Tendo estabelecido que a Revelação é essencial para a nossa salvação, e que é, ademais de necessária, oportuna; tendo estabelecido, ademais, que é possível ao ser humano construir uma ciência a partir da Revelação, e mais, que esta ciência teria unidade, seria a um só tempo teórica e prática, que ela tem uma importância e uma nobreza maior do que a das outras ciências e que tem a natureza de um saber fundante e estruturante, isto é, de uma sabedoria (sophia), da qual nós participamos por amizade ao autor da Revelação, São Tomás vai tratar agora do objeto e do método desta ciência que ele chama de “sagrada doutrina”, e que nós chamamos de “teologia revelada” (em contraste com a teologia filosófica [ou teodiceia] que não envolve o estudo da Revelação).

Não é pouco estabelecer a possibilidade, e mesmo a necessidade, de abordar o dado revelado com uma abordagem científica. Significa defender a razoabilidade da fé, a capacidade humana de pensá-la, debatê-la e sustentá-la por argumentos e fundamentos de razão. Isto significa que os assuntos de religião podem dar origem a debates e diálogos, e não a guerras e atos de terrorismo. Numa época como a nossa, em que mesmo os debates acadêmicos são marcados pela militância, pela categoria da “fobia” e da guerra cultural, não há como deixar de admirar a abertura e a coragem de um homem como São Tomás. O que ele está dizendo, portanto, ao defender a razoabilidade da religião, é que ele entende que, em matéria de teologia, o recurso ao debate é o caminho natural, não o recurso ao confronto, que é próprio de quem tem crenças irracionais, fanáticas, irrazoáveis. Este não é o caso da religião de São Tomás.

Mas São Tomás faz isto tudo sem esquecer que a razão não pode jamais alcançar a Deus pelos seus próprios esforços. Ninguém chega a Deus sem Deus, e neste caminho a iniciativa é toda de Deus. Ou é assim, ou o que se encontrou não é Deus, mas alguma criação da própria mente humana.

É exatamente este o debate estabelecido neste artigo 7 da questão 1. Qual a relação entre uma ciência de Deus, como é a teologia revelada, e o próprio Deus? Qual o assunto de uma ciência assim? Pode o ser humano colocar Deus como objeto de uma ciência?

Já discutimos, em textos anteriores, a diferença entre a concepção aristotélico-tomista de ciência como virtude intelectual, e a concepção contemporânea de ciência como técnica de dominação do objeto. Neste sentido, o sentido contemporâneo, Deus jamais será objeto de ciência, porque, por definição, Deus jamais será um objeto a ser dominado cientificamente.

Em todo caso, a hipótese inicial de São Tomás, aqui, é exatamente é a de que “parece que Deus não é o assunto desta ciência”. E logo aqui existe uma observação interessante a fazer.

No texto em latim, a hipótese de São Tomás é escrita assim: “Videtur quod Deus non sit subiectum huius scientiae”. Poderíamos traduzir “subjectum” aqui como sujeito, no sentido que contemporaneamente damos ao termo? Isto resolveria todos os nossos problemas: se esta ciência teológica tem Deus como sujeito, então ela não é uma ciência relacionada com a razoabilidade humana, mas com a inteligência divina, e está, afinal, fora de nosso alcance. Quem pensasse assim certamente imaginaria que toda a parte de reflexão, especulação e sistematização da doutrina sagrada estaria reservada a Deus, que nos faria participar de sua ciência apenas pela recepção dogmática do quanto ele nos resolvesse revelar. Nossa inteligência não poderia participar da razoabilidade da fé, mas apenas receber e obedecer cegamente, e a única posição possível para um ser humano, neste caso, seria a de total submissão cega e irrefletida àquilo que, mesmo tendo sentido em si mesmo na inteligência divina, estaria para sempre retirado da inteligência humana. Não é isto que São Tomás defende. Falamos, aqui, de uma visão da revelação como um grande convite à inteligência humana, de uma fé que não somente pressupõe, mas que se dirige e se esclarece exatamente na reflexão do ser humano, à luz da graça. É uma fé que interpela, que conduz e guia, que eleva, não uma fé que submete, cega e escraviza.

