No texto anterior, vimos como São Tomás afastou as linhas de argumentação que pretendiam concluir pela impossibilidade ou irrelevância de qualquer demonstração racional da existência de Deus.

Agora, trata-se de estabelecer efetivamente as demonstrações, através dos raciocínios quia, de que já tratamos em outro texto.

Antes, um pequeno comentário: no “sed contra”, isto é, no argumento contrário à hipótese inicial, São Tomás traz uma questão interessante. Trata-se de perceber, com base numa passagem bíblica, que a Revelação é mais do que uma simples lista de verdades ou de normas enviadas por Deus para os seres humanos. Em Êxodo 3, 14, Deus solenemente declara a Moisés: “eu sou quem sou”. Com esta passagem São Tomás quer nos lembrar que Deus, na Revelação, revela a si mesmo. E o faz declarando expressamente que ele não é simplesmente mais uma “coisa entre as coisas”, ou um “ser entre os seres”. Ele é a própria existência; ele é em si mesmo o ser, de modo unívoco e absoluto, enquanto todas as coisas apenas “estão no ser”, de modo analógico e derivado. A Revelação, então, nos mostra Deus em duas dimensões: 1. a simples existência de uma Revelação que tenha sinais externos de credibilidade nos revela que há um Deus capaz de se revelar e 2. A Revelação, no seu conteúdo, revela o próprio Deus em seu ser. Não se trata de uma mera transmissão de informação, portanto. É um estabelecimento de relação entre Deus que se revela e os seres humanos que são convidados a receber esta boa notícia.

Mas para além desta dimensão teológica, há, aqui, a aplicação prática daquilo que São Tomás mencionou nos outros artigos desta questão: vamos aplicar os princípios do raciocínio quia para tentar juntar as pistas e chegar racionalmente às evidências da existência de Deus.

Preliminarmente, devemos estar atentos ao objetivo da própria Suma Teológica. De acordo com o seu prólogo, São Tomás está se dirigindo aos “iniciantes no caminho da fé”, portanto não aos ateus, nem aos de outras religiões, mas aos crentes. Não se trata, pois, de determinar uma espécie de prova laboratorial ou retórica de Deus, para convencer os descrentes ou vencer os ateus. Trata-se de determinar, exatamente, de que estamos falando quando falamos sobre Deus. Há alguma realidade para a qual este termo aponta, ou ele trata de um mero ente de razão? Se há uma realidade para este termo, que tipo de realidade ela é, ou melhor, que tipo de realidade ela não é? Exemplifico.

Quando falamos de Deus, muitas imagens podem nos vir à mente. Alguns pensarão na tipologia dos deuses da mitologia grecorromana, nórdica ou africana, uma espécie de grupo de super-herois capazes de proezas acima dos seres humanos. Não é disto que São Tomás está falando, quando ele fala de Deus, como ficará claro quando estudarmos as cinco vias. Ele também não está falando de uma espécie de avozão barbudo que fica sentado nas nuvens distribuindo graças aos fiéis e desgraças aos hereges. Nem é aquele “relojoeiro transcendente” que fez o mecanismo do universo funcionar e depois se recolheu ao seu paraíso. Estes seres não são deuses. E deles São Tomás é um grande e profundo ateu. Estas imagens são, portanto, aquilo que Deus não é. E o objetivo maior destas cinco vias é exatamente estabelecer racionalmente que, quando falamos de Deus, não é disto que estamos falando. Portanto, quando alguns apologetas do ateísmo edificam caricaturas de deuses como estas, e os ridicularizam, para desmoralizar o Deus cristão e ganhar prosélitos, eles estão ridicularizando deuses que o cristianismo já descartou desde os primeiros dias. A tarefa do ateu que quiser debater com seriedade a questão da existência de Deus é ler com cuidado as cinco vias, em seu contexto cosmológico e filosófico e negar seus pressupostos ou suas conclusões. Sem desconsiderar, inclusive, que a superação da ciência natural aristotélica pela ciência moderna não implicou de nenhuma maneira a superação da sua filosofia, senão nos trouxe o desafio de relê-la como um dia o fez São Tomás, aplicando seus princípios à cosmovisão de seu tempo para aproveitar a profundidade de sua penetração.

Vamos às vias. Elas se fundamentam na distinção ato-potência, bem como na teoria das quatro causas, do pensamento aristotélico-tomista.

