A discussão que São Tomás nos traz, neste terceiro artigo da primeira questão da Suma, não nos parece tão importante, num primeiro momento. Mas, como veremos, é extremamente relevante: trata-se de saber quantas ciências podem ser construídas a partir da Revelação de Deus: se uma apenas, ou se muitas. Vale dizer: existe apenas uma ciência da Revelação, ou há muitas?
Num tempo como o nosso, em que o “pluralismo” parece ser o valor central da vida, e as certezas são desconstruídas, seria muito tentador dizer que somos livres para construir diversas teologias reveladas, conforme os gostos e as visões de cada grupo, de cada estudioso, de cada escola; o curioso é ver que este problema, que nos parece estritamente contemporâneo, se apresentava também para São Tomás. Ele propõe discutir, agora, se a ciência da Revelação é única, ou se é possível construir muitas ciências teológicas a partir da mesma Revelação. Isto, portanto, é um problema de todos os tempos, não apenas do nosso.
Tento deixado bem firme, no artigo primeiro desta questão, que a Revelação divina é necessária para nossa salvação, e portanto conveniente a Deus, e tendo determinado, no artigo 2º, que é possível construir um saber cientificamente fundamentado sobre esta Revelação, a questão agora e a de saber quantas ciências teológicas se podem fundar, racionalmente, sobre a Revelação. Uma vez que muitas ciências se podem fundar sobre os princípios que nos são conhecidos naturalmente, não seria lógico afirmar que, tendo a Revelação uma riqueza interior que envolve o conhecimento de Deus e também o conhecimento daquelas coisas que, embora não sejam de si mesmas inacessíveis à razão, são necessárias à nossa salvação (ver o artigo 1º desta questão da Suma), dela deveriam surgir, do mesmo modo, muitas ciências?
Esta é a hipótese inicial que São Tomás nos apresenta. Ele diz: parece que a ciência sagrada não é uma só ciência. E nos apresenta dois argumentos em favor desta hipótese inicial. O primeiro argumento é exatamente aquele que mencionamos há pouco: cada ciência, segundo o ensinamento de Aristóteles, ocupa-se com apenas um gênero de objetos. Ora, a Revelação trata de Deus e da criação, e, como é óbvio, as criaturas não pertencem ao mesmo gênero de coisas que Deus. Havendo, pois, objetos de gêneros diferentes, haverá diferentes ciências a serem geradas a partir da Revelação.
O segundo argumento vai na mesma linha que este: mesmo quando trata das criaturas, a Revelação envolve seres diversos, como a natureza física e biológica, os anjos, os seres humanos, e estes últimos nos seus aspectos ontológicos, éticos e comportamentais, históricos e culturais. Ora, esta diversidade de assuntos, quando abordados a partir da filosofia, ou seja, da inteligência e da sensibilidade humanas, dão origem a ciências diversas. Portanto, pelo mesmo motivo, quando partem dos princípios divinamente revelados, a ciência teológica sobre eles não pode ser uma só.
É interessante que quando nós, leigos, nos debruçamos hoje em dia sobre as coisas que são escritas a respeito de teologia, parece-nos que os estudiosos contemporâneos estão certos de que não há, nem pode haver, unidade de ciência teológica. De fato, multiplicam-se as abordagens teológicas, e ouvimos falar em “teologia da prosperidade”, “teologia da libertação”, “teologia protestante”, “teologia latino-americana” e outras expressões semelhantes, cujos propositores defendem como visões totalizantes, válidas e legítimas de direito, e não somente como enfoques, aproximações diferentes da mesma inteligência humana sobre a mesma Revelação divina.
Vale dizer, para que cada uma destas “teologias” existisse e fosse capaz de entrar em contradição com a outra, sem que uma das duas fosse simplesmente falsa, e não apenas como aproximações complementares, enfoques diversos mutuamente enriquecedores e capazes de correção fraterna recíproca, e mesmo subordinadas a princípios mais elevados capazes de retificá-las e unificá-las, então teríamos que concluir: ou Deus não existe, ou a Revelação é um engodo, ou Deus é esquizofrênico e se revela de modo diferente e mesmo contraditório para cada pessoa, ou então os seres humanos não compartilham a mesma inteligência, e no fundo o diálogo entre os humanos é impossível – e não existe alguma coisa como a “razão humana” que pudesse originar ciência.
