibilidade de trazer Deus perante um julgador, e de estabelecer um critério para verificar-lhe a bondade, não se pode atribuir o bem a Deus.
O segundo argumento tem relação com aquilo que discutimos acima, sobre a noção de desejo em São Tomás e sua relação com a noção de bem. Se o bem é aquilo que todas as coisas desejam, então o atributo do bem não pode ser relacionado a Deus, já que Deus é simples e, portanto, dizer que Deus é bom é dizer que ele é o próprio bem, e o bem é o próprio Deus. Ora, todas as coisas desejam o bem, mas nem todas as coisas desejam a Deus; umas não o desejam porque, sendo inanimadas, não possuem a capacidade de conhecê-lo. Outras, embora inteligentes, não chegam a admitir sua existência. Ora, não se pode desejar o que não se conhece. Logo, a bondade não é um atributo de Deus, já que pode ser – e de fato é – buscado fora dele.
Em suma, os argumentos juntados estabelecem que o bem não poderia ser predicado de Deus, porque, a rigor, Deus estaria acima do bem.
Como argumento sed contra, São Tomás aduz uma passagem das Escrituras, especificamente do Livro das Lamentações (3, 25), que diz; “O Senhor é bom para os que nele confiam, para as almas que o buscam”. Diante de um testemunho das Escrituras, São Tomás não pode simplesmente aceitar a hipótese inicial. Ele dará, então, a sua resposta sintetizadora.
Veremos isto no próximo texto.
Deixe um comentário