Depois de haver debatido a necessidade e a razoabilidade da Revelação Divina para a salvação humana, São Tomás traz uma nova hipótese para o debate: “parece que a Doutrina Sagrada não é uma ciência”. Ou seja, qualquer reflexão sobre a fé revelada e salvífica – como debatida no artigo anterior – está destinada a ficar no campo das opiniões e das certezas estritamente subjetivas, alheias à exposição metódica lógica e rigorosa, e à confrontação racional.
Este debate também me parece muito contemporâneo, algo que podemos ouvir hoje em dia em muitas salas de aula e muitas mesas de bar. É surpreendente ver São Tomás preocupado com o assunto em pleno século XIII. Todos nós, filhos da contemporaneidade, fomos treinados para imaginar que a Idade Média é a era da irracionalidade, da obscuridade, em que algo como a “ciência” não era uma preocupação de ninguém. Pensamos assim: os mais simples não se preocupavam com a cientificidade dos seus pensamentos, porque a Igreja os mantinha na ignorância. Nós somos treinados para pensar que, na Idade Média, os clérigos de forma geral, embora detivessem o conhecimento acumulado na Antiguidade nas suas estantes, estavam mais preocupados em dominar, esconder e mistificar do que em dar foros de cientificidade para as suas superstições escravizadoras de mentes.
Eu tenho certeza de que a maioria de nós responderia “não” à pergunta que dá título a este artigo da Suma. A hipótese de São Tomás seria, com certeza, para nós, não apenas uma hipótese, mas uma certeza indiscutível. É muita ousadia, pois, de São Tomás, começar tomando por hipótese exatamente aquilo que os ateus e agnósticos contemporâneos, e mesmo os adeptos de religiões não cristãs, têm por indiscutível. Como atribuir cientificidade a especulações sobre Revelação Divina?
E, de modo ainda mais destemido, São Tomás fundamenta sua hipótese de que a Teologia Revelada não pode ser uma ciência em dois argumentos que parecem plenamente atuais e, para nós, plenamente irrespondíveis. São eles:
1. Toda ciência provém de princípios evidentes por si mesmos. Princípios que sejam objetivos, aceitos por todo mundo. Mas a reflexão sobre a fé, na forma de uma doutrina cristã, procede, como é óbvio, dos artigos da fé, que não são aceitos por todas as pessoas; a Revelação não pode, pois, ser objeto de uma ciência.
2. Além disso, não há ciência daquilo que é subjetivo, individual, particular. Mas a reflexão sobre a fé nos conduz a histórias individuais, subjetivas, relativas inclusive a sentimentos e escolhas de determinados personagens concretos como Abraão, Isaac, Jacó e semelhantes. Isto não pode ser fundamento para uma ciência.
Neste passo, São Tomás nos confronta com um argumento em sentido contrário, vindo de Santo Agostinho. Na obra agostiniana “De Trinitate”, Santo Agostinho nos diz que “a fé que salva é gerada, nutrida, defendida e corroborada exatamente pela ciência da doutrina sagrada”. Ora, se uma mente magistral e santa como a de Santo Agostinho viu na Doutrina Sagrada a natureza de um conhecimento científico, eis um ponto a ponderar, para reconsiderar a hipótese inicial.
São Tomás não hesita, então, em afirmar, concluindo, que a Doutrina Sagrada – ou seja, aquilo que chamamos de teologia revelada – é uma ciência. E o faz partindo de uma noção de ciência muito mais rica do que aquela que temos hoje em dia. Hoje, quando falamos em “ciência”, pensamos logo em um corpo de conhecimentos técnicos capaz de dominar seu objeto, controlar seus poderes e efeitos e fazê-los trabalhar em favor do ser humano. Um conhecimento que não resulta no controle e dominação sobre o objeto, submetendo-o ao poder do cientista – e dos seres humanos – em algum grau, pode ser tudo, menos um “conhecimento científico” nos termos em que pensamos contemporaneamente.
Nestes termos, pensar numa “doutrina sacra” como “ciência” nos termos de hoje em dia seria imaginar que poderíamos controlar Deus – e sua eventual onipotência – e obrigá-lo a trabalhar em nosso favor, de modo objetivamente mensurável e matematicamente quantificável. Caso contrário, na ausência de tal controle e quantificação, dificilmente podeíamos chamar a teologia de ciência, nos termos de hoje em dia.
Outro dia, eu li em algum lugar que vários cientistas contemporâneos, em vários lugares do mundo, estão procedendo a pesquisas científicas sobre Deus e sobre a religião, e tentando controlar e quantificar resultados. Querem, por exemplo, verificar os efeitos práticos de orações e da esperança em milagres, na cura de doentes graves. Estas experiências muitas vezes consistem em dividir grupos de pacientes entre aqueles que rezam e recebem oração, por um lado, e grupos de pacientes que não rezam e não recebem oração, por outro, para saber se a oração e a fé na intervenção de Deus de fato faz diferença em termos de percentuais de cura. O problema é que isto parte do dilema de descobrir se Deus existe ou não existe, e se existe, é visto como uma energia impessoal, e a investigação quer saber se esta energia existe e exatamente como pode ser “ativada” ou “desativada” a partir de uma conduta humana. Porque, se Deus for pessoa, ninguém combinou com Ele se ele queria ou não ser objeto de experimentos laboratoriais. Se houver pessoalidade em Deus (e São Tomás debaterá isto mais a frente, aqui na Suma Teológica), certamente ele não pode ser tratado como um ratinho de laboratório.
