Falar na relação entre causa final e causa eficiente é alguma coisa a que não estamos muito acostumados hoje em dia; mas não é difícil: basta voltar a ter os olhos de criança. O problema é que a nossa educação tem a tendência, ao longo do tempo, de nos fazer desconfiar dos nossos sentidos, e nos sentimos tão mais cultos e educados quanto mais consigamos filtrar a simplicidade das coisas através dos conceitos aparentemente sofisticados da nossa filosofia contemporânea.

Digo isto porque qualquer criança é capaz de intuir a relação estreita entre a causa eficiente e a causa final, mesmo que não saiba colocar isto em palavras; estas causas são aquilo que, de fora, transforma o mundo das coisas, fazendo-o mover-se (e mover-se, aqui, não quer dizer só o movimento local) para mais perto de sua perfeição final. Por exemplo, o gelo esfria. A capacidade de resfriamento do gelo leva-o ao seu fim, que é esfriar. O seu fim, que é esfriar, é como que o direcionador da sua capacidade de resfriamento. Ou seja, a relação entre a causa final e a causa eficiente é como olhar o movimento de trás pra frente ou de frente para trás. Aquilo que empurra a coisa ao seu fim é a causa eficiente; aquilo que o puxa, que o atrai, fixando, por assim dizer, o rumo e a meta, é a causa final. Então, para simplificar, diríamos que a causa final é o que atrai, e a causa eficiente é o que empurra. A causa eficiente e a causa final são sempre coisas externas àquilo que está sendo movido. As chamadas causas internas, ou intrínsecas, são a causa material e a causa formal. Em suma, a causa eficiente dá o empuxo, a causa final, o sentido e a meta. Não é à toa, portanto, que a nossa era é uma era da correria sem rumo, da ansiedade e da desorientação: é uma era das causas eficientes sem fim.

No texto anterior, vimos a hipótese inicial, que propôs exatamente a dissociação entre o bem e o fim. Vimos os argumentos iniciais e o argumento sed contra, num debate riquíssimo que invocou desde o [pseudo-] Dionísio, Santo Agostinho e até Aristóteles. Na maioria das vezes, os argumentos em confronto representam extrapolações indevidas dos autores citados, mas em outros casos representam facetas ponderáveis da questão, que serão devidamente polidas e levadas em conta na síntese final de São Tomás. Em cada debate, em cada questão, em cada artigo, ele não está jogando um jogo de cartas marcadas, mas buscando honestamente a verdade no diálogo, com respeito simultaneamente às suas fontes, aos pensadores que o precederam, à Tradição da Igreja e à Revelação. São Tomás não está neste jogo para ganhar, mas para aprender e ensinar.

Assim, na sua síntese, São Tomás nos explicará que o bem, sendo aquilo que todas as coisas desejam, implica primeiramente a noção de fim; mas não exclui de si a causa eficiente e a causa formal. O bem tem, portanto, uma relação complexa com os seres, sua estrutura e seu movimento.

Usando a física que conhece, São Tomás exemplifica seu raciocínio com o fogo: primeiro, ele aquece a outra coisa. Depois ele faz com que essa coisa entre em combustão também; ou seja, uma vez que o fim do fogo é aquecer, ele primeiro aquece, depois transmite a sua forma, que é a combustão. Assim, diz São Tomás, a ordem da estrutura do fogo, em si mesma, é a da forma (a combustão) que aquece (a causa eficiente) para queimar (a causa final). Mas, na ordem da causalidade, ou seja, na sua relação com outra coisa, primeiro o fogo aquece e queima (causa o seu fim eficazmente), depois transmite sua forma de chama (causa formal), fazendo que a outra coisa entre em combustão. São Tomás descobre, então, na prática, aquilo que ele ensinou na teoria no artigo passado: uma é a ordem que se encontra na estrutura do ser de alguma coisa, outra é a ordem na relação de causalidade. Nesta, encontramos primeiro o fim (que tem a razão de bem em si mesmo), que impulsiona e dirige a causa eficiente. Esta, em segundo lugar, impulsiona na outra coisa a obtenção da forma, que é o terceiro estágio. Esta é a ordem de causalidade. Mas, na sua estrutura ontológica, a coisa causada tem a forma, que lhe determina o ser, em primeiro lugar. Em segundo, o seu poder de transformar-se e transformar as outras coisas (as causas eficientes). E, em terceiro, suas perfeições, que são a razão de bem na sua perfeição ontológica final. Assim, na ordem da causalidade, o bem vem em primeiro lugar, e determina todo o jogo de causalidade que se segue. Na ordem do ser, o bem dá o sentido do ente e vem em último. Em qualquer caso, toda a cadeia participa em algum grau do bem, analogicamente, como participa analogicamente do ser. Mas o analogante, na ordem do bem, é o fim, e os analogados, as demais causas. Na ordem do ser, o analogante é o ente substancial, e os analogados, os acidentes que o aperfeiçoam.

