Esta classificação, que São Tomás nos apresenta aqui, será de suma importância quando formos estudar ética. De fato, há três razões pelas quais alguma coisa pode atrair uma vontade a si: a primeira é o fato de que a coisa que atrai representa um degrau necessário ou mesmo facilitador para outra coisa – esta é uma razão, digamos, de ordem prática. Para exemplificar: um remédio é um bem, mas apenas na medida que ele ajuda a alcançar a saúde. Para uma pessoa saudável, um remédio é uma droga, e pode fazer muito mal.

A segunda razão de bem é o fato de que alguma coisa seja desejável por si mesma – e isto faz desta coisa um bem no sentido mais próprio da palavra. É aquilo que e a razão final de um determinado movimento, e que não é buscado por outra coisa, mas por si mesma. Usando o exemplo anterior, a cura é o bem último de quem toma um remédio.

A terceira razão é a deleitável. O apetite pode ser atraído por alguma coisa por causa do prazer, ou seja, do deleite, do repouso que a coisa me proporciona quando obtida. Tomo o remédio, curo-me e posso brincar com meus filhos com disposição e saúde.

Há algumas observações que quero fazer antes de entrar propriamente no texto do artigo. A primeira diz respeito à forma com que, no artigo, São Tomás vai ancorar a sua ética na própria realidade das coisas. Ele fará uma grande analogia entre o movimento da vontade e o movimento dos corpos naturais, na sua resposta sintetizadora, que deveria ser lida com muita atenção por nós. A ética de São Tomás não é uma “ética dos valores” no sentido com que contemporaneamente usamos esta expressão. Contemporaneamente, a teoria filosófica dos valores constrói toda uma “economia” para relacionar a “esfera dos valores” com a esfera do ser. Não podemos deixar de contemplar a relação entre vontades, condutas e bens a partir da única analogia que nos permitimos numa sociedade de matriz materialista, pós-burguesa e muito marcada pelo dinheiro: a economia como ciência dos valores.

Para São Tomás não é assim: sua ética não está lastreada numa teoria dos valores, mas numa estrutura de gratuidade, de saída e retorno a Deus, de ato e potência, de uma realidade que em si é boa e perfectível e nos chama à perfeição. Sem esquecer a dimensão da economia, expressa nos bens úteis, nem a dimensão do prazer e da sensibilidade, expressa nos bens deleitáveis, São Tomás nos apresenta como bem absoluto o bem honesto; algo que temos dificuldade de discernir nos dias atuais. Não é à toa que a honestidade é um grande clamor da nossa civilização, imersa na corrupção, no engano e na quantificação comercial de todos os bens. Estou certo de que a maioria dos nossos contemporâneos teria muita dificuldade de discernir quais são os bens honestos em sua vida.

A segunda questão, e que tem muita relação com a primeira, é a questão da chamada “hierarquia de valores”. De fato, esta tem sido uma grande luta da filosofia contemporânea, a de comparar valores entre si para estabelecer a importância relativa. Este problema decorre exatamente da perda das noções fundamentais à verdadeira filosofia escolástica, como as de ato e potência, ou mesmo a noção de causas e de movimentos; só restaram, portanto, as analogias do mundo econômico e financeiro para dar um rumo às escolhas humanas. Mas São Tomás, já neste artigo, estabelece os fundamentos mais profundos pelos quais não é necessário cair na armadilha que leva até a “teoria dos valores” e suas infindáveis e polêmicas hierarquias: o bem tem uma estrutura interna que permite categorizar as relações de modo perfeitamente racional e objetivo, sem descurar, de um lado, a natureza das coisas e suas perfeições, nem, do outro, a liberdade, a historicidade prudencial das escolhas e a realidade das relações. A contemporaneidade tem um paradoxo muito interessante: vive criando sistemas complexos para resolver problemas que ela mesma criou ao rejeitar a abordagem antiga.