Para a mentalidade contemporânea, portanto, para que fosse uma “ciência”, os resultados da reflexão teológica decorrente da Revelação deveriam poder ser controlados, quantificados e repetidos em ambiente controlado. Isto nunca ocorrerá, é claro. Se Deus não existe, controlar o inexistente é impossível. Se, porém, Ele existe, por definição é ele quem está no controle de tudo – ou então ele não é Deus!
Não é disto, portanto, que São Tomás está falando quando estuda a cientificidade de uma teologia revelada. Este tema da relação indissolúvel entre fé e razão permeia toda a Suma, e será objeto de muitas reflexões, ainda. Mas, por ora, basta-nos resgatar o conceito aristotélico de “ciência” como um “discurso ordenado da razão que parte de determinados princípios”. A palavra grega para “discurso ordenado da razão” é “logos”, daí que toda ciência normalmente inclua o sufixo “logia” no seu nome (embora nem todo pretenso saber humano que inclua este sufixo seja de fato uma ciência. Basta lembrar do caso da chamada astrologia).
A ciência, no seu conceito mais amplo, aristotélico, é um saber ordenado que, partindo de determinados princípios, procura compreender seu objeto pelo conhecimento das suas causas. São Tomás ainda falará mais sobre a noção aristotélica de causas aqui na Suma Teológica.
Por ora, São Tomás nos lembra que, quanto aos princípios dos quais parte, as ciências se dividem em dois grupos:
1. Aquelas que partem de princípios diretamente evidentes à razão humana, como, por exemplo, o princípio da “quantidade” para a matemática, ou o princípio da “extensão” para a geometria.
2. Aquelas ciências que partem de princípios fornecidos por uma ciência superior. Assim, a partir dos princípios fornecidos pela matemática, a ciência da engenharia pode calcular estruturas para fazer construções. A partir de princípios fornecidos pela ciência geométrica, a arquitetura pode desenhar edifícios mais funcionais, mais práticos e com melhores proporções. E assim por diante.
É deste segundo modo, diz São Tomás, que se pode falar na cientificidade da Teologia revelada. A partir dos princípios contidos na Revelação, entregues à fé humana, a razão humana pode proceder inteligentemente na busca do desenvolvimento de um discurso ordenado, estruturado e razoável, extraindo dos dados de fé as consequências racionais e lógicas, teóricas e práticas, para a vida humana. A fé, então, relaciona-se com a razão inseparavelmente. Não há dúvida, para São Tomás, de que a fé é um dom livre e gratuito de deus, e não uma conquista humana, como ele já pincelou no artigo 1 desta mesma questão e desenvolverá mais adiante na Suma. Mas relaciona-se inseparavelmente com a razão, tanto, por um lado, para perceber a razoabilidade da própria Revelação, e evitar tomar por Revelação divina aquilo que é apenas alucinação espiritual, quanto para extrair dela as consequências que a razão humana pode discernir. Para São Tomás, a fé é uma virtude intelectual. Não existe, para ele, a possibilidade de uma fé cega, ou da oposição entre fé e razão. Voltaremos a isto muitas vezes.
Assim, ao demonstrar a possibilidade de uma ciência que parte de princípios que para ela mesma não são evidentes, como as ciências derivadas de outras ciências mais elevadas, São Tomás responde à primeira objeção que ele colocou, acima. Quanto à segunda objeção, aquela que afirmava que não é possível uma ciência sobre a fé, porque não há ciência de particularidades, São Tomás nos lembra que os fatos particulares nos quais a Revelação se assenta, como, por exemplo, a vida e as experiências subjetivas dos patriarcas bíblicos, são introduzidos a dois títulos: 1. Servirem de exemplos práticos para nós, para reflexão ética sobre o bem a fazer (a confiança em deus demonstrada, por exemplo, por Moisés) quanto sobre o mal a evitar (lembremos, v.g., o adultério do Rei Davi); e 2. fundamentar a autoridade das pessoas por meio das quais a Revelação nos foi transmitida, permitindo que a nossa inteligência possa verificar os sólidos fundamentos em que assenta a fé.
Com estes dois argumentos, São Tomás responde, com quinhentos anos de antecipação, a objeções surgidas da filosofia idealista alemã pós iluminista, no sentido de que a Revelação baseada em fatos particulares e pessoas concretas jamais poderia ter valor salvífico universal e significação geral. A fé, segundo São Tomás, pode e deve encarnar-se, porque, desencarnada, jamais poderia atingir concretamente os seres humanos reais, históricos, na concretude da sua vida.
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