A questão que São Tomás propõe, aqui, é a de saber se esta ciência, que ele chama de Sacra Doutrina, é uma ciência especulativa, teorética, ou se é uma ciência prática, voltada ao fazer. A hipótese, portanto, é a de que a teologia revelada é uma ciência prática, ou seja, uma ciência em que o conhecimento não se volta, em primeiro lugar, para a especulação, mas para a ação.
São Tomás propõe, então, que há dois tipos de ciência: aquela teorética, em que o objetivo é o de conhecer a verdade sobre o seu objeto, e a ciência prática, em que o objetivo é ordenado à ação. Em nossos tempos contemporâneos, responderíamos a São Tomás que a Doutrina sagrada é uma ciência essencialmente prática. É muito fácil para nós entender a Revelação como uma interpelação de Deus que exige de nós uma resposta prática, em forma de gestos, e não simplesmente uma anuência verbal ou uma disposição para estudar. E é esta a hipótese que São Tomás adota imediatamente, nesta questão: “parece que a doutrina sagrada é uma ciência prática”, diz ele, para abrir este artigo. E aduz dois argumentos: 1. O argumento da Revelação como interpelação à ação, que ele retira da Carta de São Tiago, 1, 22: “tornai-vos praticantes da Palavra, e não meros ouvintes”. 2. O argumento da “lei”: a doutrina sacra abrange a lei antiga e a lei nova; ora, a lei é objeto de ciência prática, e não de teoria. Assim, conclui ele, não há como não reconhecer o caráter essencialmente prático à doutrina sacra.
De fato, hoje temos a clara tendência a pensar na fé como um ativismo. Se vamos a algum ato de culto cristão, ou à missa, vemos por toda parte as pessoas de mãos levantadas, cantando, dançando e fazendo alguma coisa. A sensação de que é necessária alguma participação externa para comprovar de modo palpável a fé transmite a ideia de que a contemplação é algo de valor inferior. E as teologias de cunho político desenvolvidas hoje em dia são uma prova palpável disso: é como se, para ter fé, o sujeito devesse estar engajado em causas sociais ou políticas. E o ato propriamente litúrgico é visto como de menor valor, resquício de uma era conservadora e ultrapassada. Hoje em dia, certamente Maria seria advertida por estar sentada aos pés de Jesus enquanto Marta estava trabalhando. Temos a ideia de que a contemplação de Deus é uma perda de tempo, um escapismo, uma alienação, para usar a linguagem do filósofo alemão Feuerbach.
Mas São Tomás introduz um argumento em contrário, como antítese: as ciências práticas têm por objeto aquilo que o ser humano pode fazer. Ora, a teologia revelada tem por objeto principal Deus. Ou seja, seu objeto não é, principalmente, aquilo que os humanos podem fazer, mas ao contrário, o objeto é “Aquele que fez os seres humanos”. Assim, esta é, essencialmente, uma ciência especulativa.
A questão parece resolvida. Mas não está. Na sua resposta, que é uma síntese, São Tomás não nega nem a hipótese inicial, nem a antítese, mas as retoma numa unidade mais alta. De fato, ele lembra que no artigo passado havia provado que a doutrina sagrada é uma só ciência, embora reúna em si o estudo de coisas que são objetos de diversas ciências humanas, mas reunidas sob o mesmo aspecto formal, que é o de serem conhecidas sob a luz divina. Ora, com a mesma luz Deus conhece a si mesmo e às suas obras. Assim, a sagrada doutrina compreende, em si, aquilo que nas outras ciências envolve o saber especulativo e o prático.
No entanto, o seu aspecto especulativo, contemplativo, é prevalecente. Importa, aqui, conhecer a Deus. Note-se que São Tomás fala do conhecimento a partir de um ponto de vista não nominalista: hoje em dia, prevalece a visão nominalista de que as palavras são simples rótulos que colocamos nas coisas, e que conhecer algo não é possuir a sua forma na respectiva inteligência, mas desenvolver rótulos linguísticos para dominar o objeto de algum modo. Entre os rótulos linguísticos e os objetos a relação é acidental, segundo pensamos hoje. Somos todos adeptos do chamado “nominalismo”, que prega que entre o conhecer e o ser não há senão uma relação externa, fenomenológica, que jamais alcança as coisas mesmas. Assim, para nós – diferentemente do que pensava São Tomás, conhecer é estabelecer uma rotulação capaz de representar e dominar seu objeto de conhecimento de algum modo.
São Tomás, e com ele, de modo geral, os maiores pensadores desde a antiguidade até o Renascimento, entendiam que conhecer era, de algum modo, possuir dentro de si a mesma forma da coisa conhecida. Para ele, o conhecimento não é apenas uma relação externa de rotulação e dominação, mas a forma mais perfeita de possuir uma coisa: é apropriar-se da forma da coisa. Não de uma imagem, não de um rótulo, mas exatamente da mesma forma. Não há maneira mais perfeita de se apossar de algo do que conhecê-la, para São Tomás. Todas as coisas são compostas de matéria e forma, (ou pelo menos de forma e existência, como no caso dos anjos). Quando se conhece, na filosofia aristotélico-tomista, a mesma forma que existe na realidade, de maneira material, passa a existir na minha mente, de maneira intencional.
Assim, a maneira mais perfeita de possuir Deus, que é o objetivo e a felicidade perfeita de todo ser humano, é conhecendo-o. Porque conhecê-lo é possuí-lo dentro de si de maneira efetiva e real. E, uma vez que possuir Deus é encaminhar-se para a perfeição, a moral revelada é o caminho prático para que o ser humano se ordene ao conhecimento perfeito de Deus. Então mesmo os aspectos mais estritamente morais e éticos da Revelação, como os Mandamentos ou o Sermão da Montanha, ordenam-se a encaminhar o ser humano à perfeição própria, ao conhecimento perfeito de Deus – no sentido aristotélico-tomista da palavra “conhecer” – porque possuir a Deus dentro de si é a essência da felicidade eterna. São Tomás, então, ao defender a natureza essencialmente especulativa da teologia, o faz dentro de uma visão muito mais integrada entre conhecimento, relação, posse e perfeição.
A teologia, portanto, é o conhecimento especulativo do ser e do agir de Deus. Ora, em Deus, não há diferença real entre o ser e o agir, como mais adiante São Tomás demonstrará. Logo, mesmo quando trata do nosso agir, a teologia o faz para dirigir-nos ao conhecimento de Deus. Pode-se dizer que o nosso agir é sempre secundário e derivado do agir de Deus, mas não é teologicamente indiferente para a nossa salvação, porque o nosso fazer é essencialmente dirigido à nossa salvação, e a nossa salvação não é outra coisa senão Deus mesmo – em cuja intimidade penetramos quando aceitamos conhecê-lo através da única maneira possível – a Revelação.
A contemplação, para São Tomás, é muito mais que passividade: é na verdade a atividade mais perfeita. Ele voltará a isto na parte I-II da Suma.
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