Como vimos na primeira parte do comentário a este artigo 3, o que está em jogo aqui é a unidade da ciência teológica, considerada como o conhecimento racional e discursivo das realidades reveladas.
Vimos na primeira parte como São Tomás coloca a hipótese contrária à unidade e estabelece para ela dois argumentos. E como ele se choca com um dado revelado que constitui um argumento em favor da unidade da ciência teológica – e portanto contrário à hipótese inicial da pluralidade. Trata-se do Livro da Sabedoria, capítulo 10, versículo 10: “e lhe deu a conhecer a ciência dos santos”.
Na construção de sua resposta, nós enxergamos, admirados, o uso técnico e preciso que São Tomás faz de um jargão filosófico que era usual em sua época, e que hoje dificilmente nós identificamos sequer como uma linguagem filosófica de cunho técnico.
Logo na primeira linha de sua resposta, São Tomás usa as expressões “potência”, “hábito”, “objeto” “formalidade” e “materialidade”. Cinco termos técnicos numa só linha, todos relacionados a um jargão escolástico que nos parece, ao mesmo tempo, vagamente familiar e muito distante. É bom notar que algumas definições somente serão trazidas por São Tomás muito à frente na sua Suma Teológica: a definição de “hábito” estará nas questões 49 a 54 da parte I-II, a definição de ciência estará na questão 57, art. 2º, e por aí se vê o quanto a Suma é um livro complexo de se ler. É manifesto, porém, que São Tomás escrevia para um público já familiarizado com o “trivium” e o “quadrivium”, que eram, para mal comparar, o ensino fundamental e o ensino médio do seu tempo, e no qual estes conceitos já haviam sido entregues e debatidos com os alunos. Assim, ele dispõe de alunos com uma erudição muito maior do que a média contemporânea, para dizer o mínimo.
Vamos apresentar, aqui, algumas definições muito rápidas destes termos, retiradas do livro “Scholastic Metaphysics – A Contemporary Introduction”, de Edward Feser, que reputo excelente para iniciantes e desavisados como eu próprio. “Ato” é a perfeição de uma coisa, ou seja, a plenitude do que ela é. “Potência” é a capacidade que uma coisa tem de vir a ser o que ainda não é. Neste sentido, o ato é logicamente anterior à potência, mas a potência é cronologicamente anterior ao ato. Descomplicando: um ovo de galinha está em potência para tornar-se galinha, e vem, no tempo, antes da própria galinha em que ele se tornará. A galinha, diríamos então, é o ato do ovo. Portanto, o ato deve vir logicamente antes da potência, porque a potência é sempre uma potência para tornar-se alguma coisa especificamente – um ovo somente é um ovo de galinha porque a galinha em ato precede logicamente o ovo, e especifica aquele ovo como galináceo. A forma, portanto, é aquilo que, organizando a potência, torna-a em ato. A matéria, portanto, é aquilo que está como substrato da mudança. A matéria é o que precisa de atualização através da mudança, enquanto a forma é aquilo que resulta da atualização. É claro que esta descrição aqui é uma brutal simplificação, mas nos ajuda a caminhar por este artigo, agora.
Quanto ao hábito, São Tomás o descreve como uma qualidade que torna o ser humano bem ou mal disposto, vale dizer, que, imprimindo uma marca em seu ser, facilita ou dificulta a passagem das potências humanas ao ato. E, do mesmo jeito que o ovo de galinha ainda não é uma galinha em ato, mas, como nós conhecemos as galinhas em ato, somos capazes de determinar a espécie das potências que o ovo possui. Do mesmo modo, é pelo objeto do hábito que determinamos se ele é uma boa disposição – e portanto uma virtude – ou uma má disposição – e portanto um vício.
