É muito interessante esta metodologia de São Tomás de Aquino: ele começa seu artigo destacando o fato de que aquilo que ele está trazendo para a conversa não é evidente para o interlocutor, e mais: ele admite a possibilidade de que seu interlocutor comece exatamente pela hipótese que nega aquilo que será proposto. Logo neste primeiro artigo da primeira questão da primeira parte da Suma Teológica, ele já começa propondo ao leitor: “parece que não é necessária outra doutrina além das disciplinas filosóficas”. Curiosamente, não são poucos os meus amigos que pensam exatamente assim, quase oitocentos anos depois de São Tomás escrever a Suma. Talvez não saibam exprimir de forma tão clara quanto ele exprimiu, mas estão prontos a defender sempre que o ser humano não precisa de outros conhecimentos além daqueles que pode adquirir através de suas próprias reflexões. E, sendo desnecessários outros conhecimentos além destes, uma Revelação não seria necessária. E, se não é necessária, é dispensável. Para estes, uma Revelação pode até ser acolhida pelos crédulos, mas não tem dignidade para ser vivida nem debatida em foros públicos. Por aqui se vê que o próprio prosseguimento da Suma depende totalmente da resposta a esta primeira hipótese.
Em defesa a esta hipótese, São Tomás aduz dois argumentos, que são as teses com que ele trabalhará em seguida em sua resposta. Não são simplesmente dois fundamentos fraquinhos que ele dispensará com um passe de mágica na resposta que der adiante, mas dois argumentos sérios que ele terá que levar em conta para responder satisfatoriamente à dúvida proposta. Todos os artigos da Suma são construídos assim: São Tomás não teme iniciar cada debate levantando como hipótese exatamente aquele pensamento que parece se opor àquilo que ele deveria provar a seu leitor, e em seguida fundamentar esta hipótese de dois, três ou mais fundamentos fortes em seu favor. Adiante ele trará o chamado argumento sed contra, que é a antítese à hipótese inicial, e sintetizará tudo na sua resposta. E passará a responder a cada fundamento individualmente, no final do artigo.
No artigo que agora estamos lendo, depois de apresentar a hipótese de que nenhuma doutrina baseada em revelações é necessária, ele aduz dois fundamentos muito fortes em favor dessa hipótese. O primeiro argumento é que o ser humano não deve se meter a especular com aquilo que ultrapassa a sua razão; e aduz, como autoridade para sustentar este argumento, uma citação bíblica, do Livro do Eclesiástico, 3, 22: “não procures investigar aquilo que vai além de tua capacidade”. No segundo argumento, ele diz que, ainda que admitamos que há Deus (o que ainda será discutido adiante, na Suma), a filosofia já nos supre com ferramentas e debates suficientes sobre ele, tanto que há ramos da própria filosofia que se chamam de “teodiceia” ou “teologia filosófica”. Isto, diz o argumento, torna desnecessária que haja outra doutrina, de natureza revelada, sobre Deus.
São Tomás traz, portanto, um argumento filosófico e um argumento escriturístico em defesa da hipótese de que a Revelação é desnecessária – e mesmo inconveniente.
Parece paradoxal que São Tomás aduza um argumento escriturístico para fundamentar uma hipótese de que a Revelação é desnecessária ou inconveniente. Mas, como vimos na nossa leitura anterior, do Prólogo da Suma, São Tomás está se dirigindo aos iniciantes na fé cristã, não a ateus ou a seguidores de outras religiões. Destes, ele já tratou na “Suma contra os Gentios”, na qual ele jamais aduz fundamentos de fé para sustentar suas posições contra quem não compartilha a fé. Mas aqui ele pode fazê-lo, já que ele presume que seu leitor partilha da sua fé. Assim, ele está tentando prevenir que uma má leitura da Bíblia, por parte de um cristão, possa confundi-lo no caminho do aprofundamento da fé.
São Tomás aduz, em seguida, um argumento em favor da conveniência e da necessidade de uma Revelação divina, e de uma reflexão metódica sobre ela. Este é o chamado argumento sed contra; o que me parece é que ele está dizendo ao seu interlocutor: tudo bem, eu posso entender que você tem fundamentos para a sua hipótese inicial, que são estes dois fundamentos que acabamos de ver. Mas há um forte argumento contrário a esta hipótese que me impede de aceitá-la de plano, e por isto precisaremos examinar o assunto mais detidamente. No caso do artigo que estamos lendo agora, o argumento que São Tomás aduz também é uma passagem bíblica, retirada de 2Tim 3, 16, que diz: “Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para instruir, para refutar, para corrigir, para instruir na justiça”.
Curiosamente, esta passagem da Segunda Carta a Timóteo já surgiu para mim em algumas conversas que tenho com meus amigos evangélicos, e alguns deles usam este trecho para afirmar que, na relação do ser humano com Deus, apenas a Escritura é inspirada e é suficiente por si mesma para sustentar a vida de fé. Mas não parece ser isto que o texto diz: reconhecer que a Escritura é necessária e útil não significa dizer que ela é suficiente. Na verdade, todo o raciocínio de São Tomás, aqui, parece indicar que a Escritura é uma interpelação sobre a qual a razão humana deve se debruçar com toda a sua integridade, iniciando um diálogo em que a fé pressupõe a razão e se esclarece a partir desta, e leva em conta toda uma dinâmica de relação depositada em séculos de diálogos e debates santos entre a humanidade e Deus.
A questão está posta, portanto. Uma hipótese, dois fundamentos, uma antítese. Resta saber como São Tomás construirá sua síntese e responderá a seus interlocutores.
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