Cada uma destas questões será abordada por São Tomás na Suma, e teremos oportunidade de discuti-las no futuro, se Deus quiser. São Tomás não se esquivará de debater abertamente se Deus existe, se há uma Revelação, se há uma razão humana capaz de, com o suporte da Graça, reconhecer criteriosamente uma Revelação divina autêntica e de debatê-la e inteligi-la verdadeiramente, ainda que não possa esgotá-la. O fato é que as respostas que São Tomás nos traz sobre estes assuntos jamais foram desqualificadas por todo o pensamento posterior – que simplesmente as rejeitou sem considerá-las de modo suficientemente cuidadoso. Hoje, desconhecendo os debates sobre estas coisas, e a sua razoabilidade, nós assumimos simplesmente que não há Deus, ou que, se há Deus, ele não tem uma natureza pessoal; e se o tem, não se importa conosco, e ainda que se importasse, não teríamos condição de entrar em relação real com ele, porque seria impossível discernir, no meio de tantas religiões e espiritualidades, qual oferece uma relação verdadeira com Deus. E, como no fundo acreditamos também que Deus não passa de uma “projeção de perfeição humana”, então achamos que toda religião não passa de um culto à humanidade e suas perfeições ou necessidades, e portanto cada uma é válida a seu modo, porque nenhuma é verdadeira. E como já não acreditamos que existem verdades, ou que, mesmo que existissem, nossa razão humana não seria capaz de reconhecê-la, e mesmo que o fosse, não haveria no fundo a possibilidade de comunicá-las adequadamente por causa das limitações da nossa natureza, então o único critério para o conhecimento dito científico não é mais a verdade, mas a eficácia. Por isto, em termos de religiosidade e de relação com Deus, tendemos a pensar assim, hoje em dia: se esta ou aquela religião ou espiritualidade funciona para você, então vá em frente, fique com ela, porque ela é válida. Aquilo que funciona é bom, o que não funciona não presta e deve ser descartado.
Este é o limite, para nós, da razão humana: a sua capacidade prática de dar resultados. Não acreditamos mais no conhecer, mas apenas no ser capaz de fazer. Este é um tema ao qual São Tomás voltará nos artigos seguintes, quando perguntar se a Doutrina Sagrada é um saber teórico ou exclusivamente prático. E quando nós descobrimos que São Tomás já enfrentava estes temas no século XIII, só nos resta exclamar: ou ele é um grande profeta, ou todos estes problemas já se apresentavam em seu tempo, e nós, na nossa soberba histórica, achamos que estes são problemas exclusivamente contemporâneos. Não são. E as respostas de São Tomás a elas são de interesse religioso, sem dúvida. Mas são de profundo interesse filosófico e científico, porque nos fazem abordar a racionalidade humana e a razoabilidade das coisas de um modo muito mais consistente do que os que nos são oferecidos hoje em dia. Resgatar São Tomás parece ser um serviço importantíssimo a ser oferecido às pessoas de hoje. Há uma razão humana, ela é confiável, ela se relaciona com um mundo que faz sentido criado por um Deus pessoal que é amor. E São Tomás constrói estas afirmações em bases excelentes, que nós, por mero desconhecimento, ou por nos considerarmos superiores por sermos moderninhos e contemporâneos, estamos desprezando.
Assentada, então, a hipótese negativa e seus argumentos, São Tomás traz finalmente um argumento em contrário àquela sua tese inicial: quando as Escrituras falam do conhecimento humano a respeito das coisas reveladas, ela fala no singular. E São Tomás cita o livro da Sabedoria, capítulo 10, versículo 10: “deu-lhes a ciência dos santos”.
Uma pequena digressão, se me permitem: ao lembrar que a Doutrina Sagrada é a ciência dos santos, São Tomás volta a relacioná-la estreitamente à salvação, como já fez no art. 1º desta Questão. A Teologia Revelada, para São Tomás, não é o fruto do esforço da inteligência humana isolada, mas sempre uma relação da inteligência humana com a divina, em que esta última respeita aquela na sua integridade, mas a eleva generosamente pela Graça até alturas inimagináveis. Gratia non tollit naturam, sed perficit (a graça não destrói a natureza, mas a aperfeiçoa), como dirá mais à frente São Tomás, num artigo desta mesma questão primeira – especificamente o artigo oitavo.
No próximo texto examinaremos a síntese de São Tomás quanto a este problema, neste artigo.
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