Bom, mais uma vez São Tomás começará propondo a hipótese adversa: parece que não é conveniente classificar o bem em útil, honesto e deleitável. E traz três argumentos em favor da hipótese inicial. O primeiro argumento usa a relação entre “ser” e “bem”, para lembrar que Aristóteles divide o bem pelos dez predicamentos do ser, na obra “Ética a Nicômaco”. Vamos lembrar aqui quais são os dez predicamentos do ser ou “categorias”: a primeira categoria é a da substância (aquilo que é por si mesmo). Depois, temos nove categorias de acidentes, ou seja, aquilo que tem o ser em outro: quantidade, qualidade, relação, lugar, tempo, estado, hábito, ação e paixão. No seu estudo sobre a ética, Aristóteles expressamente diz que “(…) a palavra “bem” tem tantos sentidos quantos “ser” (visto que é predicada tanto na categoria de substância, como de Deus e da razão, quanto na de qualidade, isto é, das virtudes; na de quantidade, isto é, daquilo que é moderado; na de relação, isto é, do útil; na de tempo, isto é, da oportunidade apropriada; na de espaço, isto é, do lugar apropriado, etc.), está claro que o bem não pode ser algo único e universalmente presente, pois se assim fosse não poderia ser predicado em todas as categorias, mas somente numa.” (EN livro 1, §6). Assim, como cada uma dessas categorias pode dar-se como útil, honesta ou deleitável, não seria adequado classificar o bem assim, mas simplesmente classificá-lo conforme as categorias do ser: bem substancial e bem acidental, e, dentre estes, o bem de cada uma das nove categorias de acidentes.

O segundo argumento traz uma discussão lógica: qualquer classificação incide sobre termos opostos, porque divide sempre uma classe de coisas em subconjuntos distintos. Mas com a divisão em útil-honesto-deleitável não é assim: o que é honesto é deleitável, e, falando rigorosamente, nada que é desonesto pode ser útil (embora alguns políticos não pensem assim…). Mas se a divisão fosse válida, poderia haver, por exemplo, coisas úteis e desonestas. Assim, o critério de divisão não pode, segundo este argumento, ser válido.

O terceiro argumento também joga com a superposição desta divisão: se, ao dividirmos alguma coisa, um dos subconjuntos se resolve no outro, então o modo de dividir não é válido. Por exemplo, se dividíssemos as pessoas em três subconjuntos de brasileiros, baianos e católicos. Claramente pertencer a um desses subconjuntos não exclui a pertença no outro, e, no fundo, ser baiano implica necessariamente ser brasileiro. Usando o mesmo raciocínio, este terceiro argumento diz que um bem só é útil porque conduz ao agradável e/ou ao honesto; logo, não se deveria opor o útil ao agradável e ao honesto.

Como argumento contrário, São Tomás cita a autoridade de Santo Ambrósio, que usa esta classificação do bem em seus escritos. Está posto, portanto, o debate.

Em sua síntese, São Tomás nos demonstrará que não está tratando, aqui, de uma classificação no sentido, digamos, “botânico” do termo, mas do estabelecimento de critérios muito claros de discernimento a respeito da natureza do bem em questão, em cada caso: queremos alguma coisa porque ela é útil para alcançarmos outra, ou a queremos porque ela é o objeto final do nosso desejo, que cessará nosso movimento de busca? Queremos alguma coisa porque discernimos com a nossa razão que esta coisa é uma perfeição, ou porque ela excita nossos sentidos e emoções? Uma mesma coisa pode ser, numa circunstância, útil, e em outra circunstância, simplesmente honesta?Será que está certa a questão colocada naquela velha canção do Roberto Carlos, em que ele lamenta que tudo que lhe é deleitável é, “ilegal, imoral ou engorda”? É possível deleitar-se de modo honesto? É este, portanto, o motivo pelo qual São Tomás nos propõe este critério de discernimento.

Trataremos da síntese de São Tomás no nosso próximo texto.