O problema que São Tomás coloca neste artigo parece um tanto bizarra: Será que Deus é um corpo? Eu quero ressaltar, logo no início, que São Tomás não está perguntando se Deus tem um corpo – a rigor, este é o objeto do próximo artigo, no qual se discutirá se em Deus existe a composição de forma e matéria. Aqui, a pergunta é pelo próprio ser de Deus: se o ser de Deus é corporal.
Pode nos parecer, hoje, que esta é uma preocupação quase infantil. Quem, além talvez de povos muito isolados e primitivos, ou de crianças muito pequenas, poderia pleitear que Deus é um corpo de algum tipo?
Outra coisa nos vem à mente: o objetivo de São Tomás, neste artigo, não era determinar aquilo que Deus não é? Ele agora vem nos propor debater o que Deus é, ou seja, se ele é um corpo?
Bom, quanto à primeira pergunta, podemos estar certos de que São Tomás não é um antropólogo de povos exóticos, típico dos séculos XX e XXI, querendo estudar alguma etnia remota que adore algum deus corporal. Ele é um teólogo do século XIII tentando usar sua inteligência para encontrar sentido na sua relação com Deus.
Para a nossa mentalidade de hoje, que, depois de tantos anos de filosofia kantiana e de tanto subjetivismo filosófico, acostumou-se a raciocinar a partir do sujeito, e não do objeto (como faziam São Tomás e os melhores escolásticos), talvez a questão em debate neste artigo fizesse mais sentido se fosse proposta assim: Será que Deus é um dos tantos seres capazes de interpelar nossos sentidos com seus atributos? Deus pertence ao universo das coisas palpáveis, extensas e fisicamente determinadas? Ele é mais uma coisa no meio das tantas coisas corporais que se apresentam a nós todos os dias? A diferença entre Deus e os outros corpos seria apenas porque Deus está melhor escondido, portanto bastaria esquadrinhar o cosmos com mais cuidado e nós o encontraríamos por aí? É esta, afinal, a discussão que São Tomás propõe, aqui. E não diz respeito, portanto, a povos peculiares ou isolados, nem a mentes infantis, mas a dois tipos de mente humana:
1. Àqueles dentre nós que duvidam da existência de Deus porque esperam algum tipo de relacionamento sensível, mensurável fenomenologicamente, com ele. Os que negam a existência de deus sob o fundamento de que jamais foram capazes de mensurá-lo em algum tipo de laboratório científico. Ora, para que Deus fosse palpável e mensurável fenomenologicamente num laboratório, ele teria necessariamente que ser corporal.
2. Aqueles outros que professam um materialismo do tipo que explica todas as coisas a partir do mundo material, como se os seres corporais pudessem explicar todo o universo em sua estrutura mais íntima. Como se os seres corporais pudessem ter os atributos que, na exposição das cinco vias, São Tomás caracteriza como “aquilo a que todos chamam Deus”.
É com esta mentalidade que São Tomás quer debater agora.
Como de costume, São Tomás parte da hipótese contraposta ao que ele quer investigar e testa. Assim, ele começa este artigo propondo: parece que Deus é corpo. Ou seja, admitamos que Deus seja uma das coisas corporais existentes no cosmos. Quais argumentos teríamos em favor de uma hipótese destas?
São Tomás traz cinco argumentos escriturais, que são textos da Bíblia em que: 1. Deus é apresentado como um ser de três dimensões (Jó 11, 8-9); 2. Os seres humanos, que são corporais, são apresentados como “imagem e semelhança de Deus” (Gn 1, 26 e Hb 1, 3). Ora, se a figura humana é corporal, e nós somos imagem e semelhança de Deus, diz este argumento, então Deus deve ser corporal também; 3. Outras passagens das escrituras mencionam partes do corpo de Deus, como braços (Jó 4, 40), mãos (Sl 33, 16) e olhos (Sl 117, 16); 4. Outros textos escriturais mostram Deus tomando posição, seja sentado (Is 6, 1) ou mesmo levantando-se para julgar (Is 3, 13); e 5. A Bíblia descreve as pessoas se aproximando e se afastando de Deus, em passagens como Sl 33, 6 e Jer 17, 13. Logo, há fundamentos na própria Revelação, segundo tais argumentos, para pleitear que Deus é corporal.
Mas, como argumento contrário, São Tomás nos lembra outro texto bíblico, do Evangelho de João (4, 24) em que Jesus afirma que Deus é espírito. Ora, como sabemos, o que é espírito pertence à realidade da inteligência e da vontade, não à realidade dos corpos.
