Até o último artigo da questão anterior, São Tomás estava nos guiando pelo estudo dos atributos de Deus, e debateu sobre a sua existência, simplicidade e perfeição. Há muita razão de ter começado pela existência: se Deus não existe, não precisamos prosseguir. Há ainda outra razão muito forte: a existência é a primeira coisa que nos interpela. Os entes existem, e nos interpelam – é desta interpelação que se inicia a nossa reflexão. Portanto, a existência é a origem do nosso conhecimento e da nossa reflexão, e portanto deve ser a origem da nossa aproximação a Deus. Em seguida, o debate sobre a simplicidade de Deus nos levou a outras duas coisas importantíssimas: 1. diferenciou Deus de todos os entes criados (Deus não é uma coisa no meio das coisas, ou seja, não é um ente a mais, mas transcende o universo criado – entre o ser de Deus e o ser das coisas há uma proporção, mas não há univocidade); e 2. diferenciou Deus do chamado “ens commune”, ou seja, daquela abstração que os antigos filósofos chamavam de “existência comum” ou “ser comum”, e que é a máxima abstração a que se chega a partir da contemplação de todas as coisas existentes: elas têm em comum, no grau máximo de abstração, o próprio fato de serem existentes. Esta existência comum das coisas, que as unifica todas como iguais no existir, é, portanto, a informação mais simples, e vazia que se pode ter sobre as coisas. Houve, no entanto, quem confundisse este “existir abstrato” e vazio que é compartilhado univocamente por todas as coisas, por um lado, com a plenitude de existência de Deus. Entre o existir comum das coisas criadas, cujo conteúdo é dado pelas respectivas essências dos entes criados que nos interpelam, e o ser pleno de Deus não há senão analogia; por isto, filósofos como Espinosa, que queriam ver no existir do universo criado um dos atributos de Deus estavam errados. Não há espaços para o panteísmo na filosofia da analogia do ser de São Tomás.
Na questão anterior, vimos um debate minucioso sobre a perfeição de Deus: como causa primeira e fim último, Deus é, em si mesmo, todas as perfeições das quais as coisas criadas participam. Dizemos que ele é as perfeições, e não que ele tem as perfeições, porque a simplicidade de Deus não nos permite fazer diferença entre as suas perfeições e aquilo que ele é.
Mas, falando sobre as perfeições de Deus, a próxima questão traz a relação entre o ser de Deus e suas perfeições. Em Deus, as perfeições são aquilo que ele é. Não há um processo de aperfeiçoamento em Deus, como vimos. Ele é perfeito, e completo em perfeição, por essência. Mas nas criaturas a perfeição é sempre processual: trata-se do processo que passa da potencialidade para a atualidade, ou seja, nas criaturas as potências sempre precedem cronologicamente as respectivas perfeições ou atos. Devemos, pois, nos familiarizar com esta terminologia técnica da metafísica aristotélica, que classifica o próprio ser das coisas em atos e potências, conforme sejam promessas ou concretizações das perfeições das coisas.
Dizíamos, portanto, que, nas criaturas, as potencialidades (ou potências) precedem sempre os atos, pois há uma processualidade no caminho da perfeição.
Se as perfeições, no mundo criado, são o próprio ato das coisas, e se em Deus há todas as perfeições cujas potencialidades estão espalhados pelos entes criados, podemos ter certeza de que, do ponto de vista lógico, os atos existem antes (e acima) das respectivas potências. Assim, poderíamos dizer: do ponto de vista criatural (que é o ponto de vista que nós teremos sempre que adotar, porque somos criaturas), as potências vêm cronologicamente antes dos atos, mas os atos vêm logicamente antes das potências. É fácil entender isto: naquela velha discussão sobre quem vem primeiro, o ovo ou a galinha, poderíamos responder assim: o ovo deve existir no tempo antes da respectiva galinha, mas a galinha existe como perfeição antes do respectivo ovo, senão este ovo não seria de galinha, mas de outra coisa qualquer. A metafísica aristotélico-tomista nos leva até aí, e toda a construção antimetafísica da contemporaneidade quer negar esta simples relação de causalidade – porque admiti-la nos leva necessariamente a admitir a existência de Deus na forma descrita nas cinco vias.
Toda esta construção metafísica torna simples, também, responder à questão do bem, que é exatamente o assunto desta questão cinco: Tudo que é ato é perfeição, e tudo que é perfeição é bem. E uma vez que todas as perfeições estão em Deus antes que nas criaturas, Deus é o bem por definição.
