Qual é a ciência mais importante? Esta é a pergunta que São Tomás nos propõe neste artigo. Se a fizéssemos hoje em dia, receberíamos respostas diversas, talvez girando em torno da tecnologia e da matemática. Creio que a computação, com seus ramos de desenvolvimento de hardware e de software, estariam muito bem classificadas numa pesquisa assim. Talvez as ciências biológicas, como a medicina de ponta e suas promessas de obter a imortalidade humana pela conjugação de drogas mais eficazes e implantes biônicos, ou de aperfeiçoar a seleção humana até chegar nos chamados “pós-humanos”, mais perfeitos do que nós. Ou, quem sabe, a sociologia e seus projetos utópicos de construir uma sociedade perfeita, onde todos fossem igualmente felizes, onde todas as escolhas fossem possíveis e onde ninguém magoasse ninguém. Ou a economia e suas promessas de fartura e riqueza para todos. Alguns mais intelectualizados talvez apontassem a filosofia contemporânea e sua capacidade de fazer questionamentos tão radicais e profundos que chegam mesmo ao ponto de paralisar a mente humana num redemoinho de ceticismo anarquizante. Mas muito poucos, raríssimos mesmo, ousariam apontar a teologia revelada como a ciência mais nobre e digna. Que benefícios a teologia trouxe para a humanidade, pensamos, senão fanatismo, guerras de religião e intolerância fundamentalista? Qualquer um que defendesse a nobreza e a dignidade da ciência teológica seria visto, pois, como um fanático obscurantista, talvez com sérios problemas de desajustes mentais ou morais.

Imaginamos que um dia a internet, (que é o símbolo tecnológico mais evidente de nossa esperança de criar, com nossa própria inteligência, um ser onipresente, onipotente e onisciente) terá resposta para todas as nossas perguntas. Mas, talvez, quando isto acontecer, já não saibamos nem sequer quais perguntas deveríamos fazer. Porque buscar as respostas é algo que pode ser feito a partir de esforços humanos. Mas saber as perguntas certas a serem respondidas, bem como chegar às respostas certas a estas perguntas, é algo que ultrapassa a capacidade humana.

Não resisto a fazer uma pequena digressão. Temos que conceder: não apenas algumas, mas todas as guerras da humanidade podem ser reduzidas, pelo menos do ponto de vista de causas remotas, a problemas teológicos. No entanto, isto nos deveria alertar para o fato de que o problema teológico é muito mais urgente e importante do que ousamos admitir. Se a questão teológica é causa (pelo menos remota) de todos os grandes conflitos que a humanidade já teve, desqualificar sua importância não diminui, mas antes multiplica a possibilidade de acontecerem novos – e mais graves – conflitos. Quando nós excluímos de antemão a possibilidade de examinar com a inteligência, e debater com a razão, os problemas teológicos mais profundos da humanidade, estes problemas não são eliminados; apenas são lançados no caldeirão daqueles problemas que se deve enfrentar com o poder da força bruta. Não é, portanto, a teologia quem causa os grandes conflitos humanos – é a teologia. E a má teologia é exatamente aquela que remete os questionamentos teológicos ao campo privado, enquanto remete os conflitos teológicos ao campo militar.

Nós, pessoas da contemporaneidade, quando defrontados com uma pergunta como esta de Tomás de Aquino, tendemos a responder que não, que a “doutrina sagrada”, ainda que pudéssemos nos relacionar com ela como se ciência fosse (e já discutimos isto nos comentários aos artigos anteriores a este), não é mais digna do que as outras ciências; na verdade, ainda que se pudesse conceder uma abordagem científica, na verdade ela seria a última das ciências, a menos importante de todas. Talvez um resquício de uma busca instintiva do ser humano pela superação, pela perfeição, que tende a ser superada pelo desenvolvimento tecnológico contemporâneo.

E as razões para isto, na nossa cabeça, são mais ou menos as mesmas que São Tomás usa como argumentos para a sua hipótese inicial de que a teologia revelada, mesmo quando se concede que pode ser uma ciência, é menos digna de que as outras ciências. As razões são as seguintes:

1. Uma ciência é tão mais digna quanto mais chegue a conhecimentos certos. Ora, as ciências tecnológicas partem dos princípios matemáticos e físicos e chegam a feitos práticos extraordinários, como todos os avanços que a vida moderna nos dá, no campo da computação, da saúde e da astrofísica, para citar alguns exemplos. A teologia revelada, ou sagrada doutrina, parte de artigos de fé, que são sujeitos a dúvidas e não são aceitos por todos. (As consequências disto foram debatidas por nós acima, neste texto). Logo, as outras ciências parecem claramente mais dignas do que ela.