Explicada esta relação, São Tomás responderá os argumentos iniciais. O primeiro, como nós nos lembramos, diz respeito à relação entre o bem e o belo. Todos temos a intuição desta relação: não é à toa que a palavra “bonito”, em português, significa beleza, mas, em latim, significa bondade. Todos temos a experiência de fazer alguma coisa , errada, e ouvir a bronca da mãe: “que coisa feia isto que você fez”. De certo modo, há uma estética na ética.

Há, sem dúvida, uma relação muito próxima entre o bom e o belo. Desta relação, este argumento, exagerando certamente, coloca o bem na razão da causa formal. São Tomás admite a relação entre o bem e o belo, mas nos explica que esta relação não tem uma identidade de razão. O belo consiste na proporção devida, e se resolve na relação entre a externalidade, a aparência, e a sensibilidade que desperta a cognição: os sentidos se deleitam com a proporção adequada nas formas que vem a conhecer. Mas o fim é uma tendência, um sentido de aperfeiçoamento, que tem uma profundidade muito maior do que o belo: atrai a coisa e a movimenta no sentido da sua plenitude. Ultrapassa a aparência e atinge o próprio ser. Se o bem se limitasse ao belo, haveria um grande risco de que vivêssemos um mundo de aparências, em que as externalidades poderiam não passar de ilusão. Há uma estética na ética, mas a ética ultrapassa a estética, como a santidade ultrapassa a hipocrisia.

Quanto ao segundo argumento, traz uma frase que é de especial dileção de São Tomás e de toda a Escolástica: o bem é difusivo de si. Este é um outro princípio que esquecemos na nossa contemporaneidade: para São Tomás, uma vez que o bem é substancial, ele tem a primazia, e tende a se difundir. Sendo o mal uma privação, ele tem um limite: quando a privação consome a própria substância do ser que suporta o mal, o mal desaparece junto com a substância que o suporta. Lembro daquela musiquinha famosa de Tom Jobim e Vinícius de Moraes: “tristeza não tem fim, felicidade sim…”; São Tomás discordaria profundamente: a verdadeira felicidade traz em si a promessa de eternidade, e embora as nossas alegrias terrenas sejam limitadas, a felicidade em si é eterna.

Ao argumento inicial que coloca o bem na razão de causa eficiente, por sua natureza difusiva, São Tomás corrige, explicando que o bem se difunde por atração, como causa final, e não por empuxo, como se fosse uma causa eficiente. O bem dirige o impulso, sem dúvida, mas não impulsiona senão indiretamente, atraindo. Portanto, como já dissemos, há uma relação direta entre bem e causa eficiente, mas apenas no plano do sentido e da consumação, não da força e do empurrão. Eis porque ninguém pode ser empurrado para Deus: ou ele chega a Deus por atração, ou está sendo violentado. É por isto que a declaração “Dignitatis Humanae”, do Concílio Vaticano II, pode afirmar com todas as letras: “ a verdade não se impõe de outro modo senão pela sua própria força, que penetra nos espíritos de modo ao mesmo tempo suave e forte.”

O terceiro argumento apela para Santo Agostinho, que diz que “nós existimos porque Deus é bom”. Desta frase, o argumento tira a conclusão exagerada de que o bem tem natureza de causa eficiente, já que explica como Deus nos fez existir.

São Tomás nos explica que o bem está mais propriamente na vontade do que no intelecto, já que um ser é considerado bom mais propriamente se tem a vontade boa do que se tem um bom intelecto. Na nossa experiência esta observação é muito nítida: todos nós conhecemos pessoas inteligentíssimas que são muito más, porque querem, buscam e praticam o mal. Ora, vontade tem no bem o seu fim o seu objeto próprio, do mesmo modo que a inteligência tem a verdade como objeto próprio. É certo que o próprio São Tomás nos ensinará que a verdade é um certo bem, porque é o fim da inteligência, como também o bem é uma certa verdade, porque a vontade deve ser dirigida pela razão. Assim, a frase de Santo Agostinho, “existimos porque Deus é bom” explica o porquê, não o como da nossa existência. Assim, tem razão principal de causa final.