Já vimos, nos textos anteriores, que quando falamos de “ser” e de “bem”, falamos da mesma coisa, sob enfoques diferentes. Falar de “ser” é falar de existência (com todo o cuidado que a palavra “existência” merece), e falar de bem é falar de inclinação das potencialidades até sua realização na existência atual, perfeita, que é o que toda potencialidade deseja (com todos os cuidados que devemos ter ao falar de “desejo” aqui). Tudo isto já foi abordado nos textos anteriores, e é um assunto inesgotável – mas não ininteligível.

Aqui, neste artigo, São Tomás falará da ordem adequada para se tratar destes temas. Qual noção tem maior poder de explicação, a noção de “ser” ou a noção de “bem”? Como vimos também nos textos anteriores, as correntes de origem aristotélica tendem a colocar a prioridade no ser. As correntes de cunho platônico e neoplatônico, no entanto, acentuam a noção de “bem” como logicamente anterior, e, portanto, com mais poder de explicação.

Como digressão, diríamos que, a partir do renascimento e do iluminismo, a prioridade passou do “ser” e do “bem” para o “pensamento”. Enquanto os clássicos e os escolásticos debatiam a respeito da prioridade do ser quanto ao bem ou vice-versa, Descartes proclamava a anterioridade do pensar sobre o ser, com seu famoso mote “penso, logo sou”. E Kant propunha que, para começar a filosofar, era preciso criticar a própria razão, ou seja, estabelecer os limites do pensamento é uma empresa, para Kant, que precede ao próprio questionamento sobre o ser – que, aliás, encontra-se, para ele, além da capacidade de conhecimento humano. O problema do ser, para Kant, está além da possibilidade da razão humana – e portanto é, para ele, irracional. São Tomás constrói uma abordagem muito diferente. Ele sabe que, se partirmos do ponto errado, seremos irremediavelmente conduzidos a uma armadilha filosófica, e por isto ele faz questão de partir do ponto certo. Partir do pensamento levou-nos ao niilismo contemporâneo, e a todos os becos sem saída em que a filosofia enveredou hoje. Os caminhos da filosofia hegemônica, de matriz pós cartesiana e kantiana, hoje, poderiam ser descritos como a de uma pessoa que resolveu pintar o chão de sua sala. Ele já avisou aos seus vizinhos que não aceitava as orientações retrógradas de todos os que pintaram as próprias salas antes, porque são apenas manifestações de um mero dogmatismo inaceitável. Assim, munido de pincel e tinta, começou a pintura pelos cantos da sala, no sentido do meio. Logo, viu-se no meio da sala, cercado de tinta fresca por todos os lados, e proclamou a irracionalidade essencial das técnicas de pintura, simplesmente por recusar-se a admitir que iniciou pelo lugar errado. O dilema é que iniciar pelo lugar certo fatalmente conduz a razão à reflexão sobre Deus, que é o que ele queria evitar desde o início. Mas, preso na rede emaranhada que a razão se coloca quando se recusa a principiar por Deus, os nossos contemporâneos preferem desdenhar a razão do que conceder a Deus o princípio da sabedoria. Este é um assunto ao qual voltaremos ao longo das nossas conversas sobre a filosofia tomista.

Mas para partir de um ponto diferente, São Tomás nos propõe debater: partiremos do ser ou do bem? A hipótese inicial aqui é que o bem deve ser logicamente anterior ao ser. E São Tomás aduz três argumentos para esta hipótese.

