É impressionante a ousadia de São Tomás na sua especulação teológica. Ele acabou de apresentar um verdadeiro tratado epistemológico sobre a razoabilidade da , e os limites, métodos e conteúdos de uma abordagem verdadeiramente científica à Revelação divina, e determinou que é possível, e mesmo necessário, abordar racionalmente a relação do ser humano – animal racional que é – com o Deus que o criou, e que, portanto, é também o criador da própria razão humana. Uma Revelação verdadeira não pode excluir a razão humana da relação com Deus, porque Deus não pode ser contraditório, e exigir que a sua criatura abdique exatamente da sua nota distintiva – a inteligência – quando se aproxima de Deus. Ou a fé inclui a razoabilidade humana ou não pode, nem em tese, ser verdadeira. Portanto, o traço distintivo de qualquer fé com pretensões à verdade é a sua razoabilidade. Até aí caminhamos com São Tomás.

Há agora uma questão que precisa ser respondida na imediata sequência: se Deus existe. Ora, se Deus não existe, não há razão para continuarmos a caminhar com São Tomás.

O preâmbulo desta questão 2 traz uma espécie de “plano de ação” para toda a Suma Teológica: contemplar “Deus em si”, depois as criaturas em relação a ele, como princípio e como fim. Recordemos que, quando São Tomás tratava da teologia como ciência, ele estabeleceu como objeto da teologia exatamente “Deus e todas as coisas sob o enfoque da relação com Deus”. Ora, esta relação se torna concreta exatamente no esquema “exitus-redditus”, ou seja, as criaturas que surgem de Deus pela criação e a ele retornam pela salvação. Especificamente com relação às criaturas livres, será necessário estudar sua salvação em Cristo, que é a única via de retorno a Deus. E este é o grande esquema da Suma: Deus – a criação – a redenção.

A questão 2 será subdividida em três artigos. O primeiro trata da própria proposição: “Deus existe”. Em que consiste esta proposição? O que é exatamente este “existir”, e como ele se relaciona com a inteligência humana? Não é coincidência que, logo neste primeiro artigo, São Tomás vá se deparar com o chamado “argumento da existência de Deus de Santo Anselmo” (que Kant chamou de “argumento ontológico”) apenas para refutá-lo de modo terminante. É um santo debatendo com outro… Pessoalmente, fico do lado de São Tomás. São Tomás nunca confundiria a existência com o pensamento da existência. Deixemos isto para Descartes…

São Tomás discutirá, aqui, basicamente, se a proposição “Deus existe” é sintética ou analítica, e em que medida ela é evidente em si mesma e para a inteligência humana.

Proposições analíticas são aquelas em que o predicado está contido no sujeito, quer dizer, o predicado não acrescenta informação fática externa ao próprio sujeito. Do simples exame do sujeito, do conhecimento do seu conteúdo semântico, o predicado é deduzido necessariamente, de forma evidente. Uma proposição deste tipo é “o triângulo tem três lados”. Ora, sabendo que a definição de “triângulo” é “figura geométrica de três lados”, eu não preciso examinar um triângulo para afirmar que eles têm três lados. São proposições deste tipo, por exemplo, “a bicicleta tem duas rodas” e “o ser humano é mortal”. Proposições sintéticas, por outro lado, são aquelas em que o conceito do predicado não está contido no conceito do sujeito, e que portanto há alguma informação nova sendo acrescentada quando uno o predicado ao sujeito. Se eu digo “a bicicleta é azul”, estou fazendo uma proposição sintética, porque nada no próprio conceito de bicicleta torna necessário que ela seja azul. É preciso examinar aquela bicicleta da qual eu estou efetivamente falando, para saber se a proposição é verdadeira ou não. Há bicicletas azuis, vermelhas e de outras cores.

A questão, pois, é saber se a proposição “Deus existe” é sintética ou analítica. E para saber isto, nos lembra São Tomás, é preciso conhecer o significado de cada termo da proposição. Por exemplo, a proposição “o todo é maior que as partes” é analítica, e portanto evidente em si mesma, mas para descobrir isto eu preciso conhecer o conceito de “todo” e o conceito de “partes”. Uma vez que eu conheça tais conceitos, torna-se evidente para mim, sem necessidade de nenhuma prova ou demonstração fática, que o todo é maior que as partes.

Daí se pode concluir, diz São Tomás, que uma proposição que é evidente em si mesmo (é evidente que, uma vez que eu saiba o que é “todo” e o que é “parte”, o todo seja necessariamente maior que as partes), ela não seja evidente para mim, quando eu não conheço os conceitos envolvidos. Se eu não sei o que é “todo” e o que são “partes”, eu vou precisar que alguém me explique tais conceitos, e os demonstre, se necessário inclusive valendo-se de demonstrações e exemplos concretos. Na prática, portanto, a proposição analítica “o todo é maior que as partes”, quando não conheço o conceito de “todo” ou de “partes”,  vai equivaler a uma proposição sintética para mim. É isto que São Tomás quer dizer quando ele diz que a proposição “Deus existe”, embora seja em si mesma uma proposição analítica (quando eu sei que em Deus a essência e a existência coincidem), e portanto autoevidente, funciona como uma proposição sintética para nós, humanos, já que a essência de Deus não cabe na nossa inteligência, e a existência não é um conceito, mas um fato bruto que nos interpela “desde fora”. Nós não “pensamos” nas coisas existentes, nós as conhecemos. E sua existência é um dado para nós, não uma categoria a ser pensada.Há, portanto, uma distinção “pensar X conhecer”.

