Na primeira parte deste artigo, vimos a importância de admitir a argumentação racional em matéria de fé, e como isto evita que toda a questão religiosa se resolva, no limite, como uma questão de poder e submissão. Admitir a razoabilidade da fé significa acreditar que a relação do ser humano com Deus não se limita a uma questão de poder e submissão, de aceitação cega de conclusões irrazoáveis. Neste artigo São Tomás consegue, a um só tempo, esclarecer o papel da razão na relação de fé, e defender que a relação de fé não se limita a uma questão de razão. A relação de fé está fundamentada num dom de amor que ultrapassa a inteligência humana, mas a respeita e acolhe perfeitamente no âmbito desta mesma relação. Eis aí uma descrição equilibrada e corajosa da fé e de sua ciência.

São Tomás não duvida da retidão da Revelação do Deus verdadeiro. Ele criou a razão humana, criou o mundo e concedeu a Revelação, por isto não pode haver verdadeira contradição entre estes três aspectos da criação. Não há, para São Tomás, nenhum motivo para que temamos debater racionalmente, a partir dos artigos de fé, não somente com seus objetores, quanto com aqueles que, compartilhando a condição de crentes, desejam entender melhor a fé e pautar sua vida por ela. São convidados a entrar e a trazer seus corações, seus intelectos e suas perplexidades, para entender e querer em conformidade com a inteligência e o querer divinos.

Vimos, no texto anterior, quais são as principais objeções à argumentação racional na ciência teológica. A primeira objeção se fundamentava em duas citações, Santo Ambrósio (que exortava: “deixe de lado a argumentação quando procura a fé”) e o Evangelho de São João (20,31)que lembra que “estas coisas foram escritas para que creiais”.

Agora, depois de demonstrar que é próprio de qualquer ciência raciocinar a partir dos seus princípios para demonstrar as respectivas consequências, e é próprio das ciências mais elevadas no seu respectivo campo debater contra os refutadores dos seus princípios, como vimos no nosso texto anterior, São Tomás pode responder com simplicidade e objetividade a esta objeção. Ele nos diz, simplesmente, que de fato não cabem argumentos nem raciocínios para provar os próprios princípios da fé, que são os artigos revelados. A razão é chamada, na ciência teológica, para extrair, a partir dos princípios revelados, as respectivas consequências teóricas e práticas. Mas não para buscar os fundamentos para os próprios artigos de fé revelados – a sua aceitação é sempre um dom da graça divina.

Neste ponto, vale lembrar que, como a ciência teológica é considerada a ciência mais elevada, cabe a ela também refutar as objeções a seus princípios, o que é diferente de buscar fundamentá-los racionalmente para que sejam aceitos por terceiros. Não se pode provar um artigo de fé pela simples razão humana. Mas, uma vez que a Revelação é a própria Verdade, podemos estar seguros, com São Tomás, de que qualquer raciocínio de refutação a um artigo de fé é sempre falso, porque é impossível à razão provar contra a verdade. Mesmo que não saibamos em determinado momento qual é o erro do refutador, podemos estar seguros de que este erro existe e pode ser refutado – se já não foi – pela Sacra Doutrina Católica.

A segunda objeção diz respeito à conveniência do uso da razão humana e do argumento de autoridade na Sacra Doutrina Teológica. Quanto à conveniência do uso da razão, já debatemos bastante. São Tomás nos lembra, neste artigo, que é necessário integrar a razão humana na fé, que a eleva na graça sem jamais violentá-la, pois, como ele mesmo costuma dizer, “a graça não tolhe, mas aperfeiçoa a natureza”. Não existe, pois, oposição entre elas. Tratemos, então, do chamado “argumento de autoridade”.

O argumento de autoridade é quando se propõe alguma coisa como verdadeira só porque alguém muito importante falou. É, por exemplo, quando dizemos que a teoria da relatividade é verdadeira porque foi Einstein quem a desenvolveu, e Einstein era um físico muitíssimo inteligente e preparado. Assim, num “argumento de autoridade”, propomos esta teoria como verdadeira só por causa da autoridade de seu propositor, já que não sabemos proceder às demonstrações físicas e matemáticas necessárias à sua correta fundamentação.

Este é um argumento muito fraco, fraquíssimo mesmo, diz São Tomás. Na verdade, de regra, é o mais fraco de todos os argumentos, como dizia Boécio, citado aqui por São Tomás. Isto pode ser uma surpresa para quem imagina os debates medievais como dogmáticos e autoritários. Eles não eram.

Há, porém, uma distinção a ser feita aqui: se a autoridade humana é sempre a mais fraca das fundamentações para um argumento, a autoridade divina é a mais forte de todas as fundamentações, porque deus não se engana nem nos engana. Não vamos discutir agora nem a existência de Deus nem os critérios razoáveis de identificação de uma Revelação verdadeira, aos quais São Tomás retornará no momento oportuno. Por enquanto basta admitir que, se Deus existe, e se ele verdadeiramente se revela, e se somos capazes de discernir entre revelações falsas e verdadeiras, então esta Revelação verdadeira fundamenta-se na autoridade insuperável de deus e é, portanto, confiabilíssima. A inteligência humana falha, a honestidade humana é duvidosa. Mas a inteligência divina não falha, e obviamente sua confiabilidade está acima de toda prova. Por isto, o argumento de autoridade divina, ao contrário da humana, é fortíssimo.

Mas São Tomás nos lembra que esta insuperabilidade do argumento de autoridade divina está restrita às fontes primárias da Revelação, tais como recebidas canonicamente na igreja. Somente, portanto, os escritores bíblicos são inerrantes. Os demais escritores eclesiásticos são autoridades próprias e adequadas, mas devem ser tomados com todos os limites e cautelas com que se tomam os argumentos de autoridade. E até mesmo as autoridades em ciências humanas, naturais e filosóficas podem ser recebidos como autoridades em suas respectivas áreas, naquilo que a razão humana pode alcançar, mas apenas como autoridades “estranhas e prováveis”.

E é assim que São Tomás nos presenteia com um verdadeiro tratado metodológico sobre o uso do argumento de razão e o argumento de autoridade na ciência teológica.