2. Toda ciência inferior aproveita-se da superior. Por exemplo, a matemática e a física teórica fornecem os princípios da engenharia. Logo, aquelas são superiores a esta última. Ora, quando se lê livros de teologia, salta aos olhos que os teólogos usam as doutrinas de filósofos, de sociólogos, de psicólogos e assim por diante. Logo, usando a mesma lógica que se aplica à relação entre a engenharia, por um lado, e a matemática e a física por outro, a ciência que fornece princípios é sempre superior à que recebe. Logo, a teologia é inferior às outras ciências que lhe fornecem princípios.

Estabelecida a hipótese e seus argumentos, a impressão que eu tenho é que seria muito difícil para qualquer um de nós, hoje em dia, não concordar plenamente com São Tomás e encerrar a discussão. Reduzida a teologia a uma ciência de segundo ou terceiro nível, deixemo-la aí, para ser abordada por velhas piedosas, pastores e padres inescrupulosos ou supersticiosos ou pessoas diletantes de erudição inútil.

Mas São Tomás se depara com uma pedra no sapato: as Escrituras parecem conceder à ciência sagrada uma dignidade superior à de todas as outras ciências; e ele cita um trecho do Livro dos Provérbios, no qual a Sabedoria divina “envia suas criadas para anunciar”. São Tomás interpreta este texto no sentido de que, uma vez que a sabedoria divina é, por definição, superior à humana (e isto será debatido adiante, na própria Suma; por enquanto, vamos dar um crédito a São Tomás de que as coisas são assim mesmo), ela não extingue nem desconsidera as ciências humanas, mas vale-se delas como servas, como preparadoras de uma sabedoria mais elevada, a Revelação. Isto, a um só tempo, ao menos em tese, coloca Deus no seu justo lugar – o do sábio por definição – e demonstra um respeito divino pela ciência humana, que não é superada, mas ordenada pela sabedoria revelada. Ora, se Deus é o sábio por definição e é criador, sustento e fim de toda a realidade criada, não teria sentido que uma Revelação divina não fosse, ao mesmo tempo, respeitadora da inteligência criada e coroamento insuspeitado e absolutamente insuperável dos esforços humanos mais honestos. Afinal, não teria sentido que Deus não respeitasse aquilo que ele mesmo criou! Uma ciência humana, feita com honestidade e retidão de objeto e método, que entrasse em conflito com a Revelação, num universo criado e sustentado por um Deus sábio por definição, e, por definição, autor último das duas, seria um indício ou da falsidade dessa ciência, ou da esquizofrenia desse Deus. Em qualquer dos casos, nos confrontaria com um problema que não poderíamos avançar sem resolver.

Em todo caso, há outro problema que se põe aí: se aceitamos simplesmente que Deus não existe, então não se pode, sem contradição, deificar a humanidade. Este é um erro comum em todo o chamado neoateísmo contemporâneo. Ele é um falso ateísmo, porque, ao tentar eliminar o Deus revelado, ele simplesmente transfere os atributos que tradicionalmente se concede a Deus para alguma outra realidade – seja a própria humanidade (como fizeram os iluministas), seja um gene egoísta, seja a sexualidade ou a economia, ou mesmo a história – e portanto, se revela, no final, apenas como um neopaganismo de segunda qualidade. Precisamos de ateus corajosos, daqueles que não ficam simplesmente tentando deificar alguma realidade substituta no lugar do Deus revelado, e que ousem levar seu ateísmo até as últimas consequências: se não há Deus, seus atributos de onipotência, onipresença e onisciência não podem ser transferidos para qualquer outro ser ou ente de razão sem que o pretenso ateísmo se transforme em mero paganismo ou panteísmo. Eliminemos qualquer deificação disfarçada, e fiquemos apenas com a contingência mais crua. Tenhamos a coragem de questionar os falsos ateísmos para que se revelem seus pressupostos teístas ocultos, dolosa ou culposamente, pelos seus sequazes.

