Vimos, no texto anterior, a proposta de classificar o bem em útil, honesto e deleitável, trazida por São Tomás, e a sua apresentação da hipótese contrária e seus argumentos. Vimos também o argumento chamado de “sed contra”, que cita Santo Ambrósio, e começamos a introduzir a síntese que São Tomás nos propõe como resposta.

Vimos também como é importante trazer critérios claros para o discernimento do bem, num momento em que o “discurso dos valores” perde-se na tentativa de vencer o relativismo contemporâneo a partir de dentro; mas a perda da dimensão metafísica do bem reduz a discussão a uma concepção que, no fim, precisa recorrer a um instrumental próprio da ciência econômica, como são os chamados “valores”, para tentar estabelecer alguma objetividade nas discussões éticas. E naquele texto eu coloquei claramente que não creio nesta saída: o mundo de São Tomás, diferentemente daquele mundo que a nossa filosofia tenta construir, é um mundo profundamente marcado pelo bem, e, portanto, é um mundo que não tem necessidade de uma “esfera dos valores” para orientar o discernimento humano.

A visão de São Tomás traz um olhar muito saudável sobre o nosso universo criatural, no qual não há neutralidade possível: quem saiu de Deus foi criado para voltar a Deus livremente, ou perder-se no caminho. O primeiro caminho, o retorno, é o caminho da liberdade. O segundo, o caminho que não conduz a Deus, é o caminho em que os potenciais nunca chegam à perfeição, e portanto é o caminho da eterna incompletude, do eterno logro; em uma palavra, é a perdição. Na visão de São Tomás, o que liberta é a possibilidade de alcançar o fim, não de escolher arbitrariamente os meios. A caminhada para a liberdade não é uma bolha de “valores” no meio de um oceano de indiferença, mas uma opção por Deus desde o começo. Não é à toa que São Tomás coloca, na questão 2, artigo 1, na sua resposta sintetizadora, que a busca da felicidade é uma evidência de que todo ser humano busca Deus e intui sua existência: Deus e felicidade humana são dois conceitos cuja relação é inescapável. Romper a relação entre buscar Deus e buscar a felicidade (como se fosse um absurdo que a autodoação de Deus fosse a plenitude que secretamente aspiramos em nossos corações) não liberta o ser humano: ao contrário, condena-o definitivamente. O fato de que Deus é a plenitude não decorre de uma arrogância divina, ao contrário: não havia nada mais alto que Deus pudesse nos fazer ansiar do que ele mesmo. Esta é a plenitude da doação, não a arrogância da dominação (como a serpente quis convencer Adão e Eva).

A primeira questão que nos vem agora em mente é: será que São Tomás não está trazendo uma questão ética para um debate metafísico? E esta é a primeira abordagem que São Tomás enfrentará na sua resposta sintetizadora.

De fato, ele começa logo admitindo: esta classificação, que categoriza o bem em útil, honesto e deleitável, parece ser mais pertinente ao bem humano, ao bem ético, do que ao bem no plano metafísico. Mas São Tomás sempre se recusa a construir qualquer espécie de separação, de divisão entre uma suposta “esfera do ser” e uma “esfera do valor”, como fazemos hoje em dia. Fiel ao princípio de que o bem e o ser são conversíveis entre si, e que diferem apenas racionalmente – mas jamais em si mesmos, São Tomás nos convida a considerar mais profundamente o problema, para discernir mais profundamente a identidade entre o que chamamos de “bem moral” e o que chamamos de “bem ontológico” – que, para ele, não passam de dois aspectos da mesma coisa. E ele trabalha, aqui, com um exemplo muito concreto: o termo do apetite humano e o termo do movimento físico atendem à definição tomasiana de “bem”, e podem ser estudadas como realidades analógicas – o que se disser a respeito de um deve ser entendido, mutatis mutandis, a respeito do outro.

Pois bem, no movimento físico termina de modo absoluto no seu termo extremo, que é a sua “linha de chegada” final. Mas pode acontecer que haja pontos intermediários de repouso entre o termo inicial e o termo final de um movimento físico, e que estes pontos intermediários sejam necessários, ou mesmo convenientes, para que o movimento atinja o termo final – pensemos nos degraus de uma escada. Por outro lado, o termo final pode ser contemplado como meta, quando o movimento ainda não começou ou ainda está em progressão, ou pode ser pensado como lugar de repouso e completude, quando foi atingido.

Assim, o bem, quando se refere a estes pontos de apoio que são como que paradas no caminho, necessárias ou convenientes para atingir o destino final, é chamado de bem útil. Ele sempre existe como meio, como referência para algum bem honesto. São Tomás não está, aqui, tratando de uma concepção técnica que considera o que é útil como simplesmente neutro, como abstraído do bem final a que aponta. Não existe bem útil, para São Tomás, senão quando é um meio para um fim honesto. Ter os meios para fazer o mal significa capacitar-se para frustrar uma atualização, ou seja, acumular o poder de impedir-se ou de impedir alguém de atingir a perfeição, e isto nunca pode ser um bem.

