Mais uma vez, São Tomás, adota como hipótese a negativa da proposição inicial. Ele, afirma, como hipótese, que “parece que, nas Sagradas Escrituras, o texto não pode ter mais de um sentido: o literal, por um lado, e o espiritual, por outro, subdividindo-se este em 1. Alegórico, 2. Moral ou tropológico e 3. Anagógico”. Mais na frente, explicaremos, com São Tomás, cada uma destas palavrinhas.
Como argumento para sua hipótese, São Tomás começa aduzindo que: a) se a Revelação tem como objetivo mostrar a verdade, não é conveniente que seu texto traga mais de um sentido. A multiplicidade de sentidos de um texto gera confusão e enganos, sofismas e insegurança. Logo, a letra revelada não deve ter mais de um sentido. b) Santo Agostinho subdivide as dimensões do texto da Revelação em histórica, etiológica, analógica e alegórica. Ora, esta é uma classificação completamente diferente daquela que subdivide os sentidos do texto em literal e espiritual, e este em alegórico, moral e anagógico. Logo, estes quatro sentidos não devem ser reconhecidos no texto da Revelação. E c) chama a nossa atenção o fato de encontrarmos diversas parábolas no texto das Escrituras. Ora, nos quatro sentidos relacionados aqui não se faz menção ao sentido parabólico. Logo, esta classificação é inconveniente.
Como argumento contrário, São Tomás nos apresenta a autoridade do papa São Gregório, que nos alerta que aquilo que está narrado nas Escrituras, pelo próprio modo da narração ultrapassa todas as outras formas de comunicação; na sua maneira de comunicar, diz São Gregório, as Escrituras, ao mesmo tempo em que nos narra os feitos de Deus e dos seres humanos, também expõe os mistérios!
Qual a importância desta colocação, tão aparentemente banal, de São Gregório? São Tomás nos mostrará em seguida, na sua resposta: nós, humanos, quando nos comunicamos, damos significado às palavras. Deus, autor da Revelação, vai muito além: ele é capaz de, como nós, dar sentido às palavras, fazendo com que elas signifiquem coisas, mas ele também pode dar significado às próprias coisas, fazendo com que elas signifiquem outras coisas!
Assim, a primeira dimensão de significação, em que as palavras significam coisas, constitui o primeiro sentido, que é o sentido literal. A segunda dimensão comunicativa da Revelação, própria do fato de que ela tem o próprio Deus como autor, é aquela pela qual as coisas significam outras coisas, é a chamada dimensão espiritual.
O sentido espiritual, por sua vez, tem três subdivisões. Numa primeira abordagem, descobrimos que as coisas do Antigo Testamento significam e antecipam, em algum grau, as coisas do Novo Testamento. Neste primeiro momento, encontramos, então, o sentido alegórico – as coisas do Antigo Testamento são prefigurações, alegorias, daquelas do Novo Testamento. É assim que, por exemplo, o sacrifício de Isaac é prefiguração do sacrifício de Jesus Cristo, e a travessia do Mar Vermelho é prefiguração do batismo e da própria ressurreição de Cristo.
Num segundo momento, encontramos, nas histórias e ocorrências das Escrituras, pistas para o nosso próprio comportamento. Dar a outra face, perdoar, como Jesus mandou; e mais, rezar pelos seus algozes, como Jesus fez. Estas coisas são sinais de outras coisas, que são aquelas obras que, moralmente, devemos fazer, se quisermos seguir o caminho de Jesus.
Num terceiro momento, notamos que as coisas descritas e apresentadas pelas Escrituras, descrevendo a glória de Deus para os seres humanos, são sinais de outras coisas, ou seja, da glória futura que esperamos um dia viver em Deus, com Jesus. Assim, por exemplo, a ceia eucarística é sinal do banquete eterno que um dia teremos na Jerusalém celeste, ao lado de Jesus e com a Igreja triunfante – sentido anagógico. Assim, a páscoa dos hebreus no Egito é alegoria da ceia eucarística do Cristo, e esta, anagogia do banquete eterno na Jerusalém celeste. Repetir o gesto eucarístico é a determinação moral de Jesus para nós, de repartir fraternalmente o pão até que Ele volte.
Todos os sentidos espirituais fundam-se sempre no sentido literal; as Escrituras não são desencarnadas. As palavras da Revelação são, por assim dizer, a carne que Deus utiliza para dar corpo à sua Revelação – como diríamos por analogia à carne com que ele se fez homem e habitou entre nós. As Escrituras Santas têm, pois, uma dimensão material, como que sacramental, que fundamenta e lastreia seu espírito.
