Mais uma vez, São Tomás começará com a hipótese contrária ao que ele quer demonstrar: “parece que em Deus não se identificam a essência e a existência”. Ele trará dois argumentos em favor desta hipótese.

No primeiro argumento, ele discute a diferença entre o ser de Deus e o ens commune, ou seja, aquele “ser” que se predica de todas as criaturas. Todas as criaturas são, e o ser, portanto, é um universal de existência para as criaturas. O que especifica o ser de cada criatura é a sua essência. Ora, este argumento diz o seguinte: se em Deus a essência se identificasse com a existência, não haveria diferença entre o ser comum de todas as criaturas e o ser de Deus. Assim, todas as criaturas existiriam, no fundo, com o ser de Deus, e todas as criaturas, no fundo, seriam Deus. Assim, deve haver diferença entre o ser de Deus e a sua existência, e é esta diferença que especifica o ser de Deus e impede que todas as coisas sejam divinas. O argumento, portanto, admite que o ser de Deus seja simplesmente igual ao ens commune, mas, como Deus não é igual às criaturas, procura a diferença nalgum aspecto da essência divina. Portanto, conclui que a essência de Deus não pode ser idêntica à sua existência, porque deve haver alguma coisa na essência de Deus que especifica o seu ser com relação ao ser das criaturas. E chega a citar uma passagem bíblica (do Livro da Sabedoria de Salomão, 14, 21) que condena a idolatria dos que enxergam divindade em seres de pedra e de pau. Assim, o argumento conclui que, para diferenciar Deus dos outros seres, a existência de Deus não é igual à sua essência. Neste argumento, portanto, o que está em jogo é a afirmação da univocidade entre o ser criatural (ens commune) como universal (como abstração), por um lado, e o ser de Deus, que se diferencia das criaturas não pelo seu modo de existir, mas pela divindade de sua essência.

No segundo argumento, o que está em jogo é uma afirmação com a qual já nos deparamos antes: de Deus, podemos saber que ele existe, mas não o que (ou quem) ele é. Logo, este argumento conclui que há diferença entre a existência de Deus, que é alcançável pela nossa razão, e sua essência, que nos é inalcançável pela simples razão. Se entre sua essência e sua existência há essa diversidade de graus de cognoscibilidade, logo elas não são idênticas entre si. Parece bem estabelecida, portanto, a hipótese inicial de que em Deus a essência e a existência não coincidem.

Como argumento contrário, São Tomás cita a autoridade de Hilário, que diz: “Em Deus, a existência não é uma qualidade acidental, mas uma verdade subsistente”. Ou seja, em Deus, a sua subsistência é igual à sua existência.

São Tomás responde dizendo que tudo o que há num ser que não é da sua essência deve ser causado, seja pelos elementos da sua própria essência, seja por algum princípio exterior. Por exemplo, o riso é um acidente próprio dos seres humanos, que é causado pela sua essência – é um acidente chamado de “acidente próprio”, porque é causado pela própria essência. Mas, mesmo que admitamos algo como um acidente próprio de algum ser (como é o riso no caso dos seres humanos) a existência não pode ser acidente próprio de nenhum ser! Com o exemplo do riso, isto fica claro: antes de rir, é preciso que aquele que ri seja existente e essencialmente humano. Ora, seria impossível que, antes de existir, a essência de um ser fosse causa de sua própria existência, porque, para ser causa de algo, ela precisaria existir primeiro. Logo, a essência de Deus não pode ser causa da sua existência, porque seria contraditório que Deus causasse a sua própria existência antes de existir…

Por outro lado, imaginar que a existência de Deus é diversa de sua essência e que não foi a essência de Deus que causou a sua existência seria admitir que a existência de Deus foi causada por alguma outra coisa que não é ele próprio. Mas, neste caso, seria preciso admitir que outra coisa causou Deus, e ele deixaria de ser causa primeira (o que, quando estudamos a segunda via, já descobrimos que ele necessariamente deve ser para ser Deus). O que quer que tivesse causado Deus, se por seu turno foi causado também, nos faria recair na regressão ao infinito. Além disso, se Deus foi causado, então ele tinha a potencialidade de vir a ser, o que não é compatível com a divindade, de acordo com a quarta via. Só podemos chamar de deus aquilo que é causa sem causa, nunca algum ser causado. E para que alguma coisa seja causa sem causa, é preciso que seja da sua essência existir. Logo, em Deus, essência e existência têm que se identificar!

Assim, São Tomás passa a responder aos argumentos iniciais. O primeiro argumento, aquele que admite que o ser de Deus é o mesmo ser de todas as coisas criadas (ens commune) diferenciado por uma essência divina, diferente da essência criada.

São Tomás demonstra a diferença entre o ser de Deus e o ens commune quanto ao que ele chama “ter alguma coisa adicionada a si”. O ens commune é um mero ente de razão, como nós explicamos no texto anterior. É uma abstração, e como abstração não pode conter em si nenhuma especificação. São Tomás compara isto, por exemplo, à definição do gênero “animal”. A definição do gênero “animal” é um ente de razão, não existe nenhum ser que possa ser definido como um mero “animal genérico” andando por aí. Assim, não se pode acrescentar na definição do gênero “animal” a especificação de ser ou não “racional”, porque há animais racionais e há animais não racionais. Se eu especifico a qualidade de ser “racional”, já não estou mais falando de “animal” como gênero, mas da espécie “animal racional” que são os seres humanos. Assim, a definição do gênero “animal” não aceita especificações exatamente porque é abstrata, e, como tal, existe apenas como ente de razão, ou seja, como conceito.

Mas o ser de Deus não é uma abstração. Não se pode confundir com o conceito de “ser em geral” que é o ens commune. O ser de Deus é concreto, existente, e portanto não precisa de nenhuma especificação ulterior para ganhar realidade e especificação. O ser de Deus não é um conceito, mas uma existência. Ou melhor, ele é o existir, em sentido próprio e absoluto, do qual todas as outras existências ganham seu sentido por participação. Portanto, enquanto o ens commune não pode ser especificado, porque é uma abstração destinada a nunca existir, senão como conceito, o ser de Deus não precisa de especificação, porque não é uma abstração, mas a própria existência absoluta. Mais uma vez, São Tomás corre dos riscos do idealismo que não sabe distinguir entre conceitos e realidades. Este é um tema muito difícil, e por isto é que foi necessário escrever o texto anterior, para possibilitar seu enfrentamento.

A segunda objeção é aquele argumento que diz que, uma vez que no nosso conhecimento há uma diferença entre a nossa possibilidade de saber que Deus existe e a nossa impossibilidade de saber o que ele é, daí decorreria que o fato da sua existência é diverso da sua essência. Esta é mais uma conclusão idealista que São Tomás refuta de modo muito tranquilo e lúcido; ele nos explica que, das deficiências do nosso modo de conhecer não se pode deduzir simplesmente alguma coisa sobre o próprio ser de Deus. Nossa inteligência é incapaz de alcançar o ser de Deus, aí incluídos a sua essência e a sua existência em si mesmas! Mas, como a nossa inteligência consegue se relacionar com os efeitos de Deus, ou seja, com o seu agir transitivo (criacional e providencial), nós podemos, a partir dos efeitos criados, remontar dedutivamente à causa última, que é Deus, e predicar dele a sua existência de modo certo, mas indireto. Assim, o fato de que a existência de Deus pode se tornar evidente para nós de modo indireto, mas não assim a sua essência, deve-se a um limite do nosso intelecto, não a uma distinção entre o ser e o existir de Deus.

Eita artigo difícil!