Há dois textos atrás, fiz uma breve digressão sobre as quatro causas, e sobre como elas eram vistas, na filosofia aristotélico-tomista; na verdade, a própria noção de “explicação” envolvia compreender e expor as quatro causas de alguma coisa. Esta noção foi perdida na modernidade, com a visão mecanicista da realidade, e depois com o idealismo filosófico. Primeiro houve a dissociação entre a causa final e a eficiente; depois, houve, em pensadores como Hume, o abandono completo da noção de causa.

A dissociação entre a causa eficiente e a causa final não foi fundamentada numa superação, numa derrota intelectual por inconsistência da noção de causa: tratou-se da superação da visão de mundo clássica, fundamentada na ordem do ser e do contemplar, no qual o universo tinha um fundamento e um fim externo ao ser humano – o universo cosmocêntrico da filosofia clássica, ou o universo teocêntrico da filosofia neoplatônica e, posteriormente, da filosofia cristã – para a visão de mundo contemporânea, fundamentada na ordem do pensamento, com uma visão mecanicista das coisas e vazio de sentido em si mesmo antes de ser pensado e transformado pelo ser humano. Um universo em que o ser humano é o centro e as coisas não são mais do que instrumentos abertos para a vontade de alguém. Em qual deles nós habitamos de fato? No primeiro, temos um lar, somos parte. Aprendizes da sabedoria. No segundo, somos demiurgos, aprendizes de feiticeiro.

Mas não se pode negar que, no primeiro, a prioridade está no conhecer, no refletir, no contemplar. No segundo, que é a forma como vemos as coisas hoje, a prioridade está no pensar, no projetar, no fazer, no dominar. No primeiro, a inteligência percebe-se como uma buscadora de sabedoria. No segundo, a vontade percebe-se como uma construtora de tecnologias. Talvez, se São Tomás fosse vivo, ele fizesse uma bela quaestio sobre este assunto e, em vez de desprezar uma visão em prol da outra – como tendemos a fazer hoje – ele nos presenteasse com uma síntese capaz de resgatar o melhor de cada visão, e pudesse harmonizar Platão e Aristóteles com Bill Gates e Steve Jobs.

Na visão clássica, a causa eficiente existe em razão da causa final: dentes existem para morder, sexo para reproduzir, as barbatanas são para nadar. Não se pode inteligir a causa eficiente sem discernir o seu fim. Há, é claro, a noção de que há naturezas e livre arbítrio: a natureza é a potência que aponta sempre para um fim: é da natureza do fogo queimar. Nas potências com livre arbítrio, há abertura para alguns fins, dos quais se pode e deve discernir a ordem adequada, ou seja, há sempre como, num contexto, discernir quais os fins mais elevados, que ordenam os fins inferiores. A liberdade consiste na capacidade de ordenar o livre arbítrio no sentido do fim mais elevado em cada contexto. Para isto, é preciso que a potência adquira o hábito adequado para atingir o fim mas alto. E o hábito nada mais é do que a ordenação da potência aos fins para os quais ela aponta. A ordenação adequada é chamada virtude, porque dispõe, dá força para atingir ordenadamente o fim mais elevado. O hábito desordenado é chamado de vício, porque priva da capacidade de atingir o fim adequado. A ordem no livre arbítrio, portanto, é a condição para a liberdade.

A visão mecanicista nega a possibilidade de discernir uma ordem intrínseca às coisas, e nega que se possa discernir uma ordem capaz de dirigir o livre arbítrio para um fim em si mesmo mais elevado. Em suma: o livre arbítrio é elevado a fim, a ordem é vista como uma limitação do livre arbítrio e a liberdade passa a significar a capacidade de dobrar as coisas à sua própria vontade. Virtude, aqui, é a capacidade de dobrar a resistência das naturezas para dominá-las, e levá-las a atingirem os fins que nós quisermos impor a elas. Há, portanto, uma total dissociação entre as causas eficientes e as causas finais: as causas eficientes devem ser domadas, submetidas para que atinjam os fins que nós quisermos, e não o que elas eventualmente atinjam por si mesmas. É um mundo sem naturezas, em que a eventualidade, ou fortuna, de que uma causa eficiente se dirija a um fim que nós, humanos, não determinamos, é algo a ser combatido e submetido sempre. Nesta realidade, não se fala mais em formas e fins, naturezas e liberdades, mas em mecanismos naturais e tecnologias. Do mesmo modo que um relógio, que é um mecanismo feito pela mente humana, não sabe que horas são, uma vaca não sabe para que ela serve, até que a mente humana lhe transforme num mecanismo de dar leite, carne e couro.

