Estabelecida então a perfeição de Deus, como vimos no texto anterior, é preciso pesquisar todas as suas implicações. Se Deus, como princípio causal primeiro, é perfeito em si mesmo, em que medida ele tem em si as perfeições de todos os seres? Assim, mais uma vez São Tomás nos inicia no debate com a hipótese negativa: parece que Deus não tem em si a perfeição de todos os seres.
Qual a importância deste artigo? Trata-se de saber o que significa, exatamente, a perfeição em Deus, e relacioná-la com a perfeição de todos os entes. É preciso lembrar, com base na metafísica aristotélico-tomista, que todos os seres criados têm em si potências (ou potencialidades), ou seja, a capacidade de desenvolver determinadas perfeições, e atos, ou seja, perfeições já desenvolvidas. Um filhote de pássaro, por exemplo, tem a potencialidade de voar, mas ainda não voa. Um filhote de cavalo, digamos, também não voa, mas não tem potencialidade para voar, por isto não voará jamais. Por isto, voar é uma perfeição própria dos pássaros, mas não é uma perfeição própria dos cavalos. Além disso, os pássaros adultos, já capazes de voar, são mais perfeitos que os filhotes – aquilo que nos filhotes é só uma promessa, uma potencialidade, nos adultos já é um ato, uma perfeição.
O primeiro argumento parte da simplicidade de Deus. Se Deus é simples, ele não pode conter em si as perfeições de todos os seres, porque estas são muitas e diversas. Por exemplo, nos cavalos a cavalgada é uma perfeição, mas o voo não é, porque cavalos não têm potência para voar. Nos pássaros, a cavalgada não é nem será jamais uma perfeição, porque eles não têm potência para cavalgar. Como conciliar, então, a simplicidade de Deus com a pluralidade de perfeições que todas as criaturas apresentam?
O segundo argumento tem a ver com as perfeições contrárias. Assim, por exemplo, os peixes apenas podem respirar na água, e esta é uma perfeição que eles têm. Mas as aves, ao contrário, têm o céu como natural, e respiram o ar. Afogam-se na água. Como conceber que as perfeições contrárias possam estar em Deus ao mesmo tempo?
O terceiro argumento tem a ver com a noção de que Deus é a plenitude do ser. O raciocínio é o seguinte: um ser que é existente e vivo é mais perfeito do que o que simplesmente existe, e o ser vivo e inteligente, mais perfeito do que o ser simplesmente vivo. Isto porque viver é mais perfeito do que existir, e compreender é mais perfeito do que viver. Ora, nós vimos, nas questões anteriores, que Deus é a plena existência, mas não que é a plena vida nem a plena compreensão. Assim, de acordo com este argumento, Deus não encerra em si as perfeições da vida nem do entendimento, nem qualquer perfeição que ultrapasse a mera existência.
Como argumento sed contra, São Tomás cita [pseudo] Dionísio, que afirma: Deus encerra em si, de modo pleno, todas as perfeições que podem existir.
Na sua resposta, São Tomás nos dá duas razões pelas quais Deus encerra em si todas as perfeições das coisas criadas, sendo universalmente perfeito (São Tomás cita, aqui, um autor muçulmano, Averróis, que ele chama simplesmente de “o Comentador”, porque é autor dos comentários à obra de Aristóteles, a quem São Tomás chama simplesmente de “o Filósofo” – Averróis diz que a Deus não falta nenhuma nobreza).
Descrevendo a primeira das duas razões, São Tomás faz uso de um daqueles exemplos que eram próprios da ciência medieval, e que têm hoje um sabor de coisa velha e sem valor. Mas o fato de que o exemplo científico que São Tomás usa é ultrapassado não retira toda a validez filosófica e teológica do argumento, porque ele seria válido mesmo com outro exemplo.
A primeira razão parte da segunda via, ou seja, toma Deus como causa eficiente primeira. Há dois tipos de causalidade eficiente, explica São Tomás. A causalidade eficiente unívoca, quando o causado é da mesma espécie que o causador. É o caso da reprodução, em que um ser humano engendra outro ser humano. E há a causalidade eficiente equívoca, em que a coisa causada é heterogênea com relação à sua causa, como, por exemplo, um edifício com relação ao seu arquiteto. É certo que, na época de São Tomás, havia uma noção de que o sol era causa eficiente de coisas aqui na Terra de uma maneira que nos parece hoje incompreensível. Mas o raciocínio funciona, mesmo que o exemplo seja substituído por outro mais consentâneo com a compreensão atual.
Tanto na causa eficiente unívoca (um ser humano engendrando outro) como na causa eficiente equívoca (um arquiteto produzindo uma casa), é necessário que a coisa que é causada esteja totalmente contida na coisa causadora; : um cão não pode engendrar um gato, mas apenas outro cão. De certa forma, um casal reprodutor contém em si o poder de engendrar outro animal da mesma espécie. É por isto que se diz que o ser gerado está primeiro no poder (virtus) do gerador. Assim, os escolásticos diziam que o ser gerado, antes de existir como ente, existe virtualmente (de virtus, “poder” em latim) no causador. Existir virtualmente significa, portanto, que o poder ser gerado existe no gerador. Preexiste inteiramente, de modo homogêneo, no caso da geração unívoca, e preexiste de modo ainda mais perfeito na geração equívoca: não há dúvida de que a casa produzida pelo arquiteto existe virtualmente na mente do arquiteto antes de existir no mundo real, mas esta casa não “esgota”, não representa todo o poder criativo do arquiteto. No caso da geração equívoca, o gerador possui em si uma perfeição muito superior à de cada coisa gerada. Ou, usando a linguagem de São Tomás, na causalidade eficiente equívoca, a perfeição da coisa gerada existe no gerador de modo ainda mais eminente.
