Às vezes, quando estou estudando a Suma Teológica, vem em mim um receio de que eu esteja muito preocupado com a racionalização da fé, com um deus filosófico que tem muito pouco a ver com aquele Deus que me ama, me criou e é a razão do meu existir e fim do meu caminhar. Mas este receio dura pouco – a contemplação profunda que a Suma proporciona compensa a aridez e a abstração a que às vezes ela nos leva.

Este é o caso deste artigo sobre a simplicidade de Deus. É preciso lembrar sempre, quando estamos lendo a Suma, que não estamos a ler um compêndio (no sentido acadêmico do termo), ou um amontoado de ideias interessantes, ou mesmo uma série de questões filosóficas aglutinadas, nem sequer uma espécie de manual teológico para dominar a ciência das coisas de Deus. Alguém já disse que ler a Suma é como entrar numa grande Catedral antiga: podemos e devemos parar e apreciar a grandeza da obra, podemos até nos deter num detalhe, numa miniatura interessantíssima, mas nunca compreenderemos direito o que estamos vendo se perdermos de vista, por um só instante, quem somos, onde estamos, com quem estamos e o que viemos fazer aqui. Eis porque o grande prólogo da Suma e os prólogos e sínteses em cada arte são tão importantes: eles são nossos guias. E não são guias turísticos, apresentando externalidades que contemplamos às carreiras numa viagem destinada a entreter e distrair sem integrar o turista com a cultura local. São verdadeiros guias espirituais, que se destinam a aclimatar os filhos exilados recém-chegados aos maravilhosos costumes da família que mora na casa. O turista é e permanecerá sempre um estranho. Um filho, mesmo quando foi criado em outras paragens, destina-se a conhecer e a viver na casa da família.

Todas as vezes que debatemos este tema da simplicidade de Deus, há alguém que faz a antiga piada: “Deus é simples, nós é que o complicamos!”. Esta piada é engraçada porque é verdadeira, e é tão mais verdadeira quanto ultrapassa o mero jogo entre os sentidos da palavra “simples”. Ela revela aquilo que é uma estrutura em nós: nós somos criaturas, destinadas a viver entre criaturas, dotadas de uma inteligência que foi calibrada para conhecer e lidar com criaturas; se vivíamos originalmente no amor, isto se dava por uma doação do próprio amor, que delicadamente vivia entre nós e, com sua infinita bondade, dava-se a nós numa gratuidade que infelizmente nós não sabíamos valorizar então, e sabemos muito menos hoje. Quando São Tomás nos conduz por esta catedral que ele inventou (uso a palavra “inventar”, aqui, no seu sentido antigo de “descobrir”), leva-nos a meditar sobre o tamanho da generosidade de Deus aos nos criar e conviver conosco naquele paraíso original, numa aliança tão desproporcional, em que ele dava tudo e nós tudo recebíamos. Um dia, por escolha nossa, nós renunciamos à graça original que nos permitia viver espontaneamente o amor de Deus. Escolhemos a desobediência, quisemos reclamar por direito aquilo que já era nosso por graça, e nos colocamos como adversários daquele de quem reclamamos que seja obrigado a nos amar. E, em seguida, tendo renunciado à graça que nos fazia vê-lo, zombamos dele e o desafiamos a se manifestar sob nosso comando, para obedecer aos nossos caprichos. Somos culpados de cegueira deliberada e depois culpamos Deus porque já não conseguimos vê-lo. De fato, Deus continua simples. Mas nós escolhemos a complicação. Agora somos doentes que se comprazem na doença, têm raiva do médico e, se recebem de graça a medicação e melhoram um bocadinho, logo se enchem de orgulho como se a cura fosse um direito ou uma conquista pessoal.