Portanto, quando São Tomás usa o termo “subjectum”, aqui, ele o está usando no mesmo sentido com que a língua inglesa fala do “subject-matter” de uma ciência – em nossa linguagem, poderíamos usar então a palavra “assunto”, como os estudantes a usam – qual é o assunto desta disciplina? Isto resgata um velho sentido da palavra “assunto”, como particípio do verbo “assuntar” – hoje em desuso na língua coloquial – mas cujo sentido principal é atinar, prestar atenção, refletir sobre alguma coisa. Isto evitaria a passividade implícita na palavra “objeto”, que não existe na palavra “sujeito”. Colocar Deus na qualidade de “objeto” tem uma carga de inconveniência que a palavra “assunto” pode evitar. Então, nossa pergunta aqui é – em que medida Deus pode ser o assunto de uma reflexão teológica?

São Tomás, então, admite, para iniciar o debate, a hipótese “parece que Deus não é o assunto desta ciência”. E apresenta dois argumentos em defesa desta hipótese. O primeiro argumento é o seguinte: qualquer ciência tem como ponto de partida o conhecimento daquilo que é o seu assunto. Ora, é impossível saber, como ponto de partida, por conhecimento humano, o que (ou quem) é Deus. A essência de Deus, por definição, ultrapassa a capacidade humana de conhecimento. Logo, ele não pode ser o assunto desta ciência.

O segundo argumento acresce que o assunto de uma ciência abrange tudo de que ela trata. Ora, as Escrituras tratam de muitas coisas além de tratar de Deus. De fato, as Escrituras tratam das criaturas, tratam de costumes humanos, de povos, etc. Assim, Deus não é o assunto desta ciência.

Em seguida, São Tomás traz o seu argumento contrário à tese inicial: ele diz que a ciência se define pelo o assunto que nela é tratado de modo principal. Ora, Deus é o assunto principal desta ciência, pois é chamada teologia ou tratado de Deus. Logo, Deus é o objeto [subjectum] desta ciência.

Na sua resposta, São Tomás nos lembra que a ciência é uma virtude intelectual – e, portanto, tem a natureza de um hábito. O que distingue um hábito do outro é o seu objeto [subjectum], vale dizer, o que distingue a coragem da temperança é que o objeto da coragem é o mal presente à razão, enquanto o objeto da temperança é o bem presente aos sentidos. Ora, nas ciências ocorre a mesma coisa: por exemplo, o assunto da óptica são as cores, e todas as coisas na medida que são coloridas. Ora, o assunto da ciência teológica é Deus e todas as coisas na medida que lhe dizem respeito. Os princípios da ciência teológica estão contidos nos artigos de fé revelados, e o assunto dos artigos de fé é Deus, e todas as coisas em relação com ele. Poderíamos dizer, metodologicamente, que todas as coisas são objeto material da teologia, tais como contidas no seu objeto formal, que é a relação entre elas e o Deus que se revela à fé.

Respondendo então aos argumentos iniciais, São Tomás concede que, de fato, nunca poderemos conhecer a essência divina; isto ultrapassa a capacidade do intelecto humano. Mas pelos seus efeitos, os seres humanos podem, pela graça, chegar a conhecer alguma coisa da causa divina. Não é diferente em algumas disciplinas filosóficas: não podemos provar os princípios mais altos do pensamento, que são o princípio da identidade e da não contradição. Mas certamente podemos conhecê-los a partir das suas consequências, e confirmar sua consistência. Assim, também, em certa medida, podemos conhecer, pela meditação dos efeitos da ação divina, e assistidos pela divina graça, alguma coisa daquilo que a divina essência é. Quanto ao segundo argumento, le lembra que os outros assuntos sobre os quais se debruça a teologia, como as criaturas, os costumes humanos, etc, ela os toma apenas como referidos a Deus, e não em si mesmos nem como se fossem parte, ou espécies, ou acidentes do próprio Deus. São apenas objetos materiais, a serem estudados pela teologia sob o viés de sua ordenação a Deus.

Assim, neste artigo, tratamos do assunto da teologia. Nos próximos, trataremos do seu método e da sua linguagem.