Isto se dá com a causa eficiente: ela contém em si pelo menos tanta perfeição quanto contém a coisa causada, ou ainda mais (no caso da causalidade eficiente equívoca). No caso da causa material, no entanto, a coisa existe virtualmente nela de modo mais imperfeito, e não mais perfeito. Pensemos num grande bloco de mármore entregue a Michelângelo; o mármore é causa material da futura estátua, e Michelângelo é a causa eficiente. A estátua existe na mente de Michelângelo (virtualmente) de uma forma pelo menos tão perfeita quanto existirá depois no mármore. Mas o bloco de mármore, antes de ser esculpido, não tem ainda as perfeições que a estátua terá depois. Michelângelo costumava dizer que, de algum modo, a estátua já estava naquele bloco de mármore, e ao escultor cabia apenas retirar dele as aparas e as sobras de mármore que impediam a estátua de manifestar-se; mas o caso é que, enquanto o escultor (causa eficiente) não fizer o bloco de mármore (causa material) perder todos os excessos e imperfeições, a própria estátua não existirá.
Deus é causa eficiente primeira de todas as coisas criadas. Assim, deve conter em si todas as perfeições de todas as coisas.
E como o que é criado não é divino, Deus é, com relação ao criado, claramente uma causa eficiente equívoca, e portanto deve conter todas as perfeições criadas de um modo mais completo, mais eminente ainda, do que elas se apresentam para nós. Inclusive os contrários: Do mesmo modo que um arquiteto pode conter em si, sem contradição, de modo virtual, as casas pretas e as casas brancas, Deus pode conter em si todas as perfeições contrárias existentes na natureza criada. Esta é exatamente a resposta que São Tomás dará aos dois primeiros argumentos da objeção: aquele que nega que Deus, sendo simples, possa conter em si uma multiplicidade de perfeições diversas (objeção 1), e aquele que nega que Deus possa conter todas as perfeições, porque há perfeições que são contrárias entre si (objeção 2).
esta é uma discussão interessantíssima, e que tem origem no neoplatonismo: como se pode explicar que do Uno (que é Deus) surja o múltiplo (que é o criado)? São Tomás põe em Deus o conjunto de todas as perfeições, e o faz mais eminente do que todas elas. São Tomás nos apresenta a Deus como fundamento perfeitíssimo de toda perfeição, e portanto razão suficiente para alimentar a virtude da esperança humana. (e olhe que nem chegamos ainda na virtude infusa da esperança, que, pela graça, leva a esperança humana a altitudes que o ser humano não ousa chegar sozinho). Contemplar a Deus pelas mãos de São Tomás é, portanto, afastar-se de qualquer tentação de depressão!
Mas há ainda o segundo argumento, que é o argumento da participação. Imaginemos que eu pego um pequeno graveto e o acendo numa grande fogueira. O fogo da fogueira é origem do fogo do pequeno graveto em minha mão; logo, eu posso dizer que o fogo do graveto é uma participação no fogo da fogueira. Claramente, o fogo da fogueira, que é origem do fogo do graveto, tem um poder calorífico muito maior do que o fogo do graveto. Agora imaginemos que houvesse um ser que fosse o próprio fogo original, do qual todo fogo que existe fosse apenas uma participação. Ele produziria algo que poderíamos descrever como “o calor perfeito”, insuperável, total, porque qualquer outro calor seria apenas uma participação limitada no poder deste fogo primordial..
Assim, como São Tomás nos explica, Deus é o “ser absoluto”, e portanto não há nenhum ser que não seja uma participação limitada nele. Assim, é preciso que ele seja o ser perfeito, absoluto e total; e se qualquer perfeição, para ser perfeita, tem que existir, toda perfeição é uma participação na existência absoluta de Deus, e portanto preexiste nele de modo ainda mais eminente. Deus “encerra em si a totalidade do ser, pura, simples e incondicionadamente”, como diz o [pseudo] Dionísio citado aqui por São Tomás. Ele é, portanto, ao modo de origem, o ser de todas as coisas que existem.
Respondendo ao argumento da terceira objeção, que é aquela que diz que o fato de ser a existência absoluta não implica que Deus encerra em si nem a vida, nem a sapiência, que são perfeições de ordem mais elevada que a própria existência, São Tomás lembra que, para que alguma coisa viva e conheça, ela deve primeiro existir. Logo, a vida e a sapiência nada mais são do que perfeições do próprio ser; e, embora haja seres tão simples que não são vivos nem sapientes (e por isso não se pode dizer que o ens commune inclua em si a vida e a sapiência, ou seja, a mera participação no ser não implica necessariamente a participação na vida ou na sapiência), o ser de deus não é o “mero ser”, mas a origem de todo ser, do qual a vida e a sapiência, que são modos de ser, devem participar para existir. Ora, para ser origem da participação na vida e na sapiência, é preciso que Deus as contenha em si como perfeição mais eminente do que aquela das coisas participadas, como vimos acima.
Eis, portanto, Deus como origem de toda perfeição. E eis o ser humano como participante de uma perfeição no existir, no viver e no conhecer que não são seus por direito, mas são dons participados na perfeição originária de Deus. Eis uma reflexão que o homem contemporâneo, tão orgulhoso e arrogante com a ilusão de ser o centro de tudo, deveria fazer todo dia. O centro está muito bem guardado. Está em Deus!
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