Este primeiro artigo da questão 5 desta primeira parte da Suma trata de uma questão que parece realmente inusitada para nós, desabituados às grandes questões da filosofia clássica – a relação entre o “bem” e o “ser”.
Estamos acostumados, em nossos tempos atuais, a falar de “valores”, como situações e coisas que eu escolho considerar importantes, ou que são consideradas importantes por algum grupo, por alguma lei, por alguma religião. Em suma, quando falamos de “bem”, hoje em dia, estamos na verdade nos referindo a “valores”. Estamos acostumados também a imaginar que estes “valores” sempre se relacionam com alguma escolha feita por alguém, e que “valor”, quando se relaciona com algo que alguém decidiu julgar importante, descreve uma emoção ou um sentimento que nos desperta ao nos relacionarmos com esta coisa, situação ou indivíduo. Em suma, se nos relacionamos com algo que tem “valor” de forma correta, então devemos nos sentir bem. Se nos relacionamos com este mesmo algo de forma errada, devemos nos sentir mal, ou alguém nos fará alguma coisa que nos fará mal. Assim, para nós, a palavra “bem” não tem exatamente a natureza de um substantivo. Parece mais um adjetivo, que tem a ver com escolhas e sentimentos, e que envolve satisfação pessoal ou culpa. Ou alguma vantagem, em termos de prazer, dinheiro ou poder, para o próprio indivíduo, seu grupo ou mesmo para o maior número de pessoas, como reza o famoso ditado utilitarista.
Mas não é assim na filosofia clássica. O bem é, de fato, um substantivo, algo que os antigos chamavam de um “transcendental do ser”. Ou seja, o bem é, como o ser, algo que transcende todos os gêneros e espécies, predicando-se de todos os entes de modo analógico. Isto dá uma enorme objetividade ao bem, impossibilita a criação de relativismos morais e torna racional o discernimento de escolhas pessoais no campo da liberdade humana – ou seja, o desenvolvimento daquela virtude que os antigos denominavam de “prudência”. Ao contrário do pensamento contemporâneo, a filosofia clássica entende que o bem é algo que se pode discernir racionalmente, e que, portanto, a liberdade não tem relação apenas com as emoções e as escolhas, mas com a própria existência e principalmente com os fins. É por isto que neste primeiro artigo, São Tomás debaterá a relação do bem com o ser. É a natureza desta relação que está em questão; qual a distinção entre o ser e o bem? Eles são realmente diferentes segundo a ordem das coisas (ou seja, têm uma diferença real, secundum rem, no próprio mundo criado), ou são apenas distintos na ordem da razão, mas não realmente diferentes?
Ele começa propondo de logo a hipótese problemática: parece que o bem difere realmente do ser. No primeiro argumento, ele resgata uma citação de Boécio, na qual ele diz: Vejo, na natureza, que há diferença entre aquilo que faz com que as coisas sejam boas e aquilo que faz com que elas sejam (existam). Portanto, de acordo com esta hipótese, há uma diferença real, e não só uma distinção de razão, entre o bem e o ser.
O segundo argumento é mais técnico. Parte da distinção entre o ente e a forma. A forma, como se sabe, é um dos elementos, ou seja, uma das causas intrínsecas dos entes. Todos os entes, na filosofia clássica, são explicados por quatro causas: duas intrínsecas (matéria, ou causa material, e forma, ou causa formal) e duas extrínsecas (causa eficiente e causa final). Este argumento afirma, então, que nenhum ente pode dar a forma a si mesmo. Mas o bem está relacionado com a forma das coisas, ou como “informação”; “per informationem entis”, no latim. Quer dizer, o bem se relaciona com a atualização plena das potencialidades das formas de cada ser, é isto que São Tomás chama aqui de informação ou in-forma-ção. Mas num ente que se informa, ou seja, que passa progressivamente das suas potências aos seus atos ou perfeições, plenificando sua forma, mesmo antes dessa plenificação já há o ser em toda sua plenitude. Então, há diferença real entre o ser e o bem.
