Há um ditado conhecido, muito popular hoje em dia, que diz: “religião é como futebol, não se discute”. Será mesmo?
Tomás trará, agora, uma questão exatamente sobre isto. Qual a metodologia da ciência teológica? Ela é um mero dogmatismo, fundamentado na imposição dos artigos de fé revelados, sem discussão? Discutir e argumentar racionalmente sobre a fé é algo contraditório? A fé deve excluir a razão humana do crente, deve ser aceita sem questionamentos, deve ser seguida sem que a busquemos compreender?
É esta a hipótese que São Tomás traz aqui nesta questão. Ele propõe o seguinte mote: “parece que a doutrina sagrada não envolve a argumentação”. Ou seja, parece que o debate, a fundamentação razoável, a discussão lógica, estão excluídas do método da ciência sagrada. O que restaria, então? Apenas a pura e simples submissão aos artigos de fé e sua imposição sem discussão. A questão da relação da pessoa humana com Deus se resolveria, em última instância, numa questão de poder, não de razão.
Isto parece muito com a posição geral assumida na nossa contemporaneidade, onde as questões sobre as nossas próprias crenças são resolvidas, de forma geral, pela formação de grupos militantes, pelas estratégias de tomada e permanência no poder, pelo voto ou pela falta dele, ou, em última instância, pela violência, seja do professor contra o aluno que não concorda com suas ideologias e é reprovado por isto, seja pelos “militantes sociais” que ocupam e depredam prédios públicos ou privados, seja pelo suicida que se recusa a se conformar com o que ele julga ser um mundo que não o merece, seja terrorista que se explode – e explode a muitos circunstantes junto com ele – para punir os infiéis. Isto tudo pode decorrer – e decorre – desta primeira hipótese, a de que as nossas crenças primordiais e mais profundas não estão sujeitas a argumentação, mas apenas à aceitação e imposição.
Como primeiro argumento em favor da hipótese inicial de que o método, a ciência sagrada, não envolve argumentação, São Tomás cita um antigo escritor eclesiástico, Santo Ambrósio, que dizia: “Deixe de lado a argumentação quando se procura a fé”. E cita um trecho das Escrituras (Jo 20, 31), que declara: “estas coisas foram escritas para que creiais”. Assim, o objetivo da Revelação é levar a crer, não a debater. É um argumento forte.
O segundo argumento é o seguinte: há duas formas de argumentar; pela autoridade ou pela razão. Ora, sabemos todos que o argumento de autoridade é o argumento mais fraco: não é somente porque fulano falou alguma coisa que isto é verdade. Por mais que fulano seja um doutor, um professor ilustre com muitos títulos e publicações ou mesmo um grande santo. Assim, usar de argumento de autoridade para debater a fé rebaixaria a dignidade da fé. Por outro lado, o argumento de razão parece tirar o próprio mérito da fé; segundo Gregório, que São Tomás cita, não tem mérito a fé onde a razão fornece prova. Assim, excluída a possibilidade de argumentar pela autoridade ou pela razão, estaria excluída qualquer possibilidade de debater a fé. Mais um argumento forte.
Agora, São Tomás traz um argumento em sentido oposto, e é um argumento de autoridade: um trecho das sagradas Escrituras. Ele cita o trecho das Escrituras que recomenda que o Bispo “seja capaz de ensinar a sã doutrina e refutar os que o contradizem” (Tt 1,9). Ora, se a própria Revelação divina está recomendando ao Bispo – que é o pastor maior do povo de Deus – que deve ser capaz de ensinar e refutar, então a argumentação em matéria de fé é admitida pela própria Revelação. As Escrituras não orientam o Bispo a impor a fé e desprezar ou combater os que a contestam, mas a ensiná-la e refutar os contraditores. Com este argumento de peso, São Tomás tem espaço para delimitar o papel da razão, da argumentação, do debate no campo da ciência da fé. Em suma, São Tomás está dizendo que, segundo as Escrituras, a fé não exclui a razão.
E São Tomás passa a responder.
A primeira distinção que São Tomás propõe, para esclarecer esta questão, é entre princípios e consequências, no campo científico – e filosófico. Ele lembra que não é próprio da ciência debater para provar seus princípios, mas partir dos princípios para provar suas consequências. É fácil entender isto: quando um engenheiro está calculando a estrutura de um prédio, ele não fica debatendo sobre a natureza dos números e das operações matemáticas que usa. Ele os aceita como princípios da sua ciência, e, por meio de cálculos e raciocínios, estabelece as exatas medidas da estrutura que suportará o edifício. É isto a que São Tomás alude, quando ele diz que as ciências em geral não argumentam para provar seus princípios, mas, valendo-se destes, raciocinam para demonstrar as consequências que racionalmente derivam dos princípios recebidos.
