A essência de alguma coisa era chamada, na escolástica, de “quididade”, uma palavra que expressa a resposta à pergunta: “o que é isto”? Aliás, uma criança, diante de algo que ela não conhece, perguntaria: “o que é isto”. Mas um escolástico perguntaria “qual a quididade desta coisa”?
Para todas as coisas que uma criança pode encontrar no mundo, ela pode perguntar, então, “o que é isto”, e a resposta que o adulto lhe dará será sempre a essência daquilo que a criança quer conhecer. Por exemplo, se ele anda na rua com a criança e ela vê um grande cachorro preto, e pergunta para o pai: “o que é aquilo”? O pai não responderá “aquilo é um preto grande”, mas “aquilo é um cachorro”. A criança pode perguntar, então: e o que é um “cachorro”? E o pai dirá, talvez, que é um animal doméstico que produz latidos. À medida que for encontrando mais e mais cachorros, a criança vai apreendendo a essência do cão, e será capaz de reconhecer, nos cães com que se deparar para a vida afora, exemplares individuais daquela mesma essência. Ela já não precisará perguntar ao pai pela quididade do bicho, por mais diferentes que sejam entre si, quando ela reparar por si mesma que se trata de um animal doméstico que late. Apreendida a essência (quididade), a criança será capaz de reconhecer cada indivíduo que pertence àquela espécie. Cada cão tem a mesma quididade que todos os cães, mas está individualizado porque cada cão tem seus próprios ossos, sua própria carne, sua própria pele, seu próprio tamanho, cor, idade, enfim, todas as características materiais que fazem com que este cão seja Rex, Totó, Duque ou Fido. O meu cachorro não é a “caninidade”, mas é Rex, Totó ou Fido.
É claro que o pensamento nominalista, com todas as suas variantes modernas e contemporâneas, já não consegue enxergar o mundo assim, com coisas que representam individuações de essências cuja abstração representa o próprio conhecer. Não quero entrar nesta discussão filosófica aqui, porque não é nosso objetivo estudar filosofia, mas conversar com São Tomás. E para conversar com ele, precisamos entender a “língua filosófica” que ele está falando.
Esta é, portanto, para São Tomás, uma característica própria de todos os seres com que nos deparamos no universo material: eles representam instâncias individuais de uma mesma essência – a essência se apresenta na forma, e a individuação, na matéria. A forma, portanto, é universal, e a matéria (signata, quer dizer, não a ideia de matéria, mas esta carne, estes ossos, etc) é individual e individualizante. É possível haver muitos cães, porque a mesma essência canina dá forma à matéria de cada espécime de cão que encontramos no mundo. Cada cão, portanto, não esgota em si a “quididade canina”, vale dizer, cada cão não é a “caninidade” [ou quididade canina], mas é a “caninidade” que faz cada cão ser um cão e não, digamos, uma girafa. Este indivíduo canino específico, que é a forma essencial de cão individualizado por esta matéria aqui (estes ossos, esta carne, estes pelos, etc.) é chamado, na escolástica, de “suposto”.
Nos seres imateriais, não se pode imaginar, portanto, alguma maneira pela qual vários indivíduos possam ser de uma mesma espécie. Vamos exemplificar com os anjos – sem entrar, também, na discussão a respeito da existência efetiva desses seres. Mas imaginemos que existam estes seres pessoais imateriais. Ora, não haveria maneira para pleitear a existência de mais de um anjo com a mesma quididade – não há dois anjos da mesma espécie. Porque não haveria matéria para distingui-los entre si. Assim, nos anjos, a espécie se caracteriza por informar apenas um indivíduo. No Arcanjo Gabriel, por exemplo, não haveria distinção entre a “gabrielidade” [ou quididade do Arcanjo Gabriel] e a própria pessoa do Arcanjo Gabriel. O arcanjo Gabriel, sozinho, esgota a própria “gabrielidade”. Não conseguiríamos imaginar exatamente como um anjo, sem ter matéria, pode se individualizar.
Aliás, para nós, é impossível imaginar o próprio anjo, uma pessoa sem matéria. A imagem de algo ao mesmo tempo imaterial e individual está acima da nossa imaginação. Por isto é que representamos anjos como seres humanos com asinhas, mas esta imagem é apenas metafórica. Na verdade, os anjos poderiam ser mais adequadamente comparados com a figura legal da “pessoa jurídica” do que com alguma espécie de híbrido entre um homem e uma galinha.
