Parece sempre muito difícil para nós, seres humanos, não imaginar Deus. E imaginar Deus implica atribuir-lhe atributos que o tornam compreensível para nós, mas que são incompatíveis com o Deus verdadeiro, aquele mesmo de quem São Tomás, explicando as cinco vias, disse: “e a isto todos chamam Deus”.
Em que sentido, pois, podemos atribuir algo a Deus sem alterar a sua simplicidade? Será que este modo de ver as coisas, típica da filosofia escolástica, como “substância e acidentes”, é aplicável a Deus? De que modo isto pode se compatibilizar com a simplicidade divina, que é exatamente o que São Tomás nos está tentando fazer entender, pelo método das “remoções”?
Na verdade, fiel ao seu postulado que declara que não se pode saber o que Deus é, mas apenas o que ele não é, São Tomás propõe cada um dos aspectos que revelam a composição das coisas que conhecemos, e tenta discutir se esta mesma composição é aplicável a Deus. Neste artigo, ele testará a composição das coisas como “substância e acidentes”, aplicando-a a Deus. E, demonstrada a inaplicabilidade a Deus destas noções, mais uma vez removeremos de Deus a composição e caminharemos, por meio da via das “remoções” para compreender melhor a simplicidade divina.
Antes, é preciso esclarecer que, na metafísica aristotélico-tomista, não existem coisas que sejam “substâncias nuas”, sem acidentes. Toda substância, para existir realmente, deve ter seus acidentes, que a tornam cognoscível e relacional. Neste sentido, os acidentes das coisas não são, em si mesmos “acidentais”, mas são exatamente o que faz de um ente o que ele é. Não é acidental, portanto, que uma coisa tenha acidentes; mas é acidental que tenha esta ou aquela característica como acidente. Exemplifico: não há coisa material sem peso (quantidade), mas o peso das coisas pode variar conforme a coisa.
No artigo anterior, já tínhamos visto que a noção de “substância”, como se aplica às coisas, não pode, a rigor, aplicar-se a Deus. Deus estaria além das substâncias; cabe perguntar, agora, se na sua condição “metassubstancial” ele tem alguma coisa que se possa chamar de acidente, ou ao menos de “meta-acidental”.
Neste artigo, portanto, a hipótese inicial é: “parece que em Deus há acidentes”. E o primeiro argumento é que nada que é acidente em uma coisa pode ser substância em outra coisa. Por exemplo, o calor é acidente em muitos corpos, logo não pode ser a substância do fogo. O fogo queima, mas sua substância não é o próprio calor, senão a própria coisa na qual está acontecendo a reação química de combustão.
Estabelecida a regra de que algo que é acidente em uma coisa não pode ser substância em outra, Ora, São Tomás lembra então que a sabedoria, a virtude e a paciência são atribuídas a Deus pelas escrituras. Mas estas características são acidentes em nós, seres humanos. Logo, devem também ser características acidentais de Deus. Logo, Deus tem acidentes.
O segundo argumento lembra que Deus é o primeiro princípio, a primeira causa, como vimos na segunda via – e no texto anterior. Mas cada gênero de acidentes tem um primeiro princípio que lhe mensura e ordena, como foi visto no artigo anterior. É de se esperar que, sendo Deus a causa primeira de tudo, então estes primeiros princípios dos gêneros dos acidentes estejam nele – ou então teremos que admitir que eles estão em outro ser, que serve de princípio a cada gênero de acidentes. Mas isto implicaria admitir que existe outro ser capaz de ser primeiro, além de Deus, o que seria absurdo. Portanto, conclui este argumento, Deus tem em si o princípio de cada gênero de acidentes, e, portanto, há acidentes em Deus.
Como argumento contrário, São Tomás nos traz o filósofo cristão Boécio, que diz: “uma forma simples não pode ser sujeito de acidentes”. Portanto, se Deus é simples, não há acidentes nele. Como ficamos?
São Tomás dá a resposta em três itens. Em primeiro lugar, em deus não pode haver acidentes, porque o sujeito está para o acidente como a potencialidade está para o ato que a aperfeiçoa. Vamos dar um exemplo: uma parede recém-construída tem a potencialidade para ser pintada de uma cor ou de outra, mas só terá a perfeição de uma bela cor, ou seja, será o sujeito de uma bela tonalidade que acidentalmente pode ser o amarelo, o vermelho ou o branco, depois que for pintada.