A demonstração dos princípios de uma ciência, diz São Tomás, sempre cabe à ciência que lhe é superior, e que lhe fornece os princípios. No caso do engenheiro que citamos há pouco, as refutações à teoria dos números ou à estrutura das operações matemáticas que ele usa não cabem à própria engenharia, mas à ciência matemática, que fornece à engenharia os princípios aritméticos que esta última, como ciência derivada, usa. Assim, a matemática pode debater os princípios da aritmética contra quem os impugna. Mas há princípios que a matemática supõe, que ela recebe da filosofia, e que não lhe cabe debater ou argumentar. Digamos que alguém impugne a própria capacidade do ser humano de quantificar o abstrato, ou mesmo de conhecer e realizar operações matemáticas, ou ainda de chegar a resultados válidos com tais cálculos. Alguém que impugne o princípio da identidade, por exemplo, ou da não-contradição, levaria a discussão para além das competências da própria matemática. Caberia a um filósofo debater e disputar, quando tais impugnações chegarem aos primeiros princípios da lógica. E, por fim, quando se chega a princípios tão elevados como os da identidade e da não-contradição, já não se pode mais prová-los por dedução (o que pressuporia que houvesse algum princípio mais alto dos quais alguém pudesse deduzi-los), mas apenas afastar as impugnações dos que os rejeitam, demonstrando a inconsistência dos seus argumentos. Para defender o princípio da identidade, por exemplo (aquele princípio que diz que nada pode ser ao mesmo tempo igual e diferente de si mesmo), um filósofo pode demonstrar que, se este princípio não existir, então a consequência é fatal para o próprio debate – elimina-se a própria possibilidade de filosofar ou de desenvolver a ciência, num mundo em que as coisas já não fossem necessariamente iguais a si mesmas.
Assim, se à filosofia mais elevada, que é a metafísica, cabe provar os princípios das ciências derivadas e refutar as impugnações aos seus próprios princípios, sem possibilidade de demonstrá-los pela própria falta de princípios anteriores dos quais derivá-los, também à teologia, por não conhecer ciência superior (já discutimos isto nos textos anteriores), cabe 1. refutar as impugnações aos seus próprios princípios e 2. estabelecer, por derivação racional, as consequências que decorrem dos princípios que adota. Mas como e com quem se faz este debate, de modo a evitar que as questões religiosas venham a ser resolvidas por meios estranhos à razão?
São Tomás explica que se pode debater com três interlocutores, e em três medidas diferentes.
Em primeiro lugar, debatemos com quem aceita a Revelação em algum grau, para: a) demonstrar a consistência e interdependência de todos os pontos da Revelação e a necessidade racional de, uma vez aceitando um ponto, aceitar os demais; e/ou b) demonstrar as consequências racionais que decorrem da aceitação dos artigos de fé revelados, de modo a extrair deles o que se pode razoavelmente concluir, e afastar as conclusões que não são razoáveis – e que São Tomás chama de “heréticas”. Esta é, portanto, um nível de debate interior à comunidade dos crentes.
Em segundo lugar, existe o debate externo, estabelecido com quem não aceita a Revelação em nenhum ponto – rejeita todos os artigos de fé. Neste caso, diz São Tomás, não há meio de lhe provar com razões os artigos de fé – porque a fé não é o resultado de um raciocínio, mas uma virtude infusa por graça divina. Não se deve, pois, argumentar, neste caso. Mas há maneiras de, racionalmente, refutar as objeções à fé levantadas por estranhos à comunidade dos crentes. Porque, uma vez que a Revelação provenha realmente de Deus verdadeiro, é impossível ao não-crente demonstrar o contrário da fé. Debate-se para desqualificar racionalmente as objeções à fé. E São Tomás afirma categoricamente que “é impossível demonstrar o contrário da verdade”. Portanto, para São Tomás, todo argumento contrário à fé, por maior aparência de consistência que tenha, sempre esconde, em algum cantinho, uma falha que o torna refutável. Tomás confia muito, e sempre, na razoabilidade da fé.
Portanto, para Tomás, é uma perda de tempo irracional argumentar, por exemplo, usando um argumento da Bíblia para convencer, digamos, um ateu sobre a verdade de um artigo de fé . Se ele rejeita a própria Bíblia, não se deve usá-la para debater com ele. Em qualquer discussão, o ponto de partida é sempre a) aquilo que o adversário concede, ou aceita, implícita ou explicitamente, formando o terreno comum do debate, ou b) a defesa daquilo que ele expressamente impugna do quanto não concede.
Mas é claro que São Tomás está sempre presumindo a boa-fé dos debatedores: por exemplo, se um ateu usa a lógica contra um crente, para impugnar um artigo de fé, ele não pode, depois, negar os princípios da identidade e da não-contradição, quando forem usados pela parte crente para responder à impugnação. Se ele resolve impugnar a Bíblia, dá espaço para que o crente use, se for necessário, inclusive a própria Bíblia para afastar a impugnação externa.
Trataremos do restante da resposta no próximo texto.
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