Há artigos da Suma que se mostram ainda mais arredios à nossa maneira atual de pensar; este é um deles. De fato, nossa maneira de conceber a lógica, hoje em dia, está profundamente arraigada numa concepção nominalista, matematicista mesmo, do mundo. É difícil para nós perceber a relação real, concreta, entre a lógica e a metafísica, que era, no entanto, evidente para São Tomás; algumas vezes é muito difícil acompanhar o raciocínio de São Tomás em matéria de lógica simplesmente porque a palavra “lógica” tinha um significado muito diferente, para São Tomás, daquele que tem para nós hoje.
Quando pensamos em lógica, pensamos em alguma coisa altamente matematizada, desprovida de conteúdo material e capaz de ser operada por um computador, de modo muito mais eficiente do que nós operamos. A lógica contemporânea é uma ciência da pura forma de pensar, baseada num esquema matemático de função-argumento vazio de qualquer referência ao real.
Para São Tomás, a lógica não é uma disciplina do pensar, mas do conhecer e do refletir. Assim, as chamadas intenções lógicas não são simples processos de pensamento nos quais nós vamos colocando rótulos nas coisas, mas uma verdadeira caminhada da inteligência humana que é interpelada pelas coisas. O início da lógica é a interpelação que as coisas fazem à nossa mente – é assim (se me permitem colocar em palavras muito simplórias) que São Tomás inicia seu livrinho “Do Ente e da Essência”.
Desta posição própria da filosofia tomista, duas conclusões podem ser tiradas: 1. A lógica, tal como São Tomás a descreve, é o caminho próprio da mente humana para conhecer. Deus não raciocina. Tampouco haveria necessidade de raciocinar se fôssemos inteligências imateriais. Anjos não raciocinam. Mas exatamente porque somos seres essencialmente materiais, a nossa inteligência conhece em primeiro lugar as coisas materiais, e o faz através dos sentidos. Uma inteligência sem sentidos, de um ser estritamente espiritual, seria capaz de captar diretamente as formas e intuí-las sem abstrair. Mas nossa inteligência, sendo a inteligência de seres essencialmente materiais como somos, é proporcionada às coisas que se dão aos nossos sentidos. E só as coisas materiais se dão diretamente aos nossos sentidos. Precisamos, então, de uma maneira de caminhar desde os dados sensoriais que recebemos das coisas materiais até as abstrações que são envolvidas no ato de conhecer. 2. A lógica envolve uma relação entre a mente humana e o logos que está inserido nas coisas: as coisas fazem um sentido em si mesmas, e por isto somos capazes de ler este sentido. Se não houvesse um logos, um sentido fundamental nas próprias coisas, então não haveria nada para conhecer. Por isto, não pode existir uma lógica pura, uma lógica estritamente formal, algo como uma “razão pura” despida de relação empírica, para São Tomás. O tomismo é o antípoda do Kantismo, neste particular.
Lembro-me, neste passo, de uma passagem célebre das “Confissões” de Santo Agostinho, um livro escrito muito antes do nominalismo lógico que domina nosso mundo hoje. No livro VIII, parágrafo 12, Santo Agostinho descreve como ele passou do “logos” neoplatônico, que descreve o sentido (logos) implícito nas coisas, ao “verbo” joanino, que narra como este mesmo sentido se fez carne e habitou entre nós. Vale dizer, para os antigos é muito claro que o mundo tem um sentido, um logos em si mesmo, que nós podemos conhecer raciocinando, e, portanto, o raciocínio lógico nunca é uma “razão pura” e apartada das coisas, que possa ser pensada em si mesma. E Santo Agostinho se maravilhou de que este mesmo sentido, que platônicos e neoplatônicos contemplavam na natureza de modo tão distante e impessoal, tenha se feito carne e habitado entre nós.
