O que é exatamente ser perfeito? Esta é a maravilha das respostas de São Tomás: ele nos prepara um verdadeiro léxico, uma definição paciente do exato sentido em que usa os termos e do fundamento das respectivas noções. É o que ele faz aqui com a noção de perfeição. Perfeito, nos diz São Tomás, é aquilo a que nada falta. E, de acordo com a síntese que São Tomás faz aqui, são três as dimensões que determinam a perfeição de alguma coisa:

1. Para que um ser seja perfeito, é preciso que seja adequadamente formado e que apresente as características próprias à sua forma. Mas para ser adequadamente formado, é preciso que tenha sido formado do modo certo, ou seja, que para a sua formação tenham contribuído adequadamente a sua causa eficiente e a sua causa material. Assim, por exemplo, um mau artesão pode gerar uma cadeira ruim, ou mesmo um bom artesão que disponha de uma madeira de péssima qualidade como material.

É exatamente esta adequação na formação, pela conjunção dos pressupostos exigidos para a consumação da forma da coisa, na medida adequada, que se exprime pela palavra modo.

2. A forma, por sua vez, exprime a espécie da coisa. É porque um objeto tem forma de cão que ele está na espécie dos cães, e não na espécie dos gatos. Colocando-se este ou aquele elemento na espécie, altera-se a forma, do mesmo modo que adicionar um número a outro altera o número. Assim, se à definição de cão eu acrescento o elemento “mecânico”, eu terei um cão de brinquedo, e não mais um cão de verdade. É assim que a espécie faz parte da noção de bem: quanto mais um determinado indivíduo manifesta as características próprias de sua espécie, tão melhor ele é.

Lembremo-nos que, na filosofia tomista, não estamos no universo nominalista com que estamos acostumados a conviver, hoje em dia. A espécie não é uma mera classificação que nossa inteligência impõe externamente aos seres: é uma noção que exprime uma relação real entre seres que compartilhem de fato características comuns.

3. Por fim, a ordem representa a adequada tendência para o fim. Um palito de fósforo que não se ordena a acender não é um bom palito de fósforo. Uma vaca que não se ordena a comer ervas e digeri-las não é uma boa vaca. Há, nestes seres, desordens que os impedem de atingir seus fins, e por isto não são perfeitos. A ordem, pois, é a tendência a atingir os fins próprios à forma do ser.

Tudo isto demonstra que é evidente que o bem se constitui de modo, espécie e ordem.

Hora de responder aos argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento é aquele que afirma que o modo, a espécie e a ordem são, na verdade, atributos do ser, não do bem, citando o Livro da Sabedoria e Santo Agostinho. São Tomás responderá em breves palavras: estes são realmente atributos do ser, mas somente do ser plenificado, atual, perfeito, e portanto bom. Neste sentido, não deixam de ser atributos do bem, já que o bem, como já vimos, é um transcendental do ser ligado à sua perfeição, e portanto exatamente à sua desejabilidade.

O segundo argumento é aquele que, chamando os atributos (modo, espécie, ordem) de bens, nos remete a um regresso ao infinito. São Tomás admite que eles seja bens, mas não no sentido substancial do termo: eles são bens porque são a razão formal pela qual as coisas apresentam-se como boas. Assim, eles são bens no mesmo sentido que podemos dizer que a brancura é um ser: num certo sentido derivado, a brancura é um ser na medida que faz com que uma substância seja branca. Assim, como atributos do bem, não é necessário pleitear que eles devam apresentar, em si mesmos, os atributos que eles próprios representam: eles próprios, ao apresentarem-se nas coisas, permitem que nós as chamemos de boas. Estes atributos, portanto, são ditos bons por analogia, de um modo diferente daquele pelo qual as coisas que os apresentam são ditas boas. Por isto, não há aí nenhum regresso ad infinitum. Há apenas, mais uma vez, uma confusão terminológica que São Tomás esclarece pelo uso do raciocínio por analogia.

O terceiro argumento contrário é aquele que, partindo da noção de mal como privação, lembra que, embora o mal elimine o modo, a espécie e a ordem, ele não elimina totalmente o bem da coisa. Logo, o bem deveria constituir-se em alguma coisa para além do modo, da espécie e da ordem.

São Tomás nos lembrará que um ser criado é sempre um ser complexo; assim, quando o mal se apresenta como privação do modo, da espécie e da ordem em algum aspecto da sua estrutura, não priva os demais aspectos do seu modo, da sua espécie e da sua ordem. Assim, digamos, uma pessoa cega tem uma privação no acidente da sensibilidade visual, mas tem a sua perfeição substancial e a perfeição dos seus outros sentidos intacta, com modo, espécie e ordem. Logo, por apresentar-se sempre com suporte num ser, é que o mal nunca o priva totalmente de modo, espécie e ordem em algum grau. Isto não determina que haja no bem algum outro aspecto além destes três, mas apenas que, por sua parcialidade, o mal nunca é capaz de eliminar totalmente o bem de alguma coisa – salvo eliminando a própria coisa, e consumindo-se junto com ela.

O quarto argumento aponta que pode existir maus modos (nossas mães que o digam), más espécies e má ordem. Logo, estes três atributos não são atributos necessariamente implicados pelo bem. São Tomás mais uma vez responderá que, na verdade, falar em maus modos é apenas uma limitação da nossa forma de falar: todo modo é bom, toda espécie é boa, toda ordem é boa; nós falamos em maus modos, má espécie e má ordem apenas para designar aqueles seres que poderiam ser mais perfeitos do que são, ou seja, que poderiam ter mais modo, espécie e ordem do que apresentam atualmente. Assim, eles são maus porque são deslocados, defeituosos ou desproporcionais.

Por fim, vem a questão da luz, que se relaciona diretamente com a física aristotélica. Neste modelo físico, a luz era descrita como algo sem espécie, sem peso e sem medida, uma força ativa que, atingindo as coisas, faz com que ela se torne mais capaz de manifestar-se. Assim, em tal física, a luz é um tipo de “qualidade ativa” advinda em primeiro lugar do sol – que tem, por seu turno, modo, espécie e ordem.

Eis, portanto, a completude do ensinamento de São Tomás sobre o bem: é aquilo a que todos os seres almejam, desejam, como razão de fim, sob os aspectos do modo, da espécie e da ordem.

Nos próximos textos, acompanharemos a classificação que São Tomás faz do bem em útil, honesto e deleitável; classificação que será importantíssimo para estabelecer a adequada ordem no bem – principalmente agora que já conhecemos a natureza do bem, e principalmente o fato de que o mal por si só é incapaz de atrair a vontade, e se manifesta, no fundo, quando procuramos o bem inadequadamente, ou seja, fora de modo, de espécie ou de ordem. Saber, pois, que o bem pode ser classificado em útil, honesto e deleitável nos ajudará a estabelecer critérios para o nosso próprio aperfeiçoamento. Quantas vezes procuramos como honestos ou deleitáveis bens que são apenas úteis, como dinheiro, poder, automóveis ou roupas caras, e colocamos na qualidade de bens úteis aquilo que deveriam ser bens honestos em nossas vidas, como os amigos, os familiares e, afinal, Deus. Isto para não mencionar as vezes em que os deleitamos com o que nos deveria repugnar, e vice-versa. Conhecer estas classificações será, pois, de grande valia para nós.