É neste mundo contemporâneo que as causas finais transformam-se em “dever-ser”. O dever-ser é o resultado de uma vontade humana imposta sobre um ser no qual nenhum sentido intrínseco faz apontar para nenhum lado: em vez de atos e potências, temos a separação irremediável entre aquilo que as coisas são – mecanismos sem significado interno – e aquilo que elas devem ser – resultado de leis que nossa vontade tenha o poder de lhes impor. É nesta concepção que Hume e Moore vão estabelecer que “do ser não se passa ao dever-ser e vice-versa”, denunciando como falaciosa a tentativa de relacionar as causas eficientes às causas finais. E num mundo sem Deus, eles estão certos. Mas não é preciso ser muito inteligente para perceber, de um lado, todo o conforto que a tecnologia nos deu, e de outro, o estrago ambiental e humano que esta postura nos causou.

É certo que toda esta relação entre o fim, o bem e o agir humano será discutida em detalhes na prima secundae. Mas a mentalidade de São Tomás é diferente da nossa até neste ponto: quando ele vai construir uma catedral, ele não tem pressa em colocar os alicerces. Nós é que queremos chegar logo na cúpula da catedral, e queremos resolver o debate dos alicerces simplesmente através da força: como diz a música dos Titãs: “só quero saber do que pode dar certo, não tenho tempo a perder”… Mas para contemplar uma grande catedral como a Suma, é preciso ter tempo, senão a perder, pelo menos a gastar. Para comprar um smartphone de último modelo, ou um carro importado muito potente, basta ter dinheiro. Para viver uma vida de múltiplos prazeres sensoriais, basta ter dinheiro e de preferência um smartphone com um aplicativo de rede social e um belo carro. Para ler a Suma, no entanto, é preciso ser paciente, não ter medo de esquentar a cabeça com passagens quase indecifráveis e ser capaz de levar um mês tentando entender um trecho de um artigo – mesmo se for necessário interromper a leitura longamente para buscar literatura de apoio longa e difícil de achar para elucidar a passagem.

Feitas estas considerações, temos uma noção da importância da hipótese inicial de São Tomás neste artigo: parece que o bem não tem razão de causa final. De fato, quando os filósofos modernos dizem que “do ser não se passa ao dever-ser” eles estão dizendo exatamente isto, em outras palavras. Por isto será muito interessante descobrir o que São Tomás tem a nos dizer no particular – como, na filosofia de São Tomás, não há, nem pode existir, nenhuma aporia do tipo da “falácia naturalística”. Esta aporia só surge, na filosofia moderna, porque não teve a paciência que São Tomás tem de colocar minuciosamente os alicerces do seu sistema. Ou porque o sistema moderno não tem alicerces, senão apenas um pensamento de uma vontade forte o suficiente para se impor por sobre a natureza e os demais.

O primeiro argumento em favor da hipótese negativa inicial é aduzido por uma citação do [pseudo-] Dionísio, em que ele afirma: “o bem é louvado por ser belo”. Mas o belo está na forma, e portanto se relaciona com a causa formal (intrínseca) e não com a causa final (extrínseca). Se o bem tem razão de belo, então este argumento conclui que ele se relaciona com a causa formal, e não com a causa final.

O segundo argumento cita mais uma vez nosso amigo Dionísio, que afirma que “bonum est diffusivum sui esse”, frase (linda, acho) que significa que é próprio do bem difundir-se. Na contemplação desses homens profundos, há sempre esta visão maravilhosa do bem como raiz, suporte e fonte de tudo, e difundindo-se por sua própria natureza. (Muito diferente de nossa visão niilista e pessimista da contemporaneidade, que acha a desordem romântica e atrativa, que só tem olhos para o que é insano, desagregador e destoante, e acha que é evoluído e culto defender que tudo veio do nada e vai para o nada, passando por uma “evolução” que envolve o controle do poder.) Esta hipótese, porém, partindo do belo pensamento do [pseudo-]Dionísio, conclui simplesmente que, se o bem é difusivo, isto significa que ele é causa eficiente, e não causa final.

Em termos contemporâneos, eu diria: este segundo argumento coloca o bem em algo como a tecnologia, com seu controle sobre causas eficientes dominadas pela vontade humana, e não em algo tão pouco controlável quanto uma perfeição final substancial externa e atrativa. Mas estou colocando o carro adiante dos bois – coisa que São Tomás nunca faz.

No terceiro argumento, São Tomás cita Santo Agostinho, que afirma: “existimos porque Deus é bom”. E em seguida ele tira uma conclusão exacerbada dessa fala: viemos de Deus como causa eficiente, como foi visto na segunda via. Portanto, a bondade segundo este argumento, seria a causa eficiente da nossa existência, e não a causa final.

Agora São Tomás trará o argumento sed contra, que é de Aristóteles (que São Tomás chama reverentemente de “o Filósofo”, lembram?)

Temos aqui, pois, um debate em que os primeiros argumentos querem apoiar-se em ninguém menos do que Dionísio e Agostinho, e o argumento sed contra invoca Aristóteles. Altíssimo nível de debatedores, não?

O argumento sed contra lembra uma passagem de Aristóteles em que ele afirma: “aquilo que explica em última instância a existência de algo é como que o fim e o bem de tudo”. Logo, o bem tem razão de causa final.

No próximo texto examinaremos a síntese de São Tomás e suas respostas aos argumentos contrários iniciais.