E o sentido literal? Ele tem várias dimensões também? Sim, responde São Tomás. Do mesmo modo que os escritos humanos em geral, as Escrituras também têm uma riqueza de sentidos materiais que não se excluem. Quando as Escrituras falam figuradamente, o sentido literal é o figurativo, não o estrito. Por exemplo, quando Jesus chama Herodes de raposa, o sentido literal é o da figura de linguagem (metáfora) – ele é ladino e astucioso como uma raposa. E não que Herodes é um animal da espécie “Vulpes vulpes”. Não podemos confundir a prevalência do sentido literal com fundamentalismo bíblico.
Assim, São Tomás passa a responder às objeções. À primeira objeção, aquela que nega a multiplicidade de sentidos das escrituras em nome da necessidade de univocidade, de segurança na Revelação, São Tomás nos mostra que a nossa estreiteza não pode condicionar a largura de Deus: os equívocos de compreensão na relação do ser humano com a Revelação são inevitáveis, mas não insuperáveis. Mas não se resolvem os potenciais desentendimentos estreitando a própria Revelação em sua riqueza polissêmica. São Tomás não tem medo da profundidade de Deus; mas também não tem medo de buscar critérios de inteligibilidade para superar equívocos, porque ele confia na razoabilidade da Revelação e na verdade de Deus. Estes critérios são os seguintes: a) Todos os sentidos das escrituras fundam-se em um, o literal (“Omnes sensus fundentur super literalem”). 2) não se pode interpretar a Revelação às tiras; sempre há uma palavra de Deus em outro lugar, capaz de esclarecer uma eventual ambiguidade gerada pela polissemia de um determinado trecho das Escrituras. O Catecismo da Igreja Católica, aprofundando os ensinamentos de São Tomás, nos orienta a “respeitar o conteúdo e a unidade de toda a Escritura” (§ 112), ler as Escrituras “no interior da tradição viva de toda a Igreja” (§ 113) e respeitar a chamada “analogia da fé”, ou seja, a coerência, a coesão que as verdades de fé guardam entre si e com todo o projeto de Deus (§ 114). É assim, pelo bom uso da razoabilidade (e não pela simplificação tosca), que as incompreensões e os dissensos podem ser superados.
A segunda objeção diz respeito à menção que Santo Agostinho faz às dimensões de história, de analogia e de etiologia, além da dimensão alegórica, das Escrituras. Ora, São Tomás nos esclarece que os sentidos histórico, etiológico e analógico pertencem ao sentido literal, e são, portanto, um pressuposto a ser considerado antes mesmo de mergulhar no sentido espiritual.
Por fim, na última objeção, São Tomás nos lembra que o sentido parabólico está inserido no sentido literal. Quando Jesus nos conta, por exemplo, a parábola do semeador, o sentido literal não é a de que saiamos por aí a jogar sementes no campo, mas, como o próprio Senhor nos explica, que acolhamos a palavra de Deus e a façamos frutificar em nosso coração. Assim, o sentido literal de uma parábola é o metafórico, não o imediato. Se a Bíblia fala, por exemplo, em “braço de Deus”, faz uma metáfora entre o Seu poder infinito e um órgão corporal humano. Mas não quer que acreditemos toscamente que Deus tem braços.
Por fim, São Tomás nos afirma com simplicidade a inerrância bíblica, assegurando que “nunca pode haver falsidade no sentido literal das Escrituras”. Sim, desde que leiamos com razoabilidade, atentos às orientações que a Igreja nos dá, e que ele tão bem sistematiza. Este artigo está muito bem refletido no Catecismo da Igreja Católica, § 109 a 119.
Acabamos, em cerca de um mês, a leitura da questão 1 da parte 1 da Suma. Neste ritmo, levando em consideração que a Suma teológica se compõe de 512 questões escritas por São Tomás, mais 99 questões suplementares escritas por discípulos seus, acabaremos a leitura proposta da Suma em cerca de 51 anos. Considerando que São Tomás morreu com cerca de 47 anos, tendo escrito centenas de obras teológicas além da Suma, numa época em que sequer havia as impressoras de Gutemberg, ficamos ainda mais impressionados com ele. Mas não vamos desanimar!
24 de outubro de 2020 at 21:30
Obrigado
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