No primeiro argumento, ele cita o [pseudo-]Dionísio, cuja filiação ao pensamento neoplatônico leva a afirmar que, dentre os nomes de Deus, o bem vem antes do ser. Se é assim, então o argumento conclui que o bem é logicamente anterior ao ser, e portanto deve ser o ponto de partida para a reflexão. O segundo argumento também é retirado de Dionísio, e também tem um viés neoplatônico: segundo este argumento, o bem é anterior ao ser, e tem mais capacidade de explicação, porque o ser é uma noção que se aplica somente ao que existe, enquanto o bem aplica-se também ao que não existe. O terceiro argumento vai no mesmo caminho, e cita uma passagem escritural, em que Jesus adverte sobre aquele que o haverá de trair: “melhor fora a tal homem que não tivesse nem nascido” (Mt 26, 24). Portanto, o argumento coloca que o não-ser pode ser objeto de desejo, e cai na definição de bem como “aquilo que todas as coisas desejam”. Ora, se o não-ser é desejável, ele pode ser bom, e portanto o bem se estende para além das fronteiras do ser. Logo, o bem é uma noção mais ampla do que a do ser, e portanto é logicamente anterior. E, finalmente, o quarto argumento afirma que não somente o ser é desejável; também são desejáveis bens tais como a vida, a sabedoria e coisas semelhantes. Por isto, o ser é apenas um dos objetos de desejo, um dos casos dentre tantos dos quais se pode dizer que são bons. Assim, o argumento conclui afirmando que o bem é mais amplo que o ser, e portanto é logicamente anterior.

Vem agora o argumento sed contra, que é aquele argumento que impede São Tomás de adotar simplesmente os argumentos anteriores. Neste sed contra, São Tomás cita o chamado “Livro das Causas”, que diz que a primeira criatura é o ser. Vejamos agora como São Tomás irá magistralmente harmonizar suas fontes platônicas com suas fontes aristotélicas, e responder como pode ocorrer que uns digam que a prioridade é do ser, e outros ainda que a prioridade é do bem. São Tomás fará a sua síntese, de modo respeitoso com todas as suas fontes e sem fazer concessões que impliquem em macular a verdade.

Na sua resposta, São Tomás já afirma categoricamente que o ser é logicamente anterior ao bem. E dá uma aula de gnoseologia (quer dizer, faz uma análise aguda da natureza da razão humana) para explicar qual a relação que existe, em nosso conhecimento, sobre o nome que a nossa inteligência dá às coisas, a noção que nossa inteligência forma a respeito do objeto de conhecimento e a relação entre o objeto e a inteligência – que é exatamente o que se exprime pela palavra “lógica”, no sentido aristotélico-tomista. São Tomas nos explica que a noção que o nome significa é aquilo que a inteligência concebe a respeito do objeto e que exprime pela palavra. Nesta frase há toda uma teoria do conhecimento, muito mais otimista quanto à capacidade humana de conhecer do que todas as teorias do conhecimento pós-cartesianas e pós-iluministas. Para São Tomás, os nomes expressam noções reais que a nossa inteligência forma sobre as coisas que se apresentam como objeto do nosso conhecimento. Conhecer não é, portanto, formar ideias ou imagens na mente, ou projetar categorias de pensamento sobre coisas que estão por definição além da nossa capacidade de conhecer. São Tomás é firme em defender que conhecemos coisas, formamos sobre elas noções e exprimimos estas noções em palavras. A questão, para São Tomás, é determinar qual coisa é a primeira a se apresentar ao nosso conhecimento, e qual a noção mais ampla que podemos formar, e que servirá de base para todas as noções que formaremos sobre todas as coisas que se apresentarão ao nosso conhecimento em seguida. São Tomás afirma, portanto, que o ser nos interpela por primeiro, e a primeira noção que formamos é a de que existem coisas. O ser das coisas é, como afirma Tomás, o objeto próprio do nosso intelecto, como o som é o objeto próprio da nossa audição, e a luz, da nossa visão. Assim, em vez de começar por um pensamento vazio, como que uma pura razão que quer se criticar antes mesmo de ser interpelado pela existência em que se encontra, São Tomás começa pelas coisas que nos interpelam, e, num processo reflexivo, explica o processo pelo qual as conhecemos. São Tomás poderia afirmar, ao inverso de Descartes: existimos, conhecemos, e daí pensamos! Ou, ao revés de Kant, ele parte da existência das coisas, de sua interpelação e do fato óbvio de que esta interpelação nos atinge eficientemente, para refletir sobre a forma pela qual nós conhecemos. Começar a pintar pelo fundo da sala garante que, ao terminarmos, sairemos tranquilamente pela porta, sem nos aprisionarmos num pensamento incapaz de conhecer nenhuma coisa além dele mesmo. Ao refletir como criatura, São Tomás começa por conceder que a própria existência lhe precede, precede a sua reflexão e mede o seu conhecimento. Mas somente se pode começar pela criaturalidade quando se admite uma criação, e, consequentemente, a razoabilidade de admitir precedência de Deus como fonte da existência e da inteligência – fatos que as filosofias da “razão pura” jamais poderão admitir, porque admitir a razoabilidade de Deus perante a razão humana significa admitir que o ser humano não é o centro da existência.

