No texto anterior, conversávamos sobre a consistência do universo, na visão de São Tomás. E dizíamos sobre a relação entre as potências, os fins, a perfeição e o bem, e a perfeita ordenação entre a estrutura interna das coisas (enteléquias) e a providência de Deus, que ativamente dirige as coisas aos seus fins, sem prescindir delas próprias – o maestro perfeito.
Esta é, então, a visão final do problema: cada vez que uma potência atinge o seu ato, há uma perfeição naquele ser. E esta perfeição é exatamente a noção de bem, que tem razão de fim, como o ato é o fim da potência. Em suma: quanto mais um ser tem atualidades, mais perfeito ele é, e portanto mair repleto de bem. Ora, como a atualidade nada mais é do que o ser daquilo que, quando era potencialidade, era apenas uma promessa de ser, então quanto mais algo é, mais tem de ser e mais de bem. Em suma; quanto mais algo é, então melhor ele é. Assim, no mundo das coisas, não há diferença entre ser e ser bom.
No entanto, há uma dimensão que a noção de ser acrescenta à noção de bem: a noção de inclinação, de tendência, de querer, de ser desejável. E tudo somente pode ser desejável na medida que é perfeito. Nisto se distinguem a noção de ser e a noção de bem, ou seja, em que a noção de bem inclui um viés de desejabilidade que a noção de ser, em si mesma, não tem. Mas como se trata de uma noção, ou seja, apenas de uma outra maneira de enxergar as mesmas coisas a partir de um ponto de vista diferente, então a distinção entre o ser e o bem é apenas de razão; ser e bem não são duas coisas diferentes, mas a mesma coisa vista sob diversos aspectos.
São Tomás vai passar a responder aos argumentos que sustentavam a hipótese inicial. Sempre me encanta muito a maneira inteligente e aberta com que ele acolhe estas hipóteses no que têm de verdadeiro e corrige o que há de equívoco, sem simplesmente tomar um partido rígido por um dos lados simplesmente por ser este ou aquele lado. Na primeira objeção, trata-se de tomar um argumento atribuído a Boécio, filósofo cristão respeitado, e São Tomás admitirá dele o que ele tem de verdade. Boécio dizia, neste argumento, que percebia a distinção entre aquilo que faz com que as coisas seja, e aquilo que faz com que sejam boas. Desta colocação, o primeiro argumento havia concluído pela existência de uma distinção real entre o ser e o bem. São Tomás vai explicar que a colocação de Boécio é perfeita, mas não permite concluir ela distinção real, mas apenas pela distinção de razão. Ele explica, com muita simplicidade, que o simples fato de que as coisas sejam já é uma plenitude, para a noção de ser. Não há nenhuma meia existência; aquilo que existe, existe por um ato perfeito de ser que se distingue absolutamente da não-existência sem graduações possíveis. Donde ele conclui que qualquer coisa existente, ainda que seja uma coisa em si mesma repleta de potencialidades não atualizadas, já é plena para o ser, ou seja, existe absolutamente. Mas como ainda está muito longe da perfeição, ainda é boa de uma maneira muito relativa, muito precária. As coisas imperfeitas, então, estão no ser de modo absoluto mas no bem apenas de modo relativo.
No entanto, à medida que as potencialidades dessa mesma coisa vão ganhando atualidade, essas perfeições são, de certo modo, também seres, mas de modo relativo – porque existem na substância que está ganhando as perfeições. Mas são bem de modo absoluto, porque tornam este ser mais perfeito.
Um exemplo pode tornar o assunto mais claro; pensemos numa pequena muda de uma árvore frutífera. Ela existe, e não há meio termo na sua existência. Na ordem do ser, portanto, ela se coloca de modo absoluto. Mas as suas frutas são apenas promessas, meras potencialidades. Então eu ainda não posso dizer que ela já é uma boa árvore fruteira, embora haja a promessa de que um dia ela venha a sê-lo. Então ela é boa apenas numa noção muito relativa, muito fraca, de bondade. Crescida a árvore, e chegada a sua primeira safra, ela continua sendo o que era desde o início: uma árvore frutífera. Mas ganhou um tronco robusto, galhos, folhas e raízes fortes, e agora dá frutas muito doces. Então posso dizer: estas folhas, raízes e galhos acrescentaram-se ao que a árvore já é desde o início, e por isto posso dizer que eles têm um ser apenas relativo ao ser da árvore que os precede e sustenta. Mas, como perfeições desenvolvidas e atuais daquela outrora pequena muda, tornam a minha árvore boa num sentido absoluto: ela efetivamente me dá os frutos que um dia foram apenas promessas. Então ela agora é boa no sentido completo, pleno, da palavra. Em linguagem técnica, então, São Tomás nos explica o que Boécio estava querendo dizer: pela sua mera existência, que São Tomás chama de “ato primeiro”, a planta está no ser simpliciter, ou seja, de modo absoluto; mas é boa apenas secundum quid, ou seja, relativamente às promessas que ela encerra.. Pelo seu ato último, que é a atualização de todas as suas potencialidades, a planta é boa simpiciter, porque é capaz de dar efetivamente tudo aquilo que a sua existência prometia: frutos doces e abundantes. Mas este estado de perfeição total, e mesmo os próprios frutos, só existem porque a pequena árvore já era plenamente existente desde o começo. Então o ser dos galhos, das folhas e mesmo dos frutos é um ser derivado, secundum quid, e apenas de maneria relativa, quodammodo, posso dizer que eles estão no ser. A fomulação tomasiana é assim: “pelo ato primeiro, uma coisa é ser, de modo absoluto, como, pelo ato último é bem, em sentido absoluto. E contudo, pelo ato primeiro, é bem, de certo modo, assim como de certo modo é ente, quanto ao último ato”.
O segundo argumento é aquele que relaciona o bem à informação da coisa, ou melhor, in-forma-ção, ou seja, ao aperfeiçoamento da sua forma pela atualização progressiva das suas potencialidades. Esta diferenciação entre ato primeiro, como mera existência, e ato segundo, como total atualização das potencialidades, é suficiente para mostrar o verdadeiro sentido em que este argumento deve ser compreendido.
Esta é a mesma resposta para o terceiro argumento – aquele que diz que o bem é diferente do ser, porque aquele pode ser classificado em melhor e pior, e este não. Ora, a mesma distinção entre ato primeiro e ato segundo mostra que este argumento não é falso – entre o ato primeiro de simples existência e o ato último de perfeição não há graduação no próprio ser, senão relativamente, mas há graduação no bem, conforme a coisa se aproxime ou se afaste da perfeição final. São Tomás exemplifica, aqui, com a ciência e a virtude; estas duas coisas, como veremos na primeira parte da segunda parte da Suma, são hábitos em nós, e podem ser mais ou menos perfeitos conforme tenhamos mais ou menos virtudes, e mais ou menos ciência. Isto se encaixa, portanto, na distinção de razão entre bem e ser, e não prova que eles sejam realmente diferentes, como propunha originalmente o argumento. Usando a linguagem escolástica, diríamos que isto é verdade quodammodo, mas não simpliciter!
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