São Tomás vai examinar, agora, a hipótese de que Deus é corporal a partir das premissas que ele colocou nas cinco vias.
A primeira via, como vimos nos textos anteriores, conclui que Deus é um ser que modifica todos os outros seres, mas ele mesmo não é modificável – o que São Tomás chama, usando a terminologia aristotélica, de “motor imóvel”. Ora, qualquer ser corporal, vivo ou inanimado, necessariamente se move quando gera movimento em qualquer outra coisa. Logo, um motor imóvel não pode ser corporal.
O segundo argumento de São Tomás quanto à impossibilidade da corporeidade em Deus parte da inexistência de potencialidades naquilo que, pelas cinco vias, podemos chamar de Deus. Sendo perfeito, necessário e imutável, ele não pode ter nenhuma potencialidade, não pode vir a ser aquilo que ele ainda não é, nem deixar de ser aquilo que ele é. Ora, sabemos pela nossa experiência diária que qualquer ser corporal pode sempre ser dividido, cortado, reduzido a partes e pedaços. Logo, Deus não pode ser corporal.
O terceiro argumento de São Tomás parte da quarta via, a via da perfeição. Nós já vimos, quando tratamos das cinco vias, que a via da perfeição (talvez a mais distante da nossa mentalidade contemporânea) pleiteia que os seres são tão mais perfeitos quanto tenham em si mais potencialidades efetivadas, “reduzidas a ato”. Assim, dentre o gênero dos seres corporais, um corpo inanimado realiza plenamente as condições de “ser corpo”, mas é “menos ser” em perfeição do que uma planta, e esta é “menos ser” em perfeição do que um animal, e este é “menos ser” em perfeição do que um ser humano, em razão de que a planta tem todas as potencialidades do ser inanimado e mais ainda as potencialidades vegetativas do crescer, alimentar-se e reproduzir-se; o animal tem todas as potencialidades dos seres animados e todas as potencialidades da planta, e mais ainda a capacidade de locomoção, a sensibilidade e os apetites sensíveis; e o ser humano tem todas as potencialidades dos seres anteriores e mais a inteligência e a vontade. Portanto, o que acrescenta perfeição aos seres corporais são aquelas potencialidades que se acrescentam a seres que já têm a perfeição de serem “corpos”. Daí São Tomás conclui que “ser corpo” é uma perfeição de um nível muito baixo (talvez a mais humilde, a mais primitiva das perfeições), e que portanto não pode ser atribuída a Deus, cuja perfeição deve ser a mais alta, não a mais primitiva.
Respondendo aos argumentos iniciais, São Tomás nos explica que eles não passam de leituras equivocadas das Escrituras. Na verdade, nem se trata de erro quanto ao chamado “sentido espiritual” das Escrituras (ver art. 10 da questão 1), mas de má compreensão do seu sentido literal, mesmo. As Escrituras usam analogias com coisas corporais (veremos adiante, na questão 13) para falar de Deus, a fim de permitir a nós, simples humanos, a compreensão de realidades que, em si mesmas, ultrapassam nosso entendimento, e portanto nos seriam incomunicáveis caso fosse necessário fazê-lo de modo unívoco. Não pode haver linguagem humana unívoca versando sobre aquilo que a inteligência humana não pode conceber ou conhecer.
Assim as “dimensões” em Deus, nas Escrituras, designam a sua inteligência, seu poder e sua compreensão; as partes corporais, nele, tornam seu agir (mãos) ou seu discernimento (olhos) compreensível para nós. Do mesmo modo, as posições descritas como “sentar” e “levantar” descrevem seu poder de governo (sentar) ou sua intervenção pronta (levantar).
Por fim, o que em nós é imagem e semelhança de Deus não é a corporeidade, mas as dimensões espirituais que temos (a nossa inteligência e a nossa vontade). E, por fim, quando as escrituras falam em “aproximar-se de Deus” ou dele afastar-se, não quer significar nenhuma proximidade física, mas simplesmente o pecado, que nos afasta, ou a conversão, que nos reaproxima.
Ser corpo é ser composto, porque implica, ao menos potencialmente, ter partes. Neste artigo, portanto, podemos concluir razoavelmente que Deus não é um corpo. Para tristeza de materialistas e cientificistas em geral. Mas, considerando que ter um corpo é uma perfeição, ainda que de ínfimo grau, e que o fato de ser espiritual não exclui, nos seres humanos, a corporeidade como elemento de composição, será que, de alguma forma, Deus tem um corpo? É o assunto do próximo artigo.
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