A primeira via é a da mudança. As coisas mudam, esta é a constatação empírica, a pista a partir da qual nosso trabalho de detetive começa. Mas nada muda a si mesmo: nada pode dar a si mesmo aquilo que não tem, de modo a tornar-se o que é. Exemplificando: uma parede não muda de vermelho para branco sozinha, sem que haja uma tinta branca capaz de dar-lhe a nova cor. A mudança (que São Tomás chama de “movimento”, usando o termo com uma significação bem maior do que tem para nós hoje), ou seja, a passagem (ou redução, no vocabulário aristotélico-tomista) de uma potencialidade para uma perfeição (ato) depende sempre de que alguma coisa em ato seja capaz de levar a potência (daquilo que está mudando) a transformar-se em ato. Para que a minha potência mental de aprender outra língua, por exemplo, torne-se no conhecimento atual e completo desta segunda língua, preciso de professores e materiais didáticos, ou ao menos de um bom livro em que possa estudar. Qualquer meio, portanto, que traga em ato (efetivamente) aquilo que a minha potência precisa para, por sua vez, mudar-se em ato. Ora, se nada pode passar sozinho da potência ao ato, e é sempre necessário que haja algo em ato que seja capaz de mover esta potência ao seu respectivo ato, então ha sempre uma potência sendo mudada por outro ato que, por sua vez, transformou-se de potência em ato por causa de outro ato, e assim por diante. Mas é necessário que esta regressão não chegue ao infinito. Vamos imaginar um trem. Se eu coloco uma sequência infinita de vagões (numa analogia com as potências das coisas) , este trem jamais andará. Vagões podem ser movidos, mas nunca podem mover. E não adianta acrescentar cada vez mais vagões ao nosso trem imaginário, até o infinito, porque isto não fará o trem se mover. É preciso que haja, em algum lugar, uma locomotiva, que é capaz de mover a todos os vagões mas não precisa que alguma outra coisa lhe mova (porque senão a sequência continua, já que precisaríamos de alguma coisa que move a coisa que move a locomotiva, e assim por diante), para encerrar a sequência e transmitir movimento aos vagões. A este motor último, que não é movido por nada mas move a tudo o que se segue a ele, é que São Tomás dá o nome de Deus. Se um motor assim não existisse, não haveria mudanças no universo, porque não haveria uma primeira mudança que explicasse todas as outras. Ressalve-se que a palavra “primeira”, aqui, não está sendo usada no sentido cronológico (de primeira no tempo, como se fosse um peteleco inicial para que tudo o mais andasse), mas no sentido lógico de primeiro como arché, como fundamento de todas as outras mudanças. Assim, da nossa pista inicial, que é o fato de que as coisas mudam, podemos chegar a um primeiro mudador que não muda, a quem chamamos de Deus.

A segunda via é semelhante a esta, embora não trate da mudança, mas da própria existência das coisas. Tudo que existe pode ser explicado por quatro fundamentos: a sua forma, a sua matéria, a sua finalidade e a sua origem. A forma e a matéria são a constituição interna das próprias coisas. O seu fim é aquilo que nelas ainda não é, mas virá a ser: a semente ainda não é árvore, mas uma semente de feijão jamais virará um pé de milho (aprofundaremos isto na quinta via). Estas duas são causas externas das coisas: a semente de feijão aponta para um pé de feijão que ainda não existe, mas que, ao existir, fará com que a semente não mais exista como semente. Pode-se dizer, portanto, que o pé de feijão, como fim, é externo à semente.

Assim também a causa eficiente da coisa: ela é sempre uma outra coisa, externa à coisa que se está explicando. A causa eficiente de um bebê são seus pais. A causa eficiente de uma semente é a planta que a produziu.

Ora, ocorre com a causa eficiente aquilo que ocorre com a mudança, na primeira via: não pode haver um regresso ao infinito, senão nada existiria. É preciso que haja uma primeira coisa, cuja existência não decorre de uma causa eficiente (porque senão seria preciso remontar à causa eficiente desta causa eficiente, e a série não terminaria) para que o resto da série exista. Assim, quando eu olho para uma coisa que existe de fato, posso recuar mentalmente a uma causa eficiente não causada, primeira da série das causas que a gerou. Um parêntese: esta causa incausada não é causa de si mesmo, como alguns filósofos modernos afirmaram. Nada pode ser causa eficiente de si mesmo, porque, para que o fosse, ela precisaria existir antes de si mesmo, o que é uma contradição em termos. O primeiro da série, portanto, deve ser necessariamente incausado. A esta causa incausada é que São Tomás chama de Deus.