Eliminemos os falsos deuses que estão escondidos nos sistemas contemporâneos de pensamento supostamente ateístas, e a ciência humana fica sem lastro, porque torna-se mero resultado acidental dos esforços de seres patéticos, contingentes e falíveis, sobre uma realidade que não tem, em em si, nem fora de si, nenhum sentido, nenhuma ordem, nenhuma permanência, nenhum princípio e nenhum fim. Resta-nos apenas o poder mais arbitrário e cru, de um lado, e a morte mais brutal e insana, do outro. Como realidades inapelavelmente imutáveis! Qualquer tentativa de dar um sentido a tudo isto levaria a estabelecer um ponto de valor em alguma parte, (mesmo que fosse a força bruta) e um deus surgiria – seja a deificação do líder político, do guerreiro mais brutal, do sábio mais esperto ou do Estado, tanto daquele que busca esconder suas pretensões de divindade sob discursos persuasivos, seja o que usa a força bruta simplesmente. Um ateu realmente coerente denunciaria qualquer busca de sentido deste tipo como mistificação, e usaria seu poder pessoal para matar ou morrer antes de permitir que alguém ou alguma coisa se passasse por um deus. Um ateu coerente não pode admitir nenhuma saída para o puro caos sem admitir algum deus em alguma parte! E mais, a própria existência de algo caótico, em vez de nada, é uma interpelação que ele não sabe nem pode responder.

Uma saída que parece se apresentar para a presença insuportável do caos parece ser a de deificar o poder absoluto, capaz de impor, pela sua vontade ilimitada e irresistível, alguma ordem por sobre a realidade natural e humana. Esta é a solução de Hobbes e, curiosamente, parece ser também a natureza do Deus de alguns religiosos terroristas contemporâneos, em algumas correntes mais radicais. Sei que é perigoso tocar neste assunto hoje em dia, mas não posso deixar de notar uma semelhança assustadora entre o Deus pretensamente revelado como puro poder que exige total submissão, pelos quais muitos terroristas estão sendo movidos a praticar atos de violência extremos, homicidas e suicidas, pelo mundo, e o Leviatã hobbesiano, por outro lado. Não dá para negar que eles são muito parecidos, apenas têm o sinal trocado: um é um deus em que qualquer resquício de humanidade foi retirado, e para quem a humanidade não significa nada – ele exige uma submissão absoluta de todos. O outro surge magicamente da soma de todos num hipotético Contrato Social teogênico, que exige, em nome de todos, a submissão irrestrita de cada um. Não me parece menos desumano.

Outra saída parece ser proclamar o individualismo mais absoluto e lutar até a morte contra toda tentativa de submissão externa. Seja a luta pela força física, seja pela propaganda ou persuasão – não consigo pensar em nenhuma outra razão para que ateus individualistas se relacionem com outras pessoas senão pela força bruta ou pela sutil persuasão dominadora que gera a opressão ali mesmo onde proclama combatê-la. Esta alternativa também tem sido muito comum hoje em dia, a ponto de vermos verdadeiros coletivos de indivíduos absolutos abraçarem bandeiras de pretensas lutas sociais que, se vencidas, impossibilitariam a própria convivência social e levariam inevitavelmente à eliminação de qualquer um que se apresentasse como outro. Todas as vezes que um coletivo deste tipo conseguiu o poder político, gerou uma ditadura homicida caracterizada pelo culto a uma personalidade forte movida pelo mais puro amor próprio que se confunde com o bem comum. Um Deus, portanto. Um deus bem intencionado que se transforma num Lúcifer incontestável. Um Estado radicalmente laicista, um Estado ateísta, nunca é mais do que uma ditadura em potencial ou em ato.

Não consigo compreender como um verdadeiro ateu, se for consequente com seu próprio ateísmo, possa cair sempre e repetidamente nesta mesma armadilha sem estar escondendo a pretensão de deificar-se ou de submeter-se a algum deus oculto de si mesmo ou do outro. O comum é que o ateísmo seja apenas o disfarce de uma pretensão de autodeificação. O próprio Nietszche proclamou a “morte de Deus” quando percebeu que no fundo do seu ateísmo encontrava-se a pretensão autocontraditória de deificação de sua pessoa. Ele mata Deus porque não pode suportar não ser deus.Mas se ele for deus, então deus existe, e ele já não pode ser ateu. O desejo de ser deus é logicamente incompatível com o ateísmo coerente.

Assim, presos entre o neopaganismo e suas mistificações, o ateísmo radical e o culto ao Poder absoluto, em suas vertentes religiosa, estatal ou pessoal a que nos levaram tanto o iluminismo mais puro de Hobbes e Nietszche, o radicalismo religioso nas suas correntes mais violentas e o ateísmo laicista que não ousa seguir até o fim suas próprias premissas, talvez fosse oportuno dar a palavra, por alguns momentos, a São Tomás, e considerar seriamente o que ele tem a nos dizer.