O terceiro argumento destaca que o bem pode ser classificado em “melhor e pior”, ou seja, há realmente graus de perfeição diversos nas coisas boas. É o que São Tomás quer dizer quando afirma que “o bem é susceptível de mais e de menos”. Mas o ser não pode ser classificado em mais ou manos: ou algo existe, ou não existe; não há meios termos – ao contrário do que pleiteava aquela antiga música popular em que uma moça revelava à sua mãe que estava “ligeiramente grávida”. Não há graduação no ser, não há meio termo entre a existência e a não existência: ou se é, ou não se é. Mas há graduação no bem: algo pode ser melhor que outra coisa. Assim, segundo este argumento, há diferença real entre o ser e o bem.
Neste ponto, São Tomás traz o argumento sed contra, que o impede de aceitar simplesmente a hipótese contrária inicial. Aqui, ele cita Santo Agostinho, que diz: “somos bons à medida que somos”. Há, aqui, portanto, uma relação direta entre bem e ser, que nos impede de admitir que eles sejam duas coisas diferentes. Que relação é esta? São Tomás passa agora a responder.
Ele começa afirmando logo que o bem e o ser não são duas coisas diferentes; não há diferença entre eles na ordem dos entes, ou seja, na ordem do real, senão na ordem da razão. A noção de bem envolve simplesmente a relação entre uma vontade e algum ser; vale dizer, São Tomás retoma aqui a noção de bem que foi apresentada no primeiro parágrafo do livro um da Ética a Nicômaco de Aristóteles: bem é o que todas as coisas desejam. As coisas são atraídas, como nos ensina São Tomás, pela perfeição. Isto não implica, como pode soar aos ouvidos modernos, que São Tomás, ou mesmo Aristóteles, tenham uma visão personificante do mundo, como se as coisas tivessem vontade e se inclinassem deliberadamente para as suas perfeições como para fins discernidos e escolhidos. Somente as coisas vivas, que possuam sensibilidade e apetites em razão de sua forma animada, inclinam-se ao fim por si mesmas. A sensibilidade lhes apresenta os seus fins e o apetite os inclina para ele. Mas somente nos seres racionais (como o ser humano), esta inclinação é propriamente uma volição deliberada. Mesmo nos seres sensíveis, o apetite sensível, ainda que envolva a memória e a estimativa (como pode perceber qualquer um que já tenha jogado bola com um cão). Nas formas mais simples, como as formas vegetais, embora haja animação quanto ao movimento de crescimento e de reprodução, não se pode fala de um apetite sensível propriamente dito senão analogicamente. Por isto, as formas animadas vegetativas, como as formas inanimadas (as coisas do reino mineral) também inclinam-se para o seu fim em razão de suas próprias formas, mas guiadas por aquele que tem o governo de todas as coisas, como vimos ao estudarmos a quinta via (questão 2, artigo 3). Assim, todas as coisas dirigem-se, de fato, aos seus fins, de modo deliberado, mas esta deliberação nem sempre envolve um ato de livre arbítrio pessoal individual. Sempre envolve, no entanto, a providência divina, da qual São Tomás tratará na questão 22 desta parte mesma da Suma. O universo de São Tomás sempre envolve, portanto, formas inteligíveis que contêm verdadeiramente seus atos e suas potências (ou seja, são aquilo que os escolásticos chamavam de enteléquias), mas ao mesmo tempo envolvem Deus que a tudo governa com sabedoria em direção aos fins próprios de cada coisa e de todas as coisas. Não há nem deísmo nem mecanicismo possível no universo de São Tomás. O mundo não é um grande mecanismo. Talvez seja melhor vê-lo como uma orquestra sob o maestro perfeito.
No próximo texto, debateremos mais sobre este artigo.
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