No texto anterior, concluímos com a constatação de que temos a boa notícia de que a demonstração (da simples existência de Deus, ou seja, que há Deus) está acessível à razão humana. Depois de verificarmos que a existência é sempre um fato que nos precede e nos interpela, mas que não se deixa dominar pelo nosso pensamento; depois de verificamos que a essência de Deus, por definição, ultrapassa a capacidade natural de nossa inteligência, verificamos que a proposição “Deus existe”, que em si é analítica, funciona para nós como uma proposição sintética. Isto significa que ela não é evidente à nossa inteligência enquanto não for, de alguma forma, objeto de explicação e demonstração.
Como esta demonstração é possível – ou melhor, se esta demonstração é possível – é exatamente o que São Tomás nos convida a debater neste segundo artigo da questão dois. Na sua hipótese, como é usual, São Tomás nos propõe que, aparentemente, tal demonstração não é possível. E nos traz três argumentos para a sua hipótese:
1. O que é artigo de fé não pode ser objeto de demonstração científica. As próprias escrituras nos afirmam (Hb 11, 1) que a fé é a posse antecipada daquilo que não se pode ver a partir de meios humanos. Aquilo que é cientificamente demonstrável, portanto, não pode ser objeto de fé. A existência de Deus, portanto, sendo objeto de fé, não pode ser cientificamente demonstrada.
2. Em lógica aristotélica, o chamado “termo médio” de uma demonstração (aquele termo que não aparece na conclusão) é sempre uma essência. Podemos, por exemplo, construir o seguinte raciocínio: “Os animais são mortais. Os seres humanos são animais. Logo, os seres humanos são mortais”. Neste raciocínio, o termo médio é “animais”, pois não aparece na conclusão. Ora, eu sei qual é a essência do gênero “animal”, e por isto eu posso construir este raciocínio com consistência científica. Mas eu não sei – e jamais saberei cientificamente – qual a essência de Deus. Logo, é impossível demonstrar sua existência.
3. Ainda que pretendêssemos agir como detetives, para deduzir a existência de Deus a partir das pistas que ele deixa em suas ações, isto tampouco seria possível. Entre a pista e as conclusões, como sabem os bons detetives, deve haver alguma proporção. Ora, as pistas que se poderiam submeter à nossa inteligência seriam sempre finitas, por dois motivos: tais pistas deveriam estar na criação e deveriam ser objeto da nossa inteligência. Mas a criação é finita, e a nossa inteligência é finita também. Sabemos que entre o finito e o infinito não pode haver proporção. Logo, tais pistas seriam ineptas para o resultado pretendido: que uma inteligência finita pudesse, a partir de pistas finitas, deduzir a existência de Deus infinito. Impossível, portanto.
Mas, justo quando estamos tentados a aceitar estes argumentos como irrespondíveis, São Tomás nos traz um argumento contrário (sed contra…) que nos propõe um paradoxo: a Revelação, nas escrituras, afirma textualmente que a existência de Deus pode ser deduzida a partir das pistas que ele nos deixa na Criação. Está em Romanos 1, 20: “a realidade invisível de Deus – seu eterno poder e sua divindade – tornou-se inteligível desde a criação do mundo”. O que a própria Revelação está dizendo, pois, é que não é necessário que haja uma Revelação para que a existência de Deus seja conhecida pela humanidade. Ou seja, para confusão daqueles que acham que somente a revelação é capaz de fazer o ser humano saber da existência de Deus, a Revelação, ao contrário, diz que é possível chegar a saber isto sem necessidade de revelação. O problema está posto e dimensionado por São Tomás.
Para responder, ele começa distinguindo duas formas de demonstração, dentro da lógica aristotélica. A primeira forma é o que ele chama de “raciocínio propter quid”, ou raciocínio a priori. Aqui, partimos das causas para deduzir os efeitos. É como se disséssemos aqui: há aqui um marceneiro em ação, com todas as ferramentas, com boa madeira, com um projeto de mobília e contratado para fazer tal mobília. Isto que está saindo de suas mãos, portanto, deve ser a mobília que ele foi contratado para fazer.
Mas há uma outra forma de demostração, que São Tomás chama de “raciocínio quia”, que é aquele que parte dos efeitos para as causas. É a forma de raciocinar própria dos detetives. Digamos que eu entro numa marcenaria, encontro um belíssimo armário que encomendei, e, ao lado dele, o projeto que elaborei. Nas estantes ao lado, vejo todas as ferramentas necessárias para a confecção da mobília, e, pelo chão, os restos da madeira de lei que foi usada. Posso concluir que o meu marceneiro, que não está presente no momento, foi o autor daquele armário. É uma demonstração cientificamente válida. E mais, aceitar que este tipo de demonstração existe e é válida e aceitável para produzir conhecimento científico é o que torna a nossa vida, a nossa civilização, os nossos processos judiciais, enfim, a própria existência humana racional e possível. Rejeitar a possibilidade de aplicar esta forma de demonstração aos efeitos da ação de Deus para demonstrar sua existência é rejeitar a própria capacidade humana de raciocinar dos efeitos para a causa. Mutilar a própria inteligência humana. E isto São Tomás jamais fará. Ele não acredita em oposição entre a fé e a razão. Porque esta oposição não existe.