Prosseguindo, chegamos ao termo final do movimento – o bem honesto. Este é, talvez, o aspecto do bem que é de mais difícil compreensão para nós, da contemporaneidade. Muitos de nós passam a vida lutando por dinheiro, poder, roupas caras, carros sofisticados, acúmulo de patrimônio, tudo isto que, para São Tomás, pode ser classificado na categoria de bem útil, nunca de bem honesto. Para que queremos dinheiro, senão porque ele serve para um fim ulterior, de comprar coisas? Para que queremos carros, casas, roupas, senão porque estas coisas servem para que moremos nelas, nos locomovamos com elas, enfim, sempre são coisas que apontam para fins que estão além delas mesmas. Colocar bens úteis no lugar dos bens honestos é a exata definição da corrupção do desejo.

Neste sentido, os bens honestos, aqueles que deveriam terminar nosso movimento, seriam a amizade, o amor, a família, os nossos relacionamentos, enfim, aquelas coisas para as quais queremos os bens úteis. Para quem tem fome, o bem honesto é o alimento, não o dinheiro para comprá-lo. Mas, uma vez que nem mesmo nossa família e nossos amigos, nem todo o alimento do mundo, seriam capazes de saciar nosso apetite por amizades maiores, por relacionamentos melhores, por mais alimento para saciar a fome que volta. O nosso apetite é infinito, e só cessa em duas hipóteses: pela morte, ou pela hipótese de que conseguíssemos algum bem honesto de dimensões infinitas para saciá-lo. Ou seja, pela frustração final da aniquilação ou pela completude final da amizade com Deus. Mas, caso a morte não seja (temos boas razões para acreditar que não é) a aniquilação final, mas simplesmente o fim da possibilidade de caminhar para o aperfeiçoamento próprio, esta frustração será o estado eterno de impossibilidade de atingir qualquer plenitude. Morrer longe de Deus é condenar-se a nunca mais poder ser pleno. Não é aniquilação, mas frustração eterna.

Por fim, o estado de quem atinge o termo final, e conclui com êxito sua caminhada, é o estado do repouso, da consumação, do desfrute agradável da plenitude atingida. Este é o bem deleitável. O deleite não é o fim, mas a consequência de atingir o fim. E eis aqui mais um equívoco da contemporaneidade: queremos atingir os bens úteis para obter os bens deleitáveis sem caminhar até os bens honestos. Queremos dinheiro, carrões e roupas para obter sexo sem matrimônio, queremos beleza e fama para obtermos elogios e companhias sem os compromissos da amizade, queremos chegar no paraíso sem cultivar nenhuma relação com Deus, expropriando-o de sua própria casa. Tudo isto é impossível, mas, por um limite da nossa inteligência, e pela influência do pecado original em nós, parece-nos simplesmente injusto que seja impossível. Uma classificação tão simples como esta de São Tomás nos demonstra exatamente como isto não somente é justo, como perfeitamente razoável. O movimento físico sempre se dirige a um fim, que é seu bem. O movimento da vontade é apenas uma das categorias de movimento, e pode ser estudado do mesmo modo. O bem é, como o ser, uma realidade analógica, transcendental. Porque transcende as categorias, as espécies e os gêneros para atingir todas as realidades.

Respondendo agora ao primeiro argumento contrário, que é aquele que nega a conveniência da classificação do bem em útil, honesto e deleitável para classificá-lo conforme as dez categorias do ser, São Tomás nos diz que, de fato, sendo o bem um transcendental do ser, e portanto com ele conversível, ele se divide pelas dez categorias, quando visto sob a razão do ser. Mas, sob a razão de bem – ou seja, como termo do movimento do apetite das potencialidades no sentido das suas atualidades, ele se classifica mais propriamente pela divisão aqui proposta.

Na segunda resposta, São Tomás avalia aquele argumento qu afirma que estes critéios não são bons critérios de classificação, porque não são verdadeiramente opostos entre si – o fato de que alguma coisa é útil, por exemplo, não exclui que ela seja ao mesmo tempo honesta sob algum aspecto e mesmo deleitável sob outro. São Tomás nos explica que não estamos tratando aqui de coisas opostas, como uma coisa preta e outra branca, mas com noções opostas: o que é útil pode ser pensado como útil mesmo que nada tenha em si de honesto ou deleitável, como um remédio amargo é tomado por ser necessário à cura. Por outro lado, dar a vida por seus amigos, como fez Jesus, ou como faz um soldado herói de guerra, não tem nada de útil nem de deleitável para si mesmo, mas nada pode ser mais honesto. Por fim, multiplicar-se-iam os exemplos dos bens deleitáveis e desonestos – basta pensar no sexo extramarital.

A terceira resposta de São Tomás se dirige àquela objeção que afirma que o bem útil se resolve, afinal, no honesto, e este no deleitável, pelo que a rigor haveria aqui mais gradação do que classificação. São Tomás responde que esta classificação diz respeito a uma realidade analógica, que é o bem. Não se predica o bem univocamente das diversas categorias de coisas, senão analogicamente. Assim, o bem se predica mais propriamente daquilo que é honesto, em seguida daquilo que é deleitável, e só em último lugar do que é útil. A gradação, portanto, não exclui a classificação, se pensarmos analogicamente.