Há certas coincidências que são de arrepiar. Eu estava aqui meditando sobre a sexta feira santa, e sobre aquelas coisas que a gente vai endo aqui e ali, e que formam, de certo modo, a nossa cultura geral. Refiro-me à antiga discussão sobre o nome de Barrabás, aquele que foi escolhido para sr libertado quando Jesus foi condenado à crucifixão. Os antigos escritores eclesiásticos registravam que o nome completo de Barrabás, de acordo com antigos manuscritos bíblicos, era Jesus Barrabás – sendo que “Bar Abbas”, em aramaico, significa simplesmente “filho do Pai”. Ou seja, Brrabás era uma espécie de “duplo” de Jesus, um duplo laical que era “bandido”, quer dizer, apossou-se daquilo que não era seu por direito. E nós, o povo por quem Jesus seria crucificado, escolhemos o ladrão ao Deus verdadeiro. Mas há outra coincidência onomástica na Paixão que me impressiona: Simão, nomeado “rocha da Igreja”, por Jesus (Mt 16, 18), recebe o nome de “Kephas”. Ora, o Sumo Sacerdote que preside o Sinédrio, e que encaminha Jesus à crucifixão, chama-se Kaiphas; a proximidade dos nomes me parece notável. Um dia quero pesquisar mais profundamente.
Meditando nisto, deparei-me em seguida com o seguinte paradoxo, relativo a este artigo que estamos contemplando agora: Se, no Antigo Testamento, Deus se apresenta como o Ser (Ex 3, 14), no Novo Testamento o Apóstolo João apresenta a única definição de Deus de toda a Revelação cristã: Deus é amor (1Jo 4, ), como conciliar a Revelação de que Deus é o próprio Ser (e que Jesus retoma e reafirma em passagens como João 8, 28: “e quando tiverdes levantado o Filho do Homem, conhecereis que Eu Sou”) com a Revelação joanina de que Deus é amor?
Este paradoxo não foi estranho à própria filosofia grega. De fato, se para Aristóteles a questão do “ser” é a questão principal – tanto que ele chama de “filosofia primeira” aquela que estuda “o ser enquanto ser” (to on he on, ou “τό ὄν ᾗ ὄν” em grego clássico), para Platão e Plotino o bem vem antes do ser, porque as ideias são boas porque são o próprio ser das coisas enquanto participam da perfeição; ora, o ser, nelas, é originário, mas a perfeição é participada; logo, para os platônicos, a perfeição é logicamente anterior ao ser, e, se o bem é aquilo que todas as coisas almejam como perfeição, o bem precede logicamente o ser nas correntes platônicas.
De um lado, portanto, teologicamente, há o aparente paradoxo revelado entre Deus como Ser e Deus como Amor, e do outro o aparente paradoxo filosófico da precedência entre o Ser e o Bem. Não é fácil sair deste paradoxo, e São Tomás constrói esta saída lentamente, como um ourives, de um modo que só pode nos dar impaciência, a nós filhos do século XXI, sempre tão ansiosos por soluções e respostas rápidas. São Tomás pensa diferente: ele quer superar o paradoxo pelo diálogo, encontrando a síntese que respeite a todos os dados da questão e à importância de todas as fontes, sem transigir nem um milímetro com a verdade. São Tomás é um homem do diálogo e do pensamento, não da solução unilateral e da imposição.
Esta construção já se iniciou no artigo anterior: vimos que o ser e o bem têm a mesma realidade, não são diferentes no plano das coisas; são apenas distintos no plano da razão, porque entre o ser e o bem há uma diversidade de ângulos, de noções, já que o bem inclui a noção de desejabilidade, que não está incluída na noção de ser. O ser, como ato, quando se relaciona com uma vontade, é capaz de atraí-la, e a esta atração, a esta inclinação que o ser provoca na vontade, chamamos de bem. A saída do paradoxo começa a ser lentamente montada, já que entre ser e bem, que são os dois nomes de Deus para a Revelação, não há diferença real – são a mesma coisa, vistas de modo diferente; em si mesma, como ser, ou em relação com uma vontade, como bem. Há uma unidade real, portanto, entre estes nomes de Deus. A distinção entre eles é relacional, e isto ficou muito claro no artigo passado. Acompanhar São Tomás é assim – deixar-se conduzir por passos lentos, mas incrivelmente densos. E sempre profundamente compensadores.
Quando falamos, num texto anterior, sobre o paradoxo do ovo e da galinha, havíamos proposto que a solução envolveria distinguir entre uma anterioridade lógica e uma anterioridade cronológica. Na cronologia, que é o reino do tempo, o ovo tem que vir sempre antes da galinha, mas no espírito, que é o reino da lógica (logos), a galinha tem de vir antes do ovo, porque, quando surge, o ovo já está especificado como um ovo de galinha. Nem quero discutir aqui a questão da regressão infinita que este paradoxo nos sugere, porque isto já ficou resolvido quando estudamos as cinco vias: a regressão ao infinito só é um problema para quem não conhece a primeira via. Não é o nosso caso.
Voltando ao ovo e a galinha, este enigma se resolve com as noções filosóficas de ato (a galinha é um ser em ato) e de potência (o ovo é a potência de uma galinha). Ora, a filosofia escolástica sempre insistiu que a potência só se torna inteligível a partir do seu ato, porque é o ato que especifica a potência. A própria inteligibilidade da realidade depende de que compreendamos esta distinção entre anterioridade lógica e anterioridade cronológica, portanto. Com relação aos atos e suas potências, esta distinção de anterioridades está bem clara. O ato e a potência não apontam para duas coisas diferentes: referem-se sempre à mesma coisa, conforme ela seja uma promessa ou uma realização. O ovo torna-se esta galinha, e esta galinha veio deste ovo. A ordem cronológica e a ordem lógica, portanto, na distinção entre ato e potência, está bem estabelecida.
A questão, portanto, aqui, envolve debater uma questão similar, agora quanto ao ser e ao bem. Já sabemos que entre o ser e o bem não há distinção real, como não há distinção real entre o ovo e a galinha que ele será. Mas qual das duas noções terá a prioridade lógica, e qual erá a prioridade cronológica? Este é o objeto deste artigo, que debateremos no próximo texto.
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