O mundo contemporâneo é um mundo de revoluções: tudo parece irremediavelmente ruim e fora de lugar, e a ilusão que temos é a de que, se pudéssemos ajeitar só um pouquinho conforme a nossa vontade, o mundo seria melhor, ainda que destruíssemos tudo o que conhecemos, no processo. Em suma: estamos sempre com aquela sensação de que tudo está desordenado e caminha para a desordem, e só uma atuação nossa, positiva e vigorosa, rompendo a ordem, faria com que o mundo ficasse bom. Somos, hoje, uns ativistas revolucionários de um mundo sem passado e que, sem uma atitude radical nossa, também não terá futuro.

Mas, mais uma vez, São Tomás nos apresenta a um mundo diferente, e paradoxalmente mais real que o nosso. Um mundo onde o bem se apresenta como modo, espécie e ordem. Ele enxerga o bem como substrato do nosso mundo, mesmo com a desordem que se apresenta a partir do pecado original. Esta desordem introduzida pela Queda é acidental, num mundo substancialmente bom. O pecado não destruiu a bondade da natureza, embora, rompendo a comunhão com Deus, certamente tornou tudo mais difícil. Mas no mundo de São Tomás – que é o mundo cristão – é possível de fato evoluir. E evoluir significa vir do bem e caminhar no sentido do bem, que é o sentido do progressivo aumento do modo, da espécie e da ordem. Que me perdoem os que pensam diferente, só é possível falar em evolução quando há algum bem que é originário e deve ser atingido no final.

São Tomás, como já vimos, é capaz de debater, e de começar valentemente pela hipótese mais adversa ao que, presumivelmente, deveria ser sua posição final. No caso do presente artigo, a hipótese pela qual ele começa é assim: “Parece que a noção de bem não implica o modo, a espécie e a ordem.”

O que são estes três termos? Para nós, são pouco mais que palavras vazias. Mas têm significado residual: lembro-me da minha mãe ralhando, quando eu fazia alguma coisa desastrosa; sua recomendação era: “tenha modos, meu filho”. Creio que ela estava usando este termo no mesmo sentido que São Tomás usa.

No caso da espécie, a noção parece relacionar-se com a inteligibilidade interior das coisas, com sua identidade com relação à sua própria essência; num mundo com sentido, há uma estabilidade nas coisas que se relaciona com sua própria estrutura de ser. As coisas são o que elas são, elas se dão para nós, para nosso conhecimento, assim como são e podemos esperar que haja nelas sentido e estabilidade no ser. As coisas não são opacas, embora de certo modo nos sejam misteriosas. Mas mistério, aqui, não significa incognoscibilidade, mas inesgotabilidade; mais uma vez, a palavra mistério não nos deve trazer, a partir da visão de São Tomás, a ideia de obscuridade, mas de excesso de luminosidade.

As coisas tampouco são um mero fluxo incompreensível de mudanças, que provoca a perene sensação de que tudo existe como desajuste a ser corrigido, e não como dom a ser recebido e compreendido. O mundo de São Tomás não é o mundo da angústia cultivada, da ilusão perpétua, do fluxo incessante do nada para o nada que o nosso romantismo contemporâneo cultiva com um certo ar esnobe de prazer mórbido. Ele é a criação de um Deus generoso e amoroso, que o fez muito bom. E o pecado não pode ser, e não será jamais, mais forte do que o amor de Deus.

Enfim, uma palavrinha sobre a noção de ordem. Não se trata aqui da ordem dos poderosos deste mundo. A ordem, aqui em São Tomás, não se relaciona com uma vontade arrogante, mas com uma inteligência amorosa fundante, criadora. Transcendente.

São Tomás aduz cinco argumentos em favor de sua hipótese inicial. O primeiro argumento cita Santo Agostinho para afirmar que o modo, a espécie e a ordem não pertencem à esfera do bem, senão à esfera do ser. O argumento segue assim: cita o Livro da Sabedoria (11, 21), que diz: “Todas as coisas dispuseste com medida, conta e peso”. E em seguida aduz que Santo Agostinho, comentando esta passagem, relaciona a medida com o modo, a conta (ou número) com a espécie e a ordem com o peso, que é sinônimo de repouso e estabilidade. Assim, estes atributos seriam próprios à noção de ser, não à noção de bem.

O segundo argumento tem natureza lógica: considera que o modo, a espécie e a ordem são bens; ora, se o bem, por seu turno, tivesse em sua própria estrutura nocional o modo, a espécie e a ordem, isto significaria que o modo, sendo um bem, teria modo, espécie e ordem, e a espécie, sendo um bem, teria modo, espécie e ordem, e a ordem, sendo um bem, teria modo, espécie e ordem. Este seria, conforme este argumento, um raciocínio que conduziria a um regresso ad infinitum, o que seria inadmissível. Logo, a noção de bem não pode implicar o modo, a espécie e a ordem, conforme este argumento.

O terceiro argumento afirma que o mal é exatamente a privação do modo, da espécie e da ordem. Ora, como já vimos em textos anteriores, o mal nunca elimina totalmente o bem. Mas, se ele elimina o modo, a espécie e a ordem, sem eliminar completamente o bem, isto significa que o bem deve se constituir em alguma coisa diversa do modo, da espécie e da ordem.

O quarto argumento diz que não se pode chamar de mau aquilo que implica de algum modo a noção de bem. Mas falamos num modo mau, numa má espécie e numa ordem ruim. Com isto, este argumento conclui que o bem não se constitui de modo, espécie e ordem.

No quinto argumento, voltamos à passagem do Livro da Sabedoria que leva Santo Agostinho a relacionar o modo, a espécie e a ordem com o peso, o número e a medida. Este argumento afirma, então, que nem todos os bens têm peso, número e medida; usando a visão física de Aristóteles, o argumento lembra que a luz é um bem, mas não tem peso, número ou medida. Logo, o bem não poderia consistir em modo, espécie e ordem.

No argumento sed contra, São Tomás volta a Santo Agostinho, que diz: “estas três coisas — o modo, a espécie e a ordem, — existem nas coisas feitas por Deus como bens gerais; e assim, onde elas são grandes os bens são grandes; onde pequenas, também eles são pequenos e, onde não existem, nenhum bem existe”. As coisas não seriam assim, conclui este argumento, se a noção de bem não implicasse o modo, a espécie e a ordem. Logo, ela os implica.

São Tomás começa então a sua resposta sintetizadora. Ele nos lembra que os seres são bons na mesma medida que são atuais e, portanto, perfeitos. É a sua perfeição que lhes dá a desejabilidade, ou seja, que é capaz de atrair a vontade – e esta é exatamente a noção de bem. Estudaremos mais detalhadamente no próximo texto.