Assim, São Tomás define a ciência como uma boa disposição, um hábito bom, e portanto, uma virtude intelectual. Uma ciência, para São Tomás, não é simplesmente um corpo de doutrinas que paira no campo das ideias, e que pode ser apropriado por alguém mais ou menos como se contrai um vírus – esta é a visão contemporânea. Para nós, hoje em dia, é difícil entender exatamente o que significa dizer que a ciência é uma virtude. Temos uma visão objetificadora e amoral da ciência, muito diferente, portanto, da visão tomista. Para ele, a ciência é exatamente a virtude existente naquele que transformou a potência para conhecer, que existe em sua mente, no ato do conhecimento. E tornou-se, com isto, um ser humano mais perfeito. Não quero discutir, agora, se uma ciência do mal é possível, porque o próprio São Tomás fará esta discussão mais adiante, na parte da Suma que eu citei acima. Por enquanto, estes conceitos simplificados e provisórios são suficientes para abordar o texto que estamos comentando.
São Tomás então se pergunta: Como se especifica o hábito de uma ciência? Pela sua formalidade. Ou seja, não pelas coisas materiais que ela estuda, mas pela forma com que ela estuda estas coisas – e temos aí de volta o par filosófico matéria X forma que São Tomás nos havia introduzido. O objeto de uma ciência, portanto, não são simplesmente as coisas que ela estuda, mas a relação, o viés com que ela estuda as coisas que estuda.
Dando um exemplo, retirado do próprio texto deste artigo da Suma: para a ciência óptica, ao estudar, digamos, a cor marrom, ela não tem por objeto de estudo a parede, o asno ou o cabelo de alguém, mas a cor marrom que está nestas coisas e que, como objeto de estudo, torna-os unos para esta ciência. Assim, é o objeto de estudo (a cor) que faz com que a óptica estude estas coisas. Assim, do mesmo modo que o aspecto “cor marrom” unifica várias coisas diversas como objeto de estudo de uma só e mesma ciência – a óptica – há uma formalidade, um aspecto, que pode unificar coisas também muito diversas entre si em objetos de estudo de uma só e mesma ciência teológica (ou Sacra Doutrina, como a chama São Tomás). E este aspecto unificador é a circunstância de estudar as coisas como divinamente reveláveis. Os escolásticos chamavam este aspecto, este enfoque, de estudar as coisas “sub specie Dei”, quer dizer, como que pelos olhos de Deus. “A teologia se esforça para compreender o que a Igreja crê, e que pode ser conhecido sub specie Dei. Como scientia Dei, a teologia procura compreender de forma racional e sistemática a verdade salvífica de Deus”. Esta é a definição existente no documento “Teologia Hoje”, da Comissão Teológica Internacional do Vaticano.
Assim, na sua resposta ao primeiro argumento, São Tomás explica que a teologia pode tratar de Deus e das coisas criadas, mesmo consciente de que Deus não pertence à mesma ordem que as coisas. E o pode fazer, uma vez que trata principalmente de Deus, e trata das criaturas apenas no que se referem a Deus, como seu princípio ou seu fim. Voltando ao exemplo do nosso jumentinho; por ser corpóreo, ele é objeto da física. Por ser vivo, é o objeto da biologia. Por ser criatura de Deus, é objeto da teologia. Não podemos, pois, esquecer da diferença entre coisa e objeto, no pensamento de São Tomás.
Quanto à segunda objeção, São Tomás nos quer explicar que as ciências humanas são plúrimas e fragmentadas porque a inteligência humana dos princípios, bem como o raciocínio humano que o leva a conhecer causas e consequências nos respectivos ramos das ciências naturais adapta-se ao modo de ser da razão humana, que é plúrima e fragmentada. Mas, uma vez que o objeto da teologia é tudo o que se refere à divina Revelação, ela tem que ser adequada à inteligência divina, que é simples e conhece todas as coisas pelo mesmo e singular ato. Em suma, há uma só teologia, em toda a sua inesgotável riqueza, porque Deus é um. Sobre a simplicidade de Deus São Tomás ainda aprofundará, mais à frente, aqui na Suma.
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