Chegamos finalmente ao momento em que São Tomás assumirá textualmente a hipótese ateia, para debatê-la; “parece que Deus não existe”. Trata-se, pois, de um duplo movimento: afastar os argumentos que positivamente postulam demonstrar que a existência de Deus é irracional, e aduzir os argumentos cogentes no sentido de que é racional deduzir ao menos que há um ser que se pode chamar, com boas razões, de Deus.
Não se pode deixar de anotar que é preciso muita coragem para que um teólogo comece o debate admitindo a hipótese de que Deus não existe. Isto espelha um tempo em que os debates eram muito mais francos e corajosos, e os argumentos eram de fato enfrentados e respondidos com franqueza e honestidade. Sem “mimimi” e acusações de “fobia” ou “intolerância” de um lado ou de outro. Confiança na razão humana, no debate franco, num grau que dificilmente se encontra hoje em dia.
Este artigo tem algumas peculiaridades que o tornam muito importante. Num texto curto, São Tomás enfrentará o argumento da existência do mal como prova de que Deus não existe, traçará os limites da chamada “navalha de Ockham” e seu interdito à chamada “multiplicação desnecessária de causas” como obstáculo à demonstração da existência de Deus e, por fim, uma explicação resumida das chamadas “cinco vias de demonstração da existência de Deus”. Ou seja, São Tomás afastará primeiro os obstáculos, consistentes nos argumentos que pretendem demonstrar que a existência de Deus não é razoável, para depois demonstrar cabalmente, pelas cinco vias, que esta existência não somente é razoável, mas é verdadeiramente fato demonstrado.
Nos textos anteriores, já tivemos oportunidade de esclarecer em que sentido São Tomás acha possível demonstrar a existência de Deus. Não se trata de chegar a Deus pela via da razão, mas tão-somente demonstrar que há Deus -e não quem é Deus. É um escopo bastante limitado, portanto. O fato é que, pelo registro histórico, todas as civilizações, em todas as épocas, chegaram até aí, independentemente da Revelação cristã. Assim, por meio de demonstrações do tipo quia, procederemos como detetives, tomando no lugar da essência incognoscível de Deus os seus efeitos que nos são evidentes. Dentre os objetivos há o de esclarecer, inclusive, exatamente de que estamos falando quando falamos em Deus. É por isto que – como veremos no próximo texto – as demonstrações de São Tomás sempre terminam com o bordão “e a isso todos chamam Deus”.
São Tomás de Aquino começa o seu trabalho de detetive com os argumentos que dão suporte à hipótese inicial de que Deus não existe. São os dois argumentos mais fortes contra a possibilidade de demonstração racional da existência de Deus. O primeiro é o célebre argumento da “existência do mal”.
São Tomás o articula assim: se algo existente é infinito, não deixa possibilidade de existência ao seu contrário. Ora, se com o nome de “Deus” se quer nomear o bem infinito, se um Deus assim (bom e infinito) existisse, então o mal não poderia existir. Mas a existência do mal é um fato evidente. Logo, um Deus assim não pode existir.
Este argumento tomou diversas formas ao longo da história. Às vezes ele se apresenta assim: se o mal existe, então ou Deus não é bom, por ter criado o mal, ou não é onisciente, porque o desconhece, ou não é onipotente, onipotente, porque não consegue eliminá-lo. Em qualquer destes casos, dizem os promotores desta tese, a existência do mal prova a inexistência de um Deus que fosse simultaneamente a bondade infinita e a onipotência.
São Tomás ainda tratará da questão do mal aqui na Suma Teológica em outros lugares, inclusive aqui mesmo na primeira parte, questão 49, distinguindo entre o mal moral e o mal natural. Por enquanto, basta-nos saber que o mal não é uma substância, mas uma deficiência – e, portanto, não é incompatível com um mundo criatural e um Deus transcendente, nem com o fato de que a liberdade dos seres criados pressupõe a permissão de Deus para o mal – mas não implica nenhuma participação do mal em Deus ou vice-versa. O mal é permitido por Deus, mas não desejado nem praticado por ele. Quando se olha por este lado, a grande surpresa não é descobrir que um Deus infinito e onipotente deixe lugar para o mal, mas o que nos surpreende é que um Deus assim venha a ter criado um cosmos diverso de si mesmo. A infinitude de Deus não impede a existência do outro, que é a criação. O universo não é Deus, Deus não é o universo. Por isto, constatar o mal no universo não diminui nem a infinitude, nem a onipotência de Deus, porque o lugar no qual o mal se manifesta, que é o universo, é outro com relação a Deus mesmo. Deus é pleno, perfeito e atual, como veremos adiante nas cinco vias. O universo é outro, móvel, perfectível, contingente, potencial e incompleto.
