Este artigo quer debater a verdadeira natureza do saber teológico – é uma ciência como todas as outras, ou tem a natureza sapiencial?

Esta discussão resgata o velho sentido da expressão “filosofia”, ou seja, a amizade com a sabedoria, que deu origem à palavra grega “philos sophia”. De fato, segundo uma velha tradição, aqueles homens inquietos, quando buscavam a sabedoria, tinham a intuição de que não poderiam se identificar como sábios, mas como simples amigos, amantes, da sabedoria.

Uma das dificuldades, ao estudar a Suma Teológica, é a de ser introduzido a uma terminologia que não nos é familiar. Esta distinção entre a sabedoria ou a ciência, por exemplo, será retomada na parte I-II da Suma, questão 57, art. 2º.

Para nós, pessoas do século XXI, é difícil vislumbrar a diferença entre a ciência, a sabedoria, a prudência, a arte e a técnica; além disso, nós tendemos a pensar na arte a partir da emoção – portanto, como expressão daquilo que São Tomás chamará de “paixões” – e imaginar a ciência e a tecnologia como indistinguíveis, na prática. Colocamos a sabedoria no campo das intuições para o bem viver – portanto, além da racionalidade – e colocamos a prudência no campo da esperteza e do cálculo, a ponto de imaginar que um pouco de covardia é mais prudente do que a possibilidade do martírio. Mas as coisas não eram assim na antiguidade clássica, nem no pensamento escolástico mais reto. Uma coisa que chama a atenção, e que difere profundamente de nossa visão de hoje, é que tanto Aristóteles (por exemplo, no livro VI da sua Ética a Nicômaco) quanto São Tomás falam de “virtudes intelectuais”, elencando entre elas a ciência. Ora, hoje em dia dificilmente colocaríamos a ciência como uma virtude, mesmo intelectual. Mas, se pensarmos bem, veremos que eles não estavam enganados: um mau engenheiro, digamos, pode construir um edifício que venha a ruir, e com isto causará a morte de muitas pessoas. A ciência, portanto, tem um lado virtuoso, como serviço ao outro. Mas não é somente disso que os antigos falavam quando qualificavam a ciência como virtude: eles queriam nos chamar a atenção de que o ser humano foi feito para saber, e, portanto, a ciência é um aperfeiçoamento das nossas potencialidades intelectuais. É neste sentido que ela é virtude, e a ignorância é uma imperfeição indesejável.

Também poderíamos dizer que, em sentido amplo, a sabedoria é um gênero no qual as ciências estão contidas como espécies. Mas há, também um sentido especial de sabedoria, como ciência dos princípios, dos fundamentos. Neste sentido, ela não é gênero, mas uma espécie elevada – a mais elevada, diríamos – de ciência.

Para o que nos interessa aqui, São Tomás põe uma hierarquia entre as virtudes intelectuais da ciência e da sabedoria. A ciência seria aquele conhecimento que, a partir de princípios recebidos, desenvolve seu conhecimento por raciocínio, perquirindo as consequências destes princípios num determinado campo de saber humano. A sabedoria, por seu turno, busca as razões mais elevadas – questiona e investiga as próprias causas, os princípios mais elevados, e assim lança os fundamentos para as ciências e seus raciocínios. A pergunta, aqui, portanto, é pela natureza da Sagrada Doutrina, ou ciência teológica. Ela é uma ciência (e portanto um saber setorial e derivado) ou uma sabedoria (e portanto, um saber profundo e estruturante)? A hipótese inicial, como já sabemos, é sempre a mais adversa possível ao que nós imaginaríamos que seria a resposta de São Tomás. Neste caso, ele começa com a seguinte hipótese: “parece que a doutrina sagrada não é uma sabedoria”.

Bom, já vimos como São Tomás defendeu que a doutrina sagrada é uma ciência. O questionamento aqui é o seguinte: em que degrau da hierarquia das ciências ela está? É uma ciência derivada, parcial, setorial, ou é uma sabedoria, fundante e estruturante do próprio saber humano?

São Tomás dá três argumentos para a sua hipótese adversa; 1. a sacra doutrina não é uma sabedoria, mas uma mera ciência derivada, porque recebe seus princípios de outro lugar – ou seja, da revelação divina. Ora, nenhuma doutrina que receba seus princípios de outra pode ser propriamente chamada de sabedoria. 2. É próprio da sabedoria fornecer e provar os princípios das outras ciências. Hoje, diríamos que a sabedoria tem uma função gnoseológica. Mas a sacra Doutrina não prova nem fornece princípios às demais. Portanto, não é uma sabedoria. E 3. A sacra doutrina é recebida e desenvolvida por estudo. Mas, segundo as Escrituras, a sabedoria é um dom do Espírito Santo – Isaías 11, 2. Logo, a teologia (que pode ser ensinada e aprendida humanamente) não é uma sabedoria.

Em sentido contrário à sua hipótese inicial, São Tomás aduz a autoridade das Escrituras, mais especificamente, Dt 4, 6: “isto vos tornará sábios e inteligentes aos olhos dos povos”.

São Tomás então responde, com firmeza, resgatando a dignidade da teologia revelada: é a mais alta das sabedorias, não só em comparação com as outras espécies de sabedoria ou de ciência, mas absolutamente. E ele lembra que alguém merece tão mais o título de sábio quanto mais considera as causas mais elevadas, e quanto mais ordena e julga as causas inferiores. Assim é, segundo a analogia de São Tomás, que o arquiteto é considerado mais sábio que o mestre de obras e os pedreiros, porque compete-lhe ordenar e julgar o trabalho destes últimos. E São Tomás retira este exemplo, do arquiteto em relação aos pedreiros, das escrituras, especificamente da 1ª Carta de São Paulo aos Coríntios, capítulo 3, versículo 10.