Ora, como já foi visto repetidas vezes nos textos anteriores, Deus é a perfeição plena (quarta via) e, portanto, ele não tem potencialidades. Assim, ele não pode ser sujeito de acidentes.
A segunda resposta de São Tomás nos lembra que Deus é o seu próprio ser. Assim, ele não está susceptível de receber alguma coisa em acréscimo, como se houvesse algo fora do ser de Deus que acidentalmente viesse a se incorporar nele. Seria como, falando metaforicamente, querer acrescentar calor ao fogo absoluto.
A terceira resposta tem a ver com as vias primeira e segunda. Sendo motor imóvel e causa incausada, não pode haver em Deus nada que seja anterior a si mesmo, nem lógica nem cronologicamente, a ele próprio. Mas os acidentes são sempre lógica ou cronologicamente posteriores à sua substância: o muro é vermelho porque é um muro, mas eu jamais posso dizer que o vermelho é muro porque é um vermelho – isto não faz sentido. A ordem dos fatores, aqui, altera o produto. Portanto, nada em Deus pode ser preexistente (como seria uma substância com relação ao acidente) nem causado (como o riso é causado pela alegria de um ser humano substancial); se houvesse algo preexistente ou causado em deus, ele não seria nem primeira causa, nem imóvel – e já não seria Deus. Logo, não pode haver acidentes em Deus.
Respondendo o primeiro argumento contrário (aquele que afirma que as escrituras atribuem a Deus diversas qualidades que são acidentais em nós, e por isto devem ser acidentais também nele) São Tomás nos ensina que estas qualidades não são atribuídas a Deus e a nós em sentido unívoco; quando atribuímos a Deus alguma qualidade que reconhecemos em nós, estamos falando de um modo que não é unívoco, mas também não é um simples disparate, um equívoco. Estamos falando analogicamente. O Catecismo da Igreja Católica, § 43, nos ensina: “Ao falar assim de Deus, a nossa linguagem exprime-se, evidentemente, de modo humano. Mas atinge realmente o próprio Deus, sem todavia poder exprimi-lo na sua infinita simplicidade”. São Tomás aprofundará mais o problema da analogia na questão 13 desta primeira parte. Nunca é demais comentar que uma das maiores perdas da contemporaneidade é o pensamento analógico – por não sabermos mais pensar analogicamente, somos levados a aporias imensas em matéria de fé, hoje em dia. Esta questão é tão essencial que o teólogo protestante Karl Barth chegou a afirmar, no meio do século XX, num debate com o padre jesuíta Erich Przwara, que ou a analogia é a resposta para toda a teologia, ou é a própria invenção do anticristo – e era esta a razão central que o impedia de ser católico. Mas não tenhamos pressa: haverá mais sobre isto no futuro.
Quanto à segunda argumentação contrária, é aquela que diz que, se Deus é o primeiro princípio de tudo, ele deve necessariamente conter em si o primeiro no gênero de cada acidente – e seria necessário, portanto, admitir acidentes em Deus, se o definimos como princípio de todos os seres. São Tomás diz que isto é verdade apenas da relação entre as substâncias e seus acidentes: uma vez que os acidentes têm o seu ser na substância (que lhes é lógica ou cronologicamente anterior), então os princípios dos acidentes são encontrados nas respectivas substâncias – como o vermelho se sustenta na superfície do muro, no exemplo que demos anteriormente.
Mas Deus não é uma substância no mesmo sentido em que os entes criados são substâncias, como vimos no texto anterior. Assim, todas as coisas e todos os seus acidentes dependem de Deus como aquele que está além de todo o gênero – ele é o próprio ser. Isto ficou bem estabelecido, também, no artigo anterior, no qual São Tomás já explicou que Deus não pode estar contido num gênero.
Assim, São Tomás demonstrou que em Deus não há acidentes – e portanto, não há nele a composição entre substância e acidente. Mais uma vez, removemos uma possível composição em Deus, e restou-nos a incólume sua simplicidade.
E, mais ou menos como lembra o filósofo Peter Kreeft, numa piadinha meio sem graça, ao negar que em Deus existam acidentes, São Tomás nos comprova também que Deus não é uma rodovia brasileira.
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