Não é à toa que na questão 2, artigo 1, o espanto de São Tomás seja o de questionar exatamente a razão pela qual não conseguimos ver Deus, apesar de, em tese, podermos chegar a discernir que ele é a própria luz, a plenitude da existência. Por que somos capazes de duvidar de Deus? Esta é a única pergunta realmente profunda que um agnóstico poderia fazer a um crente. Se Deus fosse o próprio ser, a existência plena e incondicionada, a permanência no meio da contingência, a perfeição absoluta e o fim de todas as coisas, então seria inconcebível que houvesse algo como o ateísmo ou mesmo o agnosticismo: não é concebível que o motor imóvel, a causa incausada, a permanência estabilizadora, a perfeição aperfeiçoadora ou o fim de todas as coisas pudesse sequer ser objeto de questionamento sério quanto à sua existência ou cognoscibilidade. Se ele pode ser ignorado, então é porque ele não tem estas características, e se ele não tem estas características, então não há nenhum ser que possa ser chamado de Deus. Há apenas, dizem os agnósticos e os ateus, as forças cegas, o acaso e a nossa inteligência tentando colocar algum sentido nas coisas.

Há algumas respostas possíveis a este questionamento. A primeira, que eu chamaria de “posição teísta forte”, é gritar que Deus é absolutamente evidente, e imputar má-fé a quem não o enxerga. Esta é a resposta da intolerância religiosa, do fanatismo, que conduz às guerras em nome de Deus e à postura de eliminar, massacrar, destruir os negadores da evidência absoluta de Deus. Este caminho está sendo muito mais trilhado agora, na contemporaneidade, do que foi em qualquer outro tempo, mesmo no chamado “mundo antigo” ou na tão afamada “idade média”. Hoje, cada um de nós parece ter adotado um deus que para si mesmo é evidente como a luz do sol ao meio dia, e o outro, quando não enxerga o nosso deus, é um idiota (na melhor hipótese) ou um maldito infiel a ser morto (na pior hipótese). Há religiões inteiras, ideologias, instituições (mesmo algumas que se dizem laicas) construídas com base na ideia de que Deus é absolutamente evidente, e não vê-lo é inescusável. Este não é o caminho de São Tomás.

A segunda, que eu chamaria de “posição ateísta forte”, é proclamar que Deus não existe mesmo, já que ninguém consegue vê-lo, e que quem anda por aí usando o nome de Deus para proclamar a idiotice (ou a infidelidade) do outro é apenas um colonizador arrogante e desprezível. Mas, se pensarmos bem, esta posição pode ser reduzida à primeira, acima: se eu grito que para mim é evidente que Deus não existe, eu estou dizendo que eu tenho evidência suficiente de que Deus é um infinito nada. Ora, no fundo eu estou também proclamando uma divindade evidente, ainda que seja a evidência de um nada infinito. Também estou proclamando a má-fé, ou a idiotice, ou a infidelidade de quem se nega a enxergar a evidência do meu próprio Nada infinito e me arrogando no direito de combatê-lo como indesejável. Eu não sou essencialmente diferente dos que adotaram a primeira posição acima, portanto. Apenas troquei os sinais do infinito tudo que é evidente pelo infinito nada que é evidente. Aqui tampouco há espaço para a dúvida, e há, portanto, um potencial (ou real) fanatismo ateu. Esta tampouco é a posição de São Tomás.

A terceira, que chamamos de “posição agnóstica, ou ateísta fraca”, é a de dizer que, numa questão tão complicada, ninguém nunca vai poder proclamar nem a primeira, nem a segunda posição acima. Assim, o que fazemos de melhor é nos conformarmos de que esta é uma questão insolúvel e, portanto, desimportante. Para não cair no fanatismo, é melhor promover o relativismo nas questões que dizem respeito a Deus – que parecem insolúveis, porque conceitualmente acima (ou abaixo) das nossas forças, e, em nome do combate ao fanatismo dos defensores das posições fortes, banirmos estas perguntas para o reino das questões internas, privadas, não conversáveis. Ao reconhecermos que afirmar Deus com força e negá-lo com força levam a posições igualmente intolerantes, tampouco queremos negar a Deus, apenas reduzi-lo a uma questão insolúvel e deixar cada um, no seu particular, com a busca silenciosa da própria resposta que melhor o satisfizer. Esta posição embute a contradição própria da covardia, do comodismo, mas tem um charme irresistível, hoje, porque soa avançada, moderna, tolerante e razoável. Mas não é. Não se resolve o problema da falsa resposta negando sequer a possibilidade de fazer a pergunta. Mais uma vez, estamos longe da posição de São Tomás, e, se podemos dizer, tão longe quanto se pode chegar, no particular.