Voltemos ao exemplo dos cães, que são materiais e que podem multiplicar-se em vários indivíduos da mesma espécie, diferenciados pela matéria signata. Nenhum cão pode esgotar a “caninidade”. É neste sentido que São Tomás diz, usando sua linguagem escolástica peculiar, que nos seres materiais, que são compostos de forma e matéria, o suposto não é igual à essência ou natureza. Mas nos seres imateriais, que são simplesmente formas (e não têm composição, portanto são simples), não há diferença entre o suposto e a essência. Ufa, falar “escolastiquês” não é fácil.
No artigo anterior, já vimos que Deus não tem composição de matéria e forma, mas ele é a forma. Aqui, trata-se de provar, pois, que, sendo simples forma, nele tampouco pode haver distinção entre a essência divina e o próprio Deus como suposto. Como de costume, São Tomás começa com a hipótese contrária: parece que há distinção entre Deus e sua essência”. E ele Traz logo dois argumentos: 1. Nada pode ter relação de propriedade consigo mesmo. Mas todo mundo diz que a essência divina, que é sua divindade [quididade divina] está em Deus. Logo, uma coisa é Deus, outra coisa é a divindade que ele possui. 2. Nas pessoas humanas, já vimos que o suposto (o indivíduo) não é igual à sua essência [ou natureza, ou quididade]. Assim, um ser humano não é igual à humanidade. Logo, Deus também não é idêntico à divindade.
Como argumento contrário, São Tomás lembra que, no Evangelho de João, Deus é apresentado não como alguém que está vivo, mas como a própria vida (Jo 14, 6). Ora, a vida está para o vivente como a divindade está para Deus (analogia de proporcionalidade). Assim, Deus é a própria divindade.
Como já vimos no começo do texto, em Deus não há composição de matéria e forma, como não há nos anjos. Logo, nele não há nenhum fator capaz de multiplicá-lo em vários deuses individuais. Deus esgota em si toda a divindade. Assim, quando dizemos que Deus é uno, estamos falando de indivisibilidade, neste sentido que tratamos aqui. Não em individuação, porque Deus, não sendo material (ver textos anteriores) não é um indivíduo!
São Tomás responde então os argumentos contrários, sempre nos lembrando que a limitação de nossa inteligência e de nossa linguagem leva-nos a falar de Deus de um modo que, embora sendo o único modo possível para nós, não é exato para tratar de deus. É que a nossa inteligência e a nossa linguagem são adequadas (ou proporcionadas, como diz São Tomás) para tratar de um mundo de coisas compostas, de coisas com forma e matéria, e por isto é imprecisa para falar de coisas simples – que não são evidentes para nós. É por isto que às vezes falamos de palavras concretas para significar a subsistência de Deus, porque, na nossa experiência, apenas as coisas concretas subsistem. Mas temos que lembrar sempre que a nossa linguagem pode falar de Deus apenas de modo analógico – e para nosso jeito humano de conhecer, as coisas materiais são analogantes e Deus é o analogado. Mas na realidade as coisas são exatamente o contrário: Deus é o analogante, e as coisas materiais são os analogados. Temos uma enorme tentação de construir Deus à nossa imagem e semelhança, mas somos nós que fomos feitos à imagem e semelhança de Deus.
Por isto tudo, erram os filósofos contemporâneos (como Nietzsche, por exemplo) que acusam as pessoas crentes de construir um deus antropomorfo. Como São Tomás nos mostra aqui, foi Deus quem construiu seres humanos teomorfos! Por isto, temos que ter cuidado quando quisermos partir das coisas criadas para falar de Deus: são as coisas criadas que têm semelhanças imperfeitas com Deus, e não o contrário. Por desconhecer esta precisão tomista é que Nietzsche lançou sua crítica equivocada.
Estamos aqui, pois, no interior da discussão eterna sobre a existência dos universais – que acompanha a filosofia desde Platão e Aristóteles até hoje. No próximo artigo, São Tomás aprofundará esta questão, ao discutir se há em Deus composição entre essência e existência. Mais uma vez, ficará evidente que os limites da linguagem humana devem ser objeto de muito cuidado, quando nos referimos a Deus.
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