Se somos criaturas, necessariamente somos precedidos de um criador, e só por isto a nossa filosofia é uma amizade, não uma construção. O maior perigo de quaisquer filosofias do pensamento é o de, tentando purificar a razão dentro dos limites do estritamente humano, colocar-se no lugar de Deus. A partir daí, há um caminho inexorável para o niilismo – quando alguém tem a coragem de negar a qualquer pensador a sua divindade, toda a filosofia cai. Eu tenho a impressão que foi exatamente isto que Nietzsche fez quando gritou que Deus está morto: ele quis evidenciar a aporia fundamental de qualquer pensamento que coloque o pensador no lugar de Deus. E como começar por deus é algo inadmissível a priori para qualquer pensador pós-iluminista, resta o niilismo e o culto ao desespero e à angústia como um certo charme de quem acha que pensou mais longe do que todo mundo. A boçalidade de quem começou a pintar a sala pelo lugar errado e prefere proclamar a inexistência da sala do que admitir que pode haver uma forma certa de começar. Aliás, prefere gloriar e cultuar a morte e o suicídio, com aquele ar de superioridade romântica de quem prefere reinar no erro do que servir à verdade, do que admitir que esteve equivocado desde o princípio e conceder a possibilidade de que pudesse haver outra maneira de começar. É isto que Nietzsche parece dizer quando afirma, em sua obra “Assim Falava Zaratustra”, que é necessário que não haja Deus, porque, “se Deus não sou eu, então é melhor que ele não exista – como eu poderia suportar não ser Deus?”. Mas como nenhum de nós pretende ser Deus, vamos caminhar com São Tomás, por uma filosofia da criaturalidade – que nos preserva do niilismo, do romantismo do absurdo e do culto à escravidão da ilusão de reinar no inferno. Reinar no inferno é cultuar o nada e condenar-se voluntariamente a ele para toda a eternidade. Servir no céu é saciar-se de tudo, e reinar com o Amor para sempre.

Se as coisas nos interpelam por primeiro, se a sua existência é o objeto próprio da nossa inteligência, isto significa que a atualidade das coisas, e não suas potencialidades, é o que primeiro se dá ao nosso conhecimento. As atualidades são efetivamente existentes, e são o ser em sentido pleno da palavra, enquanto as potencialidades são ser apenas num sentido secundário, derivado e limitadíssimo, como promessa, não como efetividade. Por isto, conhecemos o que está em ato, em primeiro lugar, e a partir do conhecimento do que está em ato é que conhecemos as potências. É por isto que São Tomás faz questão de reiterar sempre que os atos são logicamente precedentes às potências, porque o nosso conhecimento está proporcionado àquilo que é, não àquilo que promete ser. As promessas das potencialidades são cognoscíveis apenas num segundo momento, e a partir do conhecimento das atualidades. É por isto que São Tomás afirma tão solenemente: “uma coisa é cognoscível na medida que está em ato”. Esta ordem de conhecimento, que São Tomás faz questão de reiterar, será muito importante para explicar a relação entre o ser e o bem: se o ato é perfeição, e se a perfeição atrai a vontade como bem, a relação entre o conhecimento e a vontade é muito mais dinâmica do que parece a princípio: as coisas são cognoscíveis na medida que são boas. Assim, há uma relação direta entre o que é cognoscível em primeiro lugar, porque é atual, e o que atrai nossa vontade, porque é perfeito. Se o ser é o que primeiro conhecemos, é o bem que há no ser que funciona como causa do nosso conhecimento. É o que São Tomás explicará nas respostas aos argumentos iniciais, e que elucidará exatamente a razão pelo qual é tão fácil confundir a ordem que há entre o ser e o bem no plano do conhecimento.