De modo muito grosso, e traduzindo para termos modernos, eu poderia dizer assim: hoje em dia, na forma pós-kantiana de filosofar, o ser humano acha que pensa, e com seu pensamento ele projeta no mundo as condições de o conhecer. Ali onde Kant parte do seu pensamento puro para chegar nas coisas reais, que para ele estão além da possibilidade de conhecimento humano, ou seja, não têm sentido em si mesmas (são apenas objetos nos quais nossa mente projeta as categorias que estão apenas no pensamento), São Tomás, interpelado pelas próprias coisas, conhece, e com sua reflexão sobre o conhecimento ele descobre nas coisas que o interpelam o logos de Deus, o sentido que existe independentemente de sua mente – e chega ao conhecimento de Deus como causa e doador desse logos. Onde São Tomás contempla Deus que nos dá uma natureza cheia de sentido, Kant se faz Deus e fornece sentido a uma natureza que nunca se dá! O pensamento pós-kantiano é irreconciliável com os quatro primeiros versículos do Evangelho de João. É um mundo sem logos, onde não há a possibilidade de contemplar, mas apenas de fazer, de criar. Um mundo no qual o logos está irremediavelmente oculto ao nosso conhecimento, e no qual a mente humana é a única fonte de sentido para as coisas. Kant pensa, mas não conhece. São Tomás conhece, reflete e contempla. Eu fico com São Tomás.
São Tomás descreve este processo de relação entre a nossa mente (ou, mais precisamente, o nosso espírito) e o mundo como uma relação intencional, cuja prioridade cabe às coisas, não a nós. E isto parece ser de senso comum: as coisas nos interpelam. Os antigos diziam que a filosofia se inicia com o espanto. Ora, se não é o espanto de se deparar com as coisas, que existem antes que eu possa pensar nelas, então sinceramente eu não sei o que eles queriam dizer com isto. Uma filosofia que se inicie com o pensamento, estudando suas condições e seus limites, não se relaciona com o espanto, mas com o cuidado preliminar de garantir que não haverá nenhuma possibilidade de espanto na vida humana. O universo de Descartes, ou de Kant, são universos em que o espírito humano elimina de antemão qualquer possibilidade de se espantar. Há apenas autocomplacência e arrogância existencial aí.
Neste caminho de conhecimento do logos (que os antigos chamavam de lógica), a inteligência humana conhece o sentido que lhe é externo e, refletindo, percebe em si mesma, pela reflexão, a presença deste mesmo sentido, mas de uma forma especial: no ser humano, este sentido torna-se capaz de reflexão, e, portanto, de uma relação muito especial consigo mesmo e com aquela fonte que o precede e transcende, porque o origina. Eu não me dou a minha inteligência, mas a descubro quando as coisas me interpelam e me espantam. E percebo uma caminhada que faço para conhecer – para colocar em mim as próprias coisas, pela abstração de suas formas. Na minha inteligência, portanto, não há meras representações, meros símbolos ou imagens das coisas, mas são as coisas mesmas que se dão a mim, pela abstração e pela reflexão. Aquelas coisas que estão no mundo existencialmente, são as suas formas que estão em minha inteligência intencionalmente. Vale dizer, quando dirijo a minha vontade para as coisas que interpelaram a minha inteligência, sou capaz de receber suas formas em mim de modo real, mas imaterial. É isto que São Tomás chama de formas intencionais. E estas formas intencionais são organizadas em mim pelas noções de gênero e espécie, com as quais meu intelecto é capaz de conhecer as relações que as coisas efetivamente têm entre si no mundo real. O estudo das noções intencionais, portanto, é exatamente a definição de lógica. Muito diferente, portanto, da noção que temos hoje. Um computador não pode conhecer, no sentido tomista da expressão. Então um computador, para São Tomás, jamais usará efetivamente a lógica.
Neste artigo, São Tomás vai falar, então, desta relação entre a nossa lógica e a realidade de Deus. Será que Deus pode se dar às categorias da nossa mente, como o gênero e a espécie? Deus é uma coisa entre as coisas, é um ser entre os seres, de modo que possamos inteligi-lo com o uso das noções intencionais que usamos para inteligir as coisas do mundo? É o que discutiremos no próximo artigo.
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