Há, enfim, a posição que podemos chamar de “teísmo fraco”, que é a posição de São Tomás. Aqui, sabemos dos riscos que as respostas erradas podem nos trazer, mas temos a coragem de fazer a pergunta mesmo assim. Se Deus realmente tiver todos aqueles atributos ( motor imóvel, a causa incausada, a permanência estabilizadora, a perfeição aperfeiçoadora ou o fim de todas as coisas) a que nossa inteligência pode chegar, ele pode, ainda assim, não nos ser evidente, não por falta de luz própria (o que seria contraditório com a própria concepção de tais atributos), mas por excesso de luminosidade?

Neste caso, o fato de que a pergunta pela sua existência continua sendo legítima (e portanto os ateus e agnósticos podem perfeitamente estar de boa fé) não é, por si mesmo, uma prova contra Deus, porque há outra explicação mais simples para a possibilidade desta pergunta: não a falta, mas o excesso de luz torna Deus invisível para nós. Fazendo uma má analogia, Deus não seria infravermelho, mas ultravioleta. Mas por outro lado, a busca por Deus, aqui, tampouco pode constituir uma ameaça: se Deus é a presença absoluta, ele se dá como uma presença sutil, quase imperceptível, um convite sussurrado para uma descoberta espetacular. O Deus de Tomás, cujo excesso de luz torna oculto, pode ser buscado, pode ser debatido, mas jamais levará ao fanatismo ou à intolerância, porque, a um só tempo, ele permite presumir a boa-fé tanto de de crentes, quanto de agnósticos e de ateus, mas permanece sempre como uma promessa de amor a ser pacientemente buscada, descoberta e desfrutada – e, principalmente, partilhada.

Não se pode ver a Deus, porque sua luz está acima da nossa capacidade de percepção. Mas isto não nos desespera. Temos a luz da razão, e nosso candeeiro fraco pode nos valer! Podemos usar a inteligência para investigar humildemente, e deduzir, como um “Sherlock Holmes” de Deus, que há um ser capaz de reunir os atributos necessários para que o mundo faça sentido em si mesmo, e há razões para ter esperanças de que esse mesmo ser possa, se quiser, nos convidar para a sua intimidade. Esta é a essência da simplicidade de Deus que São Tomás vem buscando pesquisar, até agora, como um paciente detetive, pela via da remoção. Sua atitude assemelha-se àquela da amada descrita no Livro dos Cânticos de Salomão (Ct 3, 1-2):

Em meu leito, pela noite,

Procurei o amado do meu coração.

Procurei-o e não o encontrei!

Levantar-me-ei

Rondarei pela cidade,

Pelas ruas e pelas praças

Procurando o amado da minha alma…

Procurei-o e não o encontrei…

Agora, nesta altura, neste artigo, São Tomás tem a coragem de fazer uma pergunta mais direta sobre o seu amado Deus, cuja existência ele já tem boas razões para intuir, e cujo buscar só pode se explicar pelo amor que o atrai. (Não são estas exatamente as palavras que São Tomás usa, mas eu ouso traduzi-las como se ele fosse um velho amigo de confiança, com quem se pode tomar certas liberdades – porque ele de fato é). São Tomás, agora, nos diz algo mais ou menos assim: “de fato, esta busca tem sido bastante complicada. Não é mais fácil admitir que Deus não é simples”?

Veremos, no próximo texto, o que é que impede São Tomás de adotar a saída fácil, e capitular de sua busca em nome de um fanatismo qualquer, crente ou ateu, que, ao não dar conta de explicar todos os termos dessa equação maravilhosa, queira simplesmente eliminar um dos termos à força. E que nos ajudará a tampouco capitular da nossa. Prossigamos nesta Catedral maravilhosa, sob a guia do Espirito Santo, pelas mãos de São Tomás. Com a graça de Deus!