É por isto que uma existência simplesmente “pensada” está num plano completamente diferente de uma “existência real”; o que existe me interpela e se dá ao meu conhecimento. O que eu penso está em mim, e pode eventualmente pautar o meu próprio agir, o meu próprio produzir. Mas o que eu conheço me é dado, me interpela a partir de fora, age em mim. Por isto, eu posso pensar na existência, mas apenas conhecer os existentes. O meu pensar jamais causará o existir de alguma coisa. É exatamente aí que São Tomás encontra a fraqueza do argumento de Santo Anselmo.

Só para nos lembrar: o argumento de Santo Anselmo é assim: “Deus é a maior coisa que eu posso pensar. Ora, uma coisa é maior quando ela existe do que quando ela não existe. Logo, se Deus não existe ele não seria a maior coisa em que eu posso pensar, porque sou capaz de pensar num Deus existente. Logo, Deus tem que existir”.

Este argumento confunde, portanto, a própria existência de alguma coisa com a minha capacidade de pensá-la. As existências concretas não são pensadas por nós, mas conhecidas por nós – são puro dom, pura faticidade que nos interpela. Não são uma perfeição que se agrega ao nosso pensamento. Este argumento somente seria verdade se pensássemos com a mente de Deus, ou seja, se nosso pensar fosse causa do existir. Mas não é. O agir humano, o produzir humano, são criadores apenas num sentido derivado. Podemos transformar as coisas pelo nosso pensamento. Mas jamais poderemos dar a própria existência a alguma coisa a partir do nosso pensamento. Muito menos podemos conceder ao próprio Deus sua existência. Isto tudo parecia muito claro a São Tomás, mas curiosamente não parece claro para nós, pessoas do século XXI. É que estamos acostumados a confundir o pensar com o conhecer, principalmente depois que Descartes lançou o seu “brado fundacional da modernidade”: “penso, logo existo”.

O mote “penso, logo existo” é falso. Você existe, e você conhece sua existência e reflete sobre ela, e a partir daí pode afirmá-la. Mas estes são dois dados – meu pensar e meu existir – cuja interrelação é estritamente acidental, na criatura (salvo em Deus, em quem pensar e existir se confundem). Portanto, o grito de Descartes só seria verdadeiro se fosse lançado por um deus. E se toda realidade fosse um produto da mente humana. Mas Descartes não era Deus, nem todos os idealistas depois dele, como Kant e Hegel, que já não sabem distinguir entre pensamento e conhecimento. Porque já não aceitam a realidade como um dom, nem a criaturalidade como parte da estrutura do real. Filosofando, na verdade teologizam, colocando suas próprias mentes no lugar de Deus, porque perderam as distinções aristotélico-tomistas entre o conhecer criatural e o pensar divino, e entre o agir/transformar humanos e o criar divino. O argumento de Santo anselmo é tão tentador para a nossa contemporaneidade porque a raiz do nosso filosofar contemporâneo é idealista.

A refutação de São Tomás é simples: para admitir que o fato de que, uma vez que eu posso pensar em Deus como sendo maior por existir, se ele de fato existir, eu teria que admitir que ele existe, que é exatamente o que os ateus negam logo de partida. Ele desmascara, pois, a petição de princípio que existe no argumento de Santo Anselmo – o raciocínio toma como ponto de partida exatamente o que deveria provar, e portanto cai num círculo vicioso.

E quanto à afirmação de que o conhecimento de Deus é natural no ser humano, como defende Damasceno, citado por São Tomás? Ora, diz São Tomás, há em nós um desejo natural de felicidade. Não há sequer um ser humano que não queira ser feliz. São Tomás sabe – e o sabem os que têm fé – que Deus é a felicidade plena do ser humano, e que, portanto, desejar a felicidade é desejar deus, ao menos implicitamente. Ora, daquilo que desejamos temos sempre um conhecimento, ainda que vago e desarticulado – ninguém pode desejar alguma coisa da qual não tem nenhuma noção. Assim, todos nós temos naturalmente a noção de que há algo desejável como felicidade. Mas isto nos diz muito pouco de Deus, lembra São Tomás. Todas as pessoas do mundo têm mãe, e nós podemos saber disso. Mas saber disto não nos leva a conhecer quem são, concretamente, as mães das pessoas que efetivamente existem.

Com esta distinção, portanto, São Tomás fecha esta questão: Deus é a verdade, e não há como negar conceitualmente a verdade, porque para negá-la eu devo afirmar que é verdade que a verdade não existe. Mas do fato de que conhecemos a existência da noção abstrata da verdade não podemos concluir que conhecemos concretamente a pessoa em quem a verdade constitui a própria essência, isto é, Deus.

E é assim que São Tomás nos conclui com esta distinção: afirmar a existência de Deus é em si uma proposição analítica, porque Deus é o próprio existir. Mas como os termos desta proposição estão, ambos (Deus e a existência), além da nossa capacidade conceitual, a proposição funciona para nós como se fosse sintética – não nos é evidente. É por isto que não é um absurdo irracional quando um ser humano afirma que Deus não existe – nos estritos limites da inteligência humana, a existência de Deus precisa de demonstração.

A boa notícia é que esta demonstração (da simples existência de Deus, ou seja, que Deus) está acessível à razão humana, independentemente da fé. É o que São Tomás discutirá nos próximos artigos. E todos os povos, em todos os tempos, alcançaram esta certeza por meios diversos da própria Revelação em Cristo. Também é possível à razão humana, mediante esforços enormes e municiada de uma boa vontade igualmente avantajada, descobrir quem não é Deus. É por isto que tantos povos, em tantos lugares, escaparam dos perigos do panteísmo e da divinização dos governantes ou da natureza. Mas saber quem é Deus, nos dirá Tomás, é impossível à inteligência humana desassistida pela graça.