A terceira via é a da contingência. A pista, aqui, é o fato de que, na nossa experiência empírica, sempre nos deparamos com coisas que hoje existem, e amanhã podem não mais existir. Tudo o que conhecemos está sujeito á corrupção e à destruição, e tudo o que conhecemos começou a existir em algum momento. Ora, houve um momento, pois, em que tudo o que hoje existe não existia. Se tudo o que existisse, então, fossem as coisas contingentes, então, dado que do nada, nada surge, nada existiria hoje, porque um dia nada existiu e do nada, nada pode surgir. Assim, deve haver um ser necessário, que tenha em si mesmo a causa da necessidade de sua existência, de modo a tornar racional que exista alguma coisa em vez de nada. A este ser necessário, São Tomás chama de Deus.

A quarta via é a dos graus de perfeição. Esta via é de mais difícil compreensão para nós, pessoas do século XXI, porque não estamos acostumados a pensar nas coisas concretas em termos de perfeição. Mas é de fácil compreensão. O que São Tomás está dizendo, em resumo, é que as coisas diferem entre si por causa da medida com que suas potencialidades se transformaram em atos ou permanecem como simples potencialidades. Outrossim, tão mais perfeita é uma coisa quanto mais repleta de potencialidades ela seja: uma pedra tem poucas potencialidades; uma planta apresenta mais potencialidades que um mineral. Um animal tem uma riqueza de perfeições a atualizar. Um ser humano tem em si potencialidades enormes, quase infinitas, e por isto é um ser muito mais aperfeiçoável do que uma pedra.

Ora, dentre as coisas, é claro que quanto mais uma coisa dispõe de potencialidades para atualizar, e quanto mais realiza suas potencialidades, tão mais perfeita ela é. Mas, para poder afirmar isto, é necessário admitir uma escala, um referencial de perfeição em algum ser que tenha em si todas as perfeições e possa servir de parâmetro para as perfeições dos seres empíricos. De outro modo, jamais poderíamos fazer diferenças entre as coisas, nem sequer reconhecer que algumas delas são menos atuais, mais potenciais que outras. É somente admitindo isto que podemos, por exemplo, falar em um “dever de respeitar a natureza e o meio ambiente”, ou mesmo numa “dignidade da pessoa humana”. Estas pistas empíricas nos levam a deduzir que é necessário que exista um ser perfeito, sem potencialidades. A este ser que reúne em si todas as perfeições, e que portanto nos permite identificar os graus de perfeição das coisas com que lidamos empiricamente, São Tomás chama de Deus.

Por fim, a quinta via é a do fim. O fim não existe como um dado empírico nas coisas, senão sempre como uma potencialidade, ou uma disposição. As coisas não são somente aquilo que nos é empiricamente dado num momento. Elas, de algum modo, incluem em si o que são e tudo o que podem ser, ou seja, todas as disposições que ela possui mas ainda não se realizaram. Ora, uma vez que estes fins estão inscritos nas coisas (como fica evidente do fato de que não plantamos sementes de feijão para obter pés de milho), embora não existam empiricamente (enquanto há sementes de feijão, o pé de feijão não existe empiricamente, e vice-versa) é preciso admitir que há uma inteligência inscrevendo nas coisas estes fins e guiando-as até eles. A este ser que guia as coisas até o seu fim, e que portanto governa o universo, São Tomás nos convida a chamar de Deus.

Eis, portanto, o que se quer significar, quando se usa a palavra “Deus” no sentido atribuído pela inteligência humana: trata-se daquele ser que tudo muda sem mudar-se, que causa tudo sem ser causado, que tem em si a necessidade de existir, garantindo a estabilidade de um universo contingente, que contém todas as perfeições e pode mensurar as potencialidades e as atualidades de todas as coisas, e que, por fim, rege o universo, encaminhando todas as disposições potenciais das coisas ao seu fim. Podemos dizer, então, com Tomás de Aquino, que, depois deste exercício de investigação, talvez não saibamos muita coisa sobre o que (ou quem) Deus é. Mas estamos melhor preparados para não sermos iludidos buscando Deus onde ele não pode estar, ou chamando de Deus quem não é, nem pode ser.

Estas cinco vias podem parecer bem estranhas para quem, como eu, está acostumado com um universo casual, cientificista e vazio de sentido interior, mecanicista e turvo. No entanto, estas cinco vias são cheias de ser, de sentido e de significado para um universo que não somente existe, mas é dinâmico e transparente à razão. São Tomás aqui é rigoroso e coerente com os pressupostos que adota – muito mais ricos que os nossos.

Ficamos por aqui mais tempo do que eu gostaria, menos do que eu precisaria.