Nos textos anteriores, nós acompanhamos o esforço de São Tomás para demonstrar a razoabilidade do mero fato da existência desse Deus que é imutável, mas provoca mudanças; que é incausado, mas causa tudo; que é necessário mas dá consistência ao que é contingente; que é perfeito e mensura aquilo que não é, e que governa todas as coisas para os seus fins. Que Deus, nestes sentidos todos, seja existente (ou melhor, que seja a própria existência) já ficou evidente à nossa inteligência. No entanto, não estamos mais perto de saber o que este Deus existente é de fato, em si mesmo. Se a sua existência nos ficou evidente à inteligência, a sua essência ainda não.

Agora, pois, São Tomás nos chama para mais um trabalho de detetive. Por definição, aquilo que Deus é, o que quer que ele seja, está tão acima da nossa inteligência que o esforço para inteligi-lo seria contraditório. Se fosse possível inteligir Deus com as forças da nossa razão, ele não seria Deus. Mas – espere! Esta é uma pista! Se sabemos que aquilo que podemos inteligir necessariamente não é Deus, então a nossa inteligência, por si mesma e sem depender da Revelação, é capaz de discernir o que não é Deus!

Esta é uma proposta bem interessante. Precisamos de um curso racional de ateísmo, ou seja, precisamos desmascarar quaisquer propostas de divinizar aquilo que não pode ser Deus, a fim de atingirmos pelo menos três objetivos importantíssimos:

1. Afastar-nos do risco de idolatria. Nós nos deparamos, a cada momento, com realidades maravilhosas, respeitáveis e dignas de toda veneração e admiração, mas que não são Deus. Se tivermos um bom critério para definir o que não pode, nem jamais poderá, ser Deus, usando as forças da razão humana, então afastaremos o risco de idolatrar aquilo que pode até merecer a admiração e a veneração, mas não é Deus. O valor deste discernimento, portanto, é enorme.

2. Desmascarar os sofismas daqueles que denunciam os absurdos do culto aos falsos deuses como se todos os cultos fossem igualmente irracionais, e acabam afastando muitos da verdadeira fé. O fato de que as pessoas cultuem falsos deuses – e que este culto deva ser denunciado em todas as suas inconsistências – não deve levar à conclusão de que não há um Deus verdadeiro, ou que não há a possibilidade de prestar a ele um culto que faça sentido (Romanos 12, 1). Muitos proselitistas de um ateísmo agressivo usam esta falácia, a de denunciar os falsos deuses e os falsos cultos como se todos os cultos padecessem das mesmas inconsistências, para impossibilitar as pessoas sequer de cogitar que pode haver um Deus verdadeiro e um culto adequado. (Há um velho ditado romano que diz: “abusus non tollit usum”, ou seja, a denúncia do abuso não é um impedimento à existência do uso correto). Purificar, pois, nossa própria inteligência do risco de idolatria é nos fortalecer contra os argumentos dos que querem atacar o Deus verdadeiro destruindo os espantalhos dos falsos deuses.

3. Com a capacidade de discernir sobre o que não é, nem pode ser Deus, teremos o lastro de razoabilidade necessário para rejeitar falsas propostas religiosas e falsas revelações, quando elas propuserem um culto àquilo que, embora se apresente como deus, não é nem pode ser Deus. Num tempo de proliferação de propostas religiosas, não é pouca coisa dispor de um critério racional de releição de falsos deuses. Se, por um lado, temos que aceitar e tolerar que as pessoas recebam e vivam estes cultos ao que não é nem pode ser Deus, em nome da liberdade religiosa e da convivência pacífica, por outro lado não podemos jamais confundir o respeito devido a todas as pessoas e seus modos de viver, por um lado, e a diferença entre alguma religião que não pode de modo algum se justificar à inteligência, de um lado, daquelas que, mesmo se fundamentadas numa Revelação que por definição é inalcançável pela mera inteligência humana, no entanto não se mostram nem contraditórias, nem irrazoáveis ao exame do seu sentido. As religiões são diferentes em valor e em verdade, e São Tomás quer nos entregar critérios de razoabilidade, de discernimento inteligente, para que possamos pessoalmente discernir entre as errôneas – que devemos tolerar e respeitar – e as boas (ou a boa) que devemos abraçar com todas as nossas forças.

Neste prólogo da terceira questão, mais uma vez São Tomás nos apresenta um grande plano de estudos. O Tratado do Deus Uno terá três grandes partes, que se estenderão até a questão 26. . Na primeira parte, ele debaterá os diversos aspectos que não podem ser atribuídos a Deus. (composição, corporeidade, contingência, mudança, divisibilidade, e assim por diante). O objetivo, me parece, é nos preparar para que, ao nos depararmos com coisas compostas, contingentes, divisíveis, etc., possamos imediatamente identificar: isto aqui não é Deus!

Na segunda parte, São Tomás propõe debater como a nossa inteligência pode conhecer Deus, e na terceira, em que medida podemos falar dele com alguma verdade. Grande convite, que eu estou ansioso para aceitar e desenvolver.

Nesta terceira questão do Tratado do Deus Uno, debateremos a simplicidade de Deus. Aqui, a tentação é grande de confundir a simplicidade existencial de Deus com uma eventual primitividade na “psicologia” divina, o que não é, nem de longe, o objetivo de São Tomás. Deus é simples, mas não é simplório.

O que São Tomás quer, aqui, é identificar exatamente em que consiste a composição das coisas, para nos ensinar a identificar e desmascarar quaisquer coisas compostas como coisas “não divinas”. A composição entre corpo e espírito, entre matéria e forma, entre essência e existência, entre gênero e diferença específica, entre substância e acidente, e mesmo a eventual mistura entre Deus e os outros seres. O primeiro artigo tratará das coisas corpóreas – Deus tem corpo? Este será nosso próximo debate.