Colocado tudo isto, São Tomás passa a responder aos argumentos que ele apresentou como fundamentos de sua hipótese inicial. E a resposta ao primeiro argumento é surpreendente: São Tomás concorda com sua premissa! De fato, ele diz, os artigos de fé não podem ser submetidos a nenhuma demonstração. E então ele tira desta premissa a seguinte conclusão; a simples existência de Deus não é um artigo de fé. É um dado acessível à razão humana, e portanto pode ser objeto de demonstração científica (tomando-se “ciência”, aqui, no sentido aristotélico do termo, de “episteme”, não de “techne” como entendemos hoje em dia). Assim, ele classifica o dado da existência de Deus como um “pressuposto da fé”, ou “preambula fidei”, em latim. O que ele quer dizer com isto?
Ele quer dizer que a razão é como que o terreno fértil onde a fé se desenvolve. Quando o ser humano deliberadamente cega a sua própria razão, não se pode esperar que haja, nele, nenhum terreno fértil para a fé. A fé não se constrói no nada, mas numa natureza humana, como o próprio Jesus nos ensina na chamada “parábola do semeador” (Marcos 4 e paralelos).
São Tomás nos repete aqui aquele ditado do qual ele gosta muito: a graça não destrói a natureza, mas a pressupõe e aperfeiçoa (gratia non non tollit naturam, sed perficit). Já o vimos dizer isto no artigo 8 da 1ª questão, e ele repetirá ainda outras vezes ao longo da Suma.
A pergunta que surge agora é: então São Tomás pensa que a fé está condicionada a que o sujeito entenda lógica aristotélica e seja capaz de acompanhar uma demonstração na forma de um raciocínio “quia”? Neste caso, a fé seria algo extremamente elitista, exclusivista, e não um dom de Deus para a humanidade em geral, para quem este assunto é quase inalcançável.
São Tomás dirá um vigoroso “não” a esta pergunta. Lembram-se que já na questão 1, artigo 1, São Tomás nos informou que a Revelação poderia incluir assuntos que, por si mesmos, não fossem inalcançáveis pela razão humana, mas que, se dependessem apenas do esforço humano para serem alcançadas, seriam atingíveis apenas por poucas pessoas, depois de muito tempo e não sem mistura de erros? Ele está fazendo aqui uma aplicação prática deste princípio: nada impede que uma pessoa que não consegue acompanhar um raciocínio comprobatório aceite como matéria de fé aquilo que, para uma pessoa mais estudada, pode ser cientificamente demonstrado e conhecido. Nós poderíamos acrescentar para São Tomás: isto acontece comigo todo dia quando ligo o computador e navego na internet. Eu sei que tudo isto que foi desenvolvido para me possibilitar esta atividade é objeto de conhecimento científico para as pessoas que projetaram e desenvolveram a informática. Estes conhecimentos me escapam totalmente. Mas isto não me impede de usar a internet, sob a confiança de que tudo funcionará exatamente como deve. Aceito na fé o conhecimento que me é entregue por tantos cientistas! A falta de conhecimento científico ou filosófico, portanto, não é obstáculo à fé; mas a rejeição explícita e deliberada à razão ínsita nas demonstrações quia da existência de Deus é.
O segundo argumento é aquele que diz que, uma vez que não podemos conhecer o que a essência de Deus é, senão no máximo o que ela não é, estaríamos impossibilitados de construir raciocínios demonstrativos sobre a existência de Deus, por falta de termo médio. Ora, São Tomás já nos ensinou que, nas demonstrações quia, o termo médio é substituído pelas pistas, pelas evidências que Deus nos deixou na criação. A forma de fazer isto será demonstrada na prática no próximo artigo, quando São Tomás estiver desenvolvendo as chamadas “cinco vias de demonstração da existência de Deus”. Examinaremos isto no próximo texto.
O último argumento contrário é aquele que nega a possibilidade de demonstrar a existência de Deus, que é infinito, por uma inteligência finita que se depara com evidências finitas. São Tomás, como um bom professor de detetives, explica-nos que, de fato, jamais chegaremos a conhecer a essência de Deus por este caminho. Para isto, o único caminho é a fé. Mas, mesmo que não saibamos jamais, por meio de demonstrações científicas, o que (ou quem) é Deus, podemos – e devemos – caminhar no sentido de saber de modo racional e demonstrável que há um Deus. Não é pouco. É uma interpelação enorme à razão humana. E, para fugir dela, o ser humano teria que renunciar à plenitude do uso da própria razão. De certa forma, a filosofia pós tomista fez exatamente isto – teve que destruir a sólida confiança que São Tomás depositou na razão humana para conseguir se livrar da interpelação de reconhecer a existência de Deus. Para eliminar a razoabilidade da fé, teve que sabotar a fé na razão.
4 de outubro de 2017 at 12:50
Obrigado!
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