Ele lembra, também, que a sabedoria, no que diz respeito à vida humana, é o correto direcionamento do ser humano ao seu fim mais elevado – esta forma de inteligência prática é chamada, como lembra São Tomás, de prudência. Assim, a prudência pode com toda justiça ser chamada de sabedoria prática.

Assim, quem considera a causa absoluta do universo, que é Deus – que é também o fim último do ser humano – pode, sem dúvida, ser chamado de sábio; se o faz chegando ao conhecimento de Deus que é possível pelo esforço da inteligência humana e pela contemplação das coisas criadas (Romanos 1, 19 – o que se pode conhecer de Deus lhes é manifesto), como fazem os chamados “filósofos”, quanto, com mais razão, doutrinamos sobre aquilo que somente Deus conhece de si mesmo e nos revela. Não há dúvida, para São Tomás – e ele demonstrará mais tarde – de que o ponto de partida mais elevado para a sabedoria humana é aquele que parte do conhecimento que Deus tem de si mesmo – e que portanto não pode ser descoberto por nós, se não nos for revelado.

A mim parece que esta concepção de sabedoria teológica realiza completamente aquilo que os antigos descreviam sob o nome de “filosofia”: amizade com a Sabedoria. A amizade é um conhecimento que não me dou, que não alcanço sozinho, que depende da minha relação com outro. Porque só posso ser de fato amigo quando há um outro com quem me relacionar, e quando ele abre para mim a sua intimidade. Neste sentido, a teologia revelada, ou sacra doutrina, talvez merecesse com mais justiça o nome de filosofia do que aquilo que tradicionalmente chamamos assim.

Quanto aos argumentos, São Tomás os responde assim: Quanto ao primeiro, que nega à sacra doutrina a condição de sabedoria, porque recebe seus princípios de outro lugar, a saber, da Revelação, São Tomás lembra que receber os princípios da Revelação significa recebê-los diretamente da fonte acima da qual não há outra, e que é a fonte de toda a nossa ciência e filosofia, em última instância. Portanto, receber seus princípios de Deus é exatamente o que a qualifica como a sabedoria por excelência – já que é Deus o princípio e o fim, direta ou indiretamente, de todo saber.

Quanto ao segundo, São Tomás lembra que, uma vez que as ciências e a filosofia recebem seus princípios humanamente, de fato não cabe à teologia fornecê-los em primeiro lugar; a teologia não é a base das outras ciências, como São Tomás sabia melhor do que nós. Mas, como ciência nascida dos princípios insuperáveis da Revelação, cabe a esta sabedoria, a teologia, julgar os outros saberes e ciências, num diálogo em que a coordenação é sua. Se Deus é o autor da natureza e o autor da Revelação, não pode haver contradição real entre o dado revelado e o dado naturalmente obtido. Ora, a Revelação pressupõe e eleva a capacidade natural de perceber Deus – e, se esta capacidade natural é o que nos permite receber a Revelação e discernir sobre a razoabilidade do quanto revelado, é a revelação que nos permite verificar, por outro lado, quando a razão humana está querendo deificar a sua própria inteligência – este desvio tão contemporâneo de achar que a ciência de base humana é a resposta para todas as perguntas que o ser humano pode fazer. Este desvio já foi chamado de “cientificismo”, e é corrente em nosso século XXI.

Por fim, quanto ao terceiro argumento, São Tomás faz uma distinção entre a sabedoria existencial, que as Escrituras chamam de “dom do Espírito Santo”, e a sabedoria, digamos, “teorética”, que pode ser examinada e estudada em livros. A sabedoria existencial é a daquela pessoa que, por caminhar na virtude, é capaz de discernir prudentemente qual a maneira sensata de agir a cada momento. Esta pessoa é aquilo que Aristóteles chama de “spodaious”, a pessoa virtuosa, madura, cheia de prudência, e que é, por sua vida, medida de julgamento. A sabedoria como ramo de conhecimento é um pouco diferente – alguém pode atingir muitos graus acadêmicos, mestrados, doutorados e quejandos, sem ter a menor prudência em sua vida pessoal. Ou seja, sem ser sábio no sentido existencial. No caso da teologia, aqui discutido, estamos falando da sabedoria neste segundo sentido. Conhecemos muitas pessoas santas que muito pouco conheciam a sacra doutrina, enquanto conhecemos mestres e doutores em teologia que são autores de heresias horríveis e até de atos crudelíssimos.

Uma digressão final: o fato de que se está tratando aqui da teologia como sabedoria, sob o aspecto do conhecimento intelectual, não retira a importância de reconhecê-la como uma ciência sapiencial. A uma, porque o próprio São Tomás já nos demonstrou que a sagrada doutrina é, a um só tempo, teorética e prática. A duas, porque, mesmo em sua dimensão mais teorética, é o equilíbrio perfeito entre a graça da Revelação e o esforço humano de compreensão, que afasta a sagrada teologia de ser um fideísmo, desses que leva as pessoas ao fanatismo e faz abdicar de toda a razão humana, por um lado, ou de ser um frio intelectualismo, um racionalismo que quer chegar a Deus sem Deus, como as frias religiões racionais do iluminismo e do positivismo, por outro. Este equilíbrio se apresenta com um ajuste milimétrico de precisão em São Tomás!