Este artigo é de fundamental importância (acho que vou repetir isto muitas vezes até o final da Suma). Afirma-se, aqui, o princípio tomista da bondade radical de todo ser, ou seja, a regra da bondade da criação, excepcionada pelo mal que existe apenas como privação num ser que lhe dá suporte – e que, em si mesmo, é bom, porque é criatura de Deus. Este é um princípio profundamente antignóstico, antidualista e que insere toda a criação numa dimensão de valor: não há ser que seja, em si mesmo, destituído de valor intrínseco. No universo, como São Tomás o vê, não cabe o princípio contemporâneo de diferenciação radical entre o ser e o dever-ser, ou entre ontologia e axiologia: o bem e o mal estão inextrincavelmente relacionados com as coisas e com as vontades. Não há neutralidade possível, nesta criação. A exceção será discutida na resposta ao argumento 4, e diz respeito apenas aos entes de razão que são abstraídos quanto ao fim – é uma exceção interessante, porque se relaciona, por exemplo, com a possibilidade de admitir uma ciência sobre o mal, como a demonologia, que seja, em si mesma, neutra para o mal, e portanto boa.
Vamos ao artigo. A hipótese inicial é adversa, como sempre: parece que nem todo ser é bom. Numa vista aligeirada, e pensando, por exemplo, no Diabo e seus demônios, eu tenderia a concordar com São Tomás. Uma das promessas que fazemos no batismo – e nas suas renovações solenes – é a de renunciar a Satanás, autor de todo mal e toda mentira. É difícil discernir o que é que pode haver de bom em Satanás. Mas, em última instância, Satanás é uma das criaturas de Deus, e isto não pode ser ruim; se Satanás não fosse, como criatura, algo bom, estaríamos acusando Deus de deliberadamente fazer o mal, o que seria um erro teológico imenso, além de uma blasfêmia. São Tomás nos mostrará que, no seu ser, qualquer demônio é bom, como criatura que saiu das mãos de Deus; sua liberdade também é boa; mas o uso que fez dos seus dons de existência, de inteligência, de vontade e de liberdade é mau, e isto é responsabilidade da criatura, não de Deus. Mas estamos nos adiantando a São Tomás. Por enquanto, temos apenas a hipótese inicial – parece que nem todo ser é bom.
O primeiro argumento para a hipótese inicial é de natureza lógica: se o “ser” é um conceito, em si mesmo, com a máxima extensão (um universal – no sentido mais próprio do termo), então sua compreensão deve ser mínima. O ser comum, aquela noção que reúne, analogicamente, a existência de todos os entes, é a noção mais vazia de conteúdo que se pode pensar. E por isto é a noção com maior extensão que se pode formular: atinge a tudo o que se pode designar como ente.
Posto isso, este argumento acresce que a noção de bem acrescenta algo à noção de ser – especificamente a sua apetibilidade. Tudo o que acrescenta alguma coisa a uma noção aumenta sua compreensão, mas reduz sua extensão: quando eu falo, por exemplo, em “substância”, falo de um ser que existe por si, e reduzo a aplicabilidade da noção de ser para excluir dela todos os acidentes. A noção de substância contrai, portanto, a noção de ser porque acrescenta elementos a ela que excluem de sua extensão os acidentes. Do mesmo modo, a noção do acidente “quantidade” contrai a noção de ser, porque quando falo em seres sob o aspecto da quantidade, excluo desta noção entes como os anjos, que não são corporais – e que portanto não possuem o acidente da “quantidade”. A compreensão aumenta, mas a extensão reduz.
Cada vez que eu somo, portanto, um novo elemento à noção de ser, eu reduzo sua extensão, deixando de fora alguns seres que não se incluem no conjunto formado pela noção agora contraída. Do mesmo modo, este argumento conclui que, ao juntar a noção de desejabilidade à de ser, para chegar à noção de bem, eu aumento a compreensão da noção, pela adição de um elemento novo, e portanto contraio sua extensão – a noção de bem, então, assim contraída, teria extensão menor do que a noção de ser; haveria, pois, uma parte do conjunto dos seres que não estaria contida no conjunto do que é bom. Portanto, este argumento conclui dizendo que há seres que não são bons.
O segundo argumento completa o raciocínio do primeiro com uma citação escritural, tirada de Isaías 5, 20: “ai daqueles que chamam o mal de bem e o bem de mal”. Logo, mesmo do ponto de vista da Revelação, o argumento conclui que nem todo ser é bom. Se me permitem uma digressão, eu diria que, pensando aligeiradamente, este seria o caso de Satanás e seus sequazes – remeto à ressalva que fiz no segundo parágrafo, acima.