E qual a relação entre as criaturas e o bem?
Como veremos neste artigo 1 da questão cinco, todas as criaturas têm inscritas em si, pela sua forma, as potências dos seus atos. Uma vez que todas as potências estão logicamente ordenadas, em si mesmas, aos seus atos (como o ovo de galinha está ordenado a virar galinha e não, digamos, um esquilo), e uma vez que os respectivos atos das potências criadas são cronologicamente posteriores às potências das criaturas, podemos dizer que todas as potencialidades caminham para a sua própria perfeição. A perfeição das potências, então, como ato, é o bem das coisas criadas. Para São Tomás, portanto, o processo universal é o de ter saído de Deus (como promessa ou potencialidade), em quem todas as perfeições existem de modo absoluto e eterno, e regressar a Deus como perfeição. Este é o chamado “esquema exitus-reditus” de São Tomás, que dá uma densidade incrível ao universo e enche de alegria o coração humano; há um sentido em tudo o que existe, e este sentido não está nas coisas, mas em Deus, origem perfeitíssima e destino último de todas as coisas. O universo de São Tomás é, portanto, um universo de alegria e esperança, e não um universo com um espírito de vazio e angústia em que acreditamos viver hoje. E não é por outro motivo que o universo de São Tomás consegue dar um significado pleno aos três primeiros versículos do Evangelho de São João:
“No princípio era o Verbo
E o Verbo estava com Deus
E o Verbo era Deus
Tudo foi feito por meio dele
E sem ele nada foi feito.”
Como o próprio São Tomás nos lembrará ainda neste artigo, esta metafísica dará um sentido inesperado também ao primeiro parágrafo da “Ética a Nicômaco” de Aristóteles, em que o filósofo afirma:
“toda arte e toda indagação, assim como toda ação e todo propósito, visam a algum bem; por isso foi dito acertadamente que o bem é aquilo a que todas as coisas visam”.
O esquema “exitus-reditus” coloca-nos, portanto, como originados no bem e destinados ao bem. O grande mistério, portanto, é o de termos a liberdade de rejeitar o próprio bem, ou seja, o mistério da liberdade humana que nos permite trocar o Bem em si pela busca de bens secundários e derivados, já que, nesta metafísica, a busca deliberada pelo mal é uma impossibilidade em si, porque é contraditória. O mal é a desordem na busca do bem, ou seja, o mal é sempre buscado porque aparece para nós como bem: há sempre uma razão de bem no mal que atrai uma vontade.
Este artigo estabelece um rumo claro para nós: a nossa relação com Deus, portanto, está firmada no plano do bem e do mal, e não simplesmente do certo e do errado. Eis porque esta questão é tão fundamental para nós: se há uma realidade no bem, e se esta realidade se evidencia na relação, então nós, pessoas do século XXI, temos muito a aprender com São Tomás: nosso individualismo nos impede de reconhecer relações reais, e a inexistência de relações reais nas nossas filosofias impede-nos de ter qualquer substrato para falar de bem e de mal: se todas as relações são meras criações, contratos artificiais feitos entre seres que são, em si mesmos, subsistentes e reais independentemente de qualquer relação, então só nos resta combinar o que é certo ou errado, e imaginar que o bem não existe, apenas valores, ou seja, aquilo que é importante para mim ou para nós, e que nós aceitamos ou nos é imposto com poder suficiente, é certo, e portanto bom.
Não é surpreendente que, para nós, hoje em dia, as duas ciências mais importantes não sejam mais a teologia e a filosofia – contempladoras do bem, mas a política e o direito – construtoras do certo. Se o moralismo é a confusão entre o certo e o bem, então vivemos na era mais moralista de todas. E não conseguimos sequer enxergar aquilo que, para São Tomãs, era o mais óbvio. O que prova que mais uma vez ele está certo: não é por falta de luz, mas por excesso, que não enxergamos o bem; no fundo, temos a intuição de que seria muito bom se tudo fosse como São Tomás descreve, um universo consistente que veio do bem e caminha para o bem. Mas não aceitamos que isto possa ser verdade, não porque é incoerente ou sem fundamento, mas porque parece bom demais para ser assim. E, em vez de nos debruçarmos sobre o bem, deliciamos em construir teorias complexas sobre o certo. E deixamos de ser criaturas para sermos indivíduos, no sentido jurídico do termo: num universo sem o bem, restam os combates pelos valores, pela persuasão politica ou jurídica ou pela imposição pura e simples.
Este é o velho conflito entre os realistas e os nominalistas. Os nominalistas são aqueles que negam qualquer realidade às relações; toda relação é artificial. Para os nominalistas, todos os entes estão marcados pela individualidade absoluta, pelo isolamento total, inclusive com relação a Deus. Por isto, qualquer relação é sempre artificial, seja por um contrato social que gera uma eterna tensão entre os direitos individuais e o totalitarismo estatal, seja pela pura e simples opressão daquele que usou de sua força para dominar os circunstantes e construir famílias, aldeias e mesmo impérios baseados na sujeição e opressão.
Para os nominalistas em geral, todas as relações humanas, portanto, podem ser explicadas como contratos ou como sujeições. Isto dá origem a dois pares de oposição: 1. Os que as descrevem todas as relações como fundamentalmente artifícios resultantes de contratos podem dividir-se entre individualistas e coletivistas, mas são sempre, em última instância, juristas discutindo sobre valores em conflito. E 2. Os que descrevem todas as relações como artifícios resultantes de submissão e opressão podem dividir-se em libertários anarquistas, por um lado, ou comunistas em geral por outro, mas são sempre militantes tentando fazer uma revolução. É claro que esta descrição é esquemática e simplificadora, mas não há outra maneira de falar sobre a realidade senão esquematizando e simplificando. Há toda uma gama de sutilezas e semitons entre estas posições que mencionei acima, e elas nunca aparecem, normalmente, como puras e radicais; mas certamente este esquema, devidamente matizado, tem um grande poder de explicação.
Por outro lado, aqueles que, com São Tomás, enxergam realidade nas relações sabem que elas não se constroem ou destroem por causa do poder, da persuasão ou da combinação, embora estas dimensões não estejam excluídas da sua essência – mormente após a queda ou “pecado original” – seja qual for o nome que se escolha dar ao inegável aspecto de desordem que todo ser humano traz em seu coração. Se o universo tem sua origem e seu destino em Deus, e se Deus em si mesmo é relacional (o mistério trinitário desafia, aqui, a inteligência humana para continuar a aprofundar-se), então o bem não é uma questão de mera combinação, costume, imposição ou submissão: ele tem uma densidade em si mesmo que dá sentido ao próprio universo e, em especial, ao caminhar humano e às suas relações – não há pacto, poder ou submissão que possa definir ou redefinir o próprio bem. Neste caminho, a contemplação sempre precede a ação, o que é exatamente o capítulo X da obra “Ética a Nicômaco” de Aristóteles – relida à luz da Revelação Trinitária em Jesus. Aquilo que parece, portanto, mero preciosismo teológico, ou especulação medieval ultrapassada, ganha uma dimensão de urgência e importância que não pode deixar de nos interpelar profundamente: tudo é importante, toda especulação jurídica, política e religiosa, diante da dupla realidade do livre arbítrio e da queda. Mas, se há um bem, então a obra mais urgente é saber se toda o nosso direito, nossa politica, nossa militância e nossa adoração estão nos levando para mais perto do bem, ainda que lenta e dolorosamente, ou estão apenas promovendo “valores” que nos prometem uma falsa paz, uma falsa convivência, uma acomodação que não representa verdadeira caminhada, mas estagnação. Se o bem é processual, interromper o processo ou incliná-lo para um lado que não é o bem é exatamente fazer o mal.
Assumindo que, depois de tantos debates, já deveríamos ver com claridade ao menos o fato de que as relações não são meros construtos, mas dons incompletos no processo exitus-reditus, São Tomás nos convida agora a debater a primeira e mais essencial de todas as relações reais: a relação entre o ser e o bem. É por isto que, nesta questão cinco, ele interrompe a sequência do seu caminhar (que envolvia, até agora, o estudo dos próprios atributos de Deus) para propor um debate sobre o bem em si mesmo. A bondade de Deus será discutida diretamente na próxima questão, a questão seis. Não tenho dúvida de que chegamos, aqui, a um dos pontos mais importantes da Suma, pelo menos no que diz respeito ao nosso século XXI. Nunca devemos ler a Suma com o saudosismo de uma época de ouro que nunca aconteceu; qualquer um que conheça a história do próprio São Tomás sabe o quão distante o seu tempo esteve de compreender as coisas que ele propunha. Mas parece essencial, num tempo de encruzilhadas como o nosso, que nos deixemos de novo interpelar por São Tomás, porque ele pode nos facilitar uma melhor compreensão do nosso próprio tempo em suas dificuldades, e talvez nos facilitar encontrar uma saída e um retorno- auxiliar-nos com o nosso próprio exitus e reditus!
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