Por enquanto, no entanto, São Tomás se limitará a responder esta objeção com uma citação de Santo Agostinho, quando enfrentou o mesmo tema: “Deus, que é soberanamente bom, nunca permitiria que qualquer mal existisse nas suas obras se não fosse suficientemente poderoso e bom para do próprio mal, fazer surgir o bem”. O mesmo texto de santo Agostinho é citado no Catecismo da Igreja Católica, § 311. A presença do mal na criação não é, portanto, um argumento contra a possibilidade de demonstração racional da existência de Deus, nem contra a própria existência de Deus.
O segundo argumento contra a demonstração da existência de Deus a partir dos seus efeitos é a chamada “navalha de Ockham”. Ele está formulado mais ou menos assim: “havendo mais de uma explicação para a mesma coisa, devemos escolher aquela que recorre a um menor número de causas para dar uma explicação suficiente”. Aqui na Suma, São Tomás faz a seguinte formulação concreta: mesmo que suponhamos que Deus não exista, ainda somos capazes de explicar as coisas naturais pelas causas naturais, e as coisas intencionais pela liberdade humana. Assim, não haveria nem necessidade, nem razoabilidade em introduzir Deus na equação, e portanto não há possibilidade de demonstrar Deus senão violando o princípio da simplicidade de explicação registrado na “navalha de Ockham”.
Um primeiro registro: este princípio que hoje conhecemos como “navalha de Ockham”, São Tomás o conheceu como um princípio comum do pensamento, muito antes que o próprio Ockham nascesse. Ockham nasceu em cerca de 1288, e São Tomás morreu por volta de 1274. Portanto este princípio existia muito antes que o próprio Ockham o formulasse, e era conhecido e observado na Idade Média.
Após expor as cinco vias – o que discutiremos apenas no nosso próximo texto – São Tomás responderá a esta objeção de modo muito sucinto, e, ao mesmo tempo, muito profundo. Deus é demonstrado, a partir da realidade empírica, como causa primeira e fim último, e portanto não exclui nem as chamadas “causas segundas” nem os fins naturais. Esta resposta pressupõe, portanto, uma visão da estrutura metafísica aristotélico-tomista, em que o empírico tem sua origem e ganha seu sentido a partir do inteligível. E o transcendente, que estrutura inteligivelmente a realidade empírica, não lhe tira a consistência, mas, ao contrário, evidencia seus fundamentos. Por isto, a rigor, as cinco vias não são exatamente “provas da existência de Deus”, senão demonstrações irrefutáveis de que postular sua existência é racional. Da forma com que São Tomás trabalha as cinco vias, não há como conhecer a realidade sem de algum modo esbarrar num motor imóvel, numa causa incausada, numa permanência por sobre o contingente, numa perfeição ou num ordenador.
Não é difícil ver como é inevitável, ao conhecer a realidade, postular um ser assim; só para citar alguns exemplos da modernidade, foi talvez o que fez Maquiavel transformar o mais puro e irracional poder como fundamento da política, ou Marx, ao tomar a economia como motor imóvel de toda a realidade humana, ou Freud, ao colocar a pulsão sexual nesta posição, ou mesmo Darwin com sua seleção natural que é o alfa e o ômega de um mundo evolutivo. Talvez Adam Smith tenha colocado o mercado, com sua mão invisível, nesta posição, ou, para um exemplo mais contemporâneo, Dawkins tenha deificado um certo “gene egoísta”. O problema é que estas forças impessoais não conseguem atender a todos os critérios para serem “aquilo a que todos chamam Deus” – nas palavras de São Tomás. São, portanto, deuses menos razoáveis, menos inteligíveis que o Deus cristão. Ou seja, desconhecer as cinco vias para determinar os atributos daquilo que “todos chamam Deus” é correr o risco de criar ídolos para fazer deles um falso fundamento da estrutura do real. O poder, o sexo, a economia, a seleção biológica, ou quaisquer outras forças que a humanidade descubra, são importantíssimas, mas não podem ser elevadas a ocupar o lugar “daquilo que todos chamam de Deus”.
As cinco vias merecem uma exposição mais detalhada. Faremos isto no próximo texto, se Deus quiser.
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