O terceiro argumento não é mais simplesmente lógico; é metafísico. Mais uma vez parte da noção de “matéria-prima”, que, como vimos no texto anterior, era compreendida pelos platônicos como um não-ser. Aqui, embora o argumento admita que ela é um ser de algum modo, o fato é que a nada nem a ninguém apetece ser matéria-prima. Logo, não há, segundo este argumento, como admitir de nenhum modo à matéria-prima a noção de “apetecível” – ou seja, não há como classificá-la como boa de nenhum modo. Portanto, se ela é um ser, ela não tem nenhuma razão de bem, e representa um claro exemplo de um ser ao qual a noção de bem não pode se aplicar de modo nenhum. O que leva o argumento a concluir que nem todo ser é bom.
Finalmente, no quarto argumento, está em jogo a aplicação da noção de bem a simples entes de razão como os entes matemáticos. O argumento lembra que “o Filósofo” (ou seja, Aristóteles, que São Tomás chama assim, de Filósofo com letra maiúscula; que respeito!) diz que não há bem na matemática. Mas os entes matemáticos são seres, porque, se não fossem, não poderia haver ciência sobre eles. Lembremos que para São Tomás, como para o Filósofo (vou tomar a liberdade de chamar Aristóteles assim também…), a ciência é o conhecimento das coisas pelas causas. Ora, se os entes matemáticos não fossem seres, não poderiam ser objeto de ciência. Mas, se o próprio filósofo afirma que neles não há bem, então há seres aos quais não se aplica a noção de bem. Logo, nem todo ser é bom.
No argumento sed contra, São Tomás traz uma citação bíblica que o impede de simplesmente aceitar a hipótese inicial e seus argumentos de suporte: trata-se da passagem em 1 Timóteo 4, 4, no qual São Paulo afirma textualmente que “toda criatura de Deus é boa”. É claro que de Deus se pode predicar o bem absoluto, como veremos nos debates da questão 6, a seguir. Quando se acrescenta que “todas as criaturas são boas”, há aqui a universalização da noção de “bem” para atingir todo o conjunto dos “seres”. São Tomás passará, então, para a sua síntese, na qual ele dirá, com simplicidade: todo ser, como tal, é bom, porque, como ser, está em ato. E todo ato é alguma perfeição. São Tomás trabalha, pois, mais uma vez, com seu par filosófico ato-potência, e lembra-nos de que, se a potência é apenas uma promessa de ser, que pode ou não vir a se efetivar, o ato, por seu lado, é a própria efetivação da promessa: é a própria perfeição alcançada na medida da plenificação da forma da coisa. Dizer que alguma coisa está em ato, quanto a algum aspecto, significa dizer que, quanto àquele aspecto, esta coisa é perfeita. Ora, tudo o que é perfeito é desejável – ou “tem razão de apetecível”, nas palavras de São Tomás, e, portanto, tem razão de bem. Consequentemente, todo ser, exatamente por estar em ato, e na medida em que esteja, é bom. Eis aí a criação descrita como o faz o Livro do Gênesis, 1, 31: “ E Deus viu tudo o que tinha feito: e era muito bom”. E eis a diferença entre a visão de São Tomás e a visão contemporânea que temos do Universo: para nós o universo é um amontoado de coisas que forma uma realidade à parte, neutra para o valor, que, na nossa visão, pertence a outra esfera, na qual colocamos o bem.
Para São Tomás, não há como colocar nenhuma distância entre o que é e o que é bom. Colocando poeticamente: o que chamamos de “esfera dos valores”, São Tomás chama de lar. Com uma visão de mundo como esta, não há espaço para a depressão, senão como patologia decorrente do orgulho existencial da cegueira deliberada para o amor de Deus que permeia tão completamente o universo. E não se pode deixar de registrar, mais uma vez, o espanto de constatar que o bem, sendo tão evidente nas coisas e na criação como um todo, possa nos passar despercebido: lembro aqui a afirmação tomista de que Deus não pode ser visto por nós exatamente por excesso, não por falta, de luminosidade. É como se deixássemos de crer no bem não porque tudo seja inaceitavelmente ruim, ou desesperadoramente neutro: mas porque tudo parece bom demais para ser verdade.
No próximo texto, examinaremos as